Pantera Negra e o Mulherismo Africana

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*Joceline Gomes

Pantera Negra. Um super-herói criado na década de 1960 e transportado para os cinemas, como filme solo, apenas em 2018. Mas veio em boa hora e em boas mãos. Pantera Negra inaugurou um novo momento de visibilidade e representatividade. Com um elenco praticamente todo formado por pessoas negras, incluindo até os dublês, o filme alcançou bilheterias estratosféricas, e esta mesma que vos fala foi ao cinema três vezes, coisa que não faço desde que a meia era 4 reais. Aí você me fala: mas Joceline, como assim Pantera Negra, você prometeu que ia falar sobre as correntes teóricas além do feminismo para abordar as especificidades das mulheres negras. E eu vou. Parece que não mas Pantera Negra facilitou e muito o meu trabalho. Porque trouxe imagens. E você sabe que uma imagem, ainda mais de Hollywood, vale mais que três textos.

Então vamos lá, vamos falar sobre minha corrente teórica favorita, que não é apenas um conceito, é uma também uma proposição política: o Mulherismo Africana. Sintetizando, como num Tweet, os três princípios básicos do Mulherismo Africana são: matriarcado (mulheres como centro da comunidade), pan-africanismo (negros são africanos, do continente ou da diáspora, porque fomos tirados de lá por sequestro) e afrocentricidade (de, por e para negros, blackmoney, por exemplo). Esses três princípios estão lá, em Pantera Negra. Aqui um parênteses: o “a” no final de “Africana”, não é de feminino, é de plural, para lembrar que existem diversas “Áfricas”.

SPOILER ALERT

daqui pra frente. Mas se você quer ver o filme com outros olhos, prossiga. Não importa o que eu te diga sobre o filme, o que vale é tudo que ele representa e a experiência de ver tudo isso que vou escrever aqui se materializando na sua frente. Vá ver.

Matriarcado

O papel das mulheres em Pantera Negra são fundamentais para a trama. O herói é homem, mas sem as mulheres ele não toma nenhuma decisão. Isso é o matriarcado. A mulher é a figura central de sua comunidade, sendo respeitada, reverenciada e ouvida, pois ela conhece melhor os anseios e necessidades de cada um, sendo a responsável por pensar as estratégias para melhorar a vida do seu povo. Isso fica evidente em cada personagem feminina que cerca o herói: seja a líder do exército de mulheres Okoye, a irmã cientista afrofuturista Shuri, a espiã do mundo exterior (e quase rainha) Nakia, ou a rainha-mãe ponderada e sábia Ramonda. Todas procuram, juntas, e da sua forma, melhorar a vida de todos, salvando a vida do rei e de todo o povo de Wakanda de diferentes formas e em diversas ocasiões.

Nakia propõe, inclusive, compartilhar todo o conhecimento e tecnologia de Wakanda para melhorar a vida da população em todo o mundo, e diminuir com isso as desigualdades e o sofrimento delas decorrente. Seu senso de justiça social, econômica e intelectual mostra que é uma verdadeira rainha, preocupada com o bem estar de todos.

Afinal, enquanto todos não formos livres, ninguém será, correto? Matriarcado é isso. Não há superiores ou inferiores.

Homens e mulheres trabalham juntos, horizontalmente, em prol de um povo que precisa ser orientado, cuidado, liderado para um bem maior e coletivo.

Nah Dove, em sua obra “Mulherisma Africana: Uma teoria afrocêntrica” (1998) explica que o matriarcado estabelece uma relação de complementariedade entre o masculino e o feminino, não há hierarquias e ambos trabalham juntos pela organização social, porém, “a mulher é reverenciada em seu papel como a mãe, quem é a portadora da vida, a condutora para a regeneração espiritual dos antepassados, a portadora da cultura, e o centro da organização social” (1998:08).

Sobre este ponto, há pessoas que argumentam que o Mulherismo Africana é uma teoria que reforça o machismo ou que relega às mulheres o papel de mãe e dona de casa, ou ainda que as mulheres exerciam um poder econômico e social opressor ao homem. Dove, utilizando a definição de Cheikh Anta Diop (1959/1990) para o matriarcado, explica que este sistema é baseado “em relações de reciprocidade, complementares, e, portanto, não hierárquicas, não sugere que as mulheres estavam em um tempo de superioridade aos homens”, muito menos que estivessem fazendo atividades domésticas por obrigação ou por imposição destes. Ao contrário, como afirma Diop (1959/1990 apud Dove 1998) um “regime matriarcal, longe de ser imposto ao homem por circunstâncias independentes da sua vontade, é aceito e defendido por ele”. Ainda assim, é importante ressaltar que apesar dessa complementaridade entre homens e mulheres no Mulherismo Africana, essa unidade não significa que não haja assimetrias ou diferenças, pois homens e mulheres ocupam papeis sociais diferentes, ou seja, esta unidade é heterogênea.

Um detalhe que gostaria que você, que ainda não assistiu ou pretende assistir de novo, prestasse atenção é: Ramonda, a rainha-mãe, passa grande parte do filme com turbantes ma-ra-vi-golds. Porém, quando T’Challa morre, a próxima cena da rainha-mãe é sem turbante. Não se trata apenas de um “pano na cabeça”. É coroa. É nesses detalhes que você percebe que a galera não está pra brincadeira. Representatividade é importante, e não deve ser feita de qualquer jeito.

As referências à ancestralidade também são emocionantes, e nos reconectam com quem somos.

Pan-africanismo

Em determinado momento do filme, o “vilão” (as aspas são por minha conta, porque me identifiquei com ele em vários aspectos) Killmonger fala: mas a vida não começou aqui em Wakanda(=África)? Somos todos daqui. O pan-africanismo é, resumidamente, saber que se estamos no Brasil hoje é porque nossos ancestrais foram sequestrados de África e trazidos escravizados para cá. Assim como grande parte da população negra nas Américas. Logo, somos todos africanos, do continente ou da diáspora.

De acordo com Gilza Marques (2016), o pan-africanismo é a plataforma política do Mulherismo Africana. Para ela, afirmar-se pan-africanista “significa dizer que povos pretos do continente e da diáspora devem lutar unidos pela libertação, é reconhecer que toda pessoa preta é africana e que a opressão racial se expressa de maneira semelhante em qualquer lugar do mundo onde uma pessoa preta esteja” (2016). De acordo com a autora, o Brasil é uma “invenção europeia” que sempre considerou a população negra como “cidadãos de segunda classe exatamente devido a nossa origem africana”.

Nah Dove usa o termo “Africano” para definir não apenas os nascidos no continente, mas também os descendentes de sua diáspora, “porque há uma crença de que nós, apesar de nossas experiências diferentes, estamos ligados à nossa memória cultural e espiritualidade Africana e podemos a qualquer momento nos tornarmos conscientes de sua importância para nossa Africanidade e futuro” (1998:04).

A autora destaca ainda que o Mulherismo Africana é uma teoria central para “a construção da visão de mundo Africana”, reforçando o conceito de que tráfico de pessoas escravizadas foi o responsável por tirar a população negra da África, mas que isso não tirou os elementos culturais, espirituais e individuais de homens e mulheres negros que, mesmo fora do continente, não podem negar sua origem africana.

Afrocentricidade

De preto, pra preto, por preto. Nós por nós. Black Money (negros comprando de afroempreendedores). São exemplos de afrocentricidade, que é o caminho para o pan-africanismo. É saber que operamos em coletivo, e que por isso é importante buscar um referencial africano, pois fazemos parte de um povo africano, independentemente de onde estivermos. Se somos segregados individualmente, precisamos reagir em grupo. Busque suas referências negras.

Pantera Negra acaba de se tornar uma. Seja você também uma para as pessoas a sua volta. Estude, pesquise, leia sobre a História da África e você vai entender sobre sua própria história. O final do filme é a coroa da afrocentricidade: Nós por nós, cuidando do nosso povo. Vamos nos educar, nos informar, capacitar e qualificar os nossos para que possamos nos emancipar, em conjunto, por meio da educação. Não dá pra resolver tudo com educação, mas esse é o caminho do autoconhecimento. E uma pessoa que se conhece, controla o que quer que seja, né?

Tendo tudo isso dito, Pantera Negra é ancestralidade. É matriarcado. É pan-africanismo. É afrocentricidade. É um movimento, que só começou. Aumentou e muito os padrões de filmes de representatividade negra, e não apenas de super-herói. Agora vai ser difícil fazer qualquer coisa de qualquer jeito. É um marco. Wakanda Forever.

P.S: Eu sei que o dinheiro continua indo pros super produtores brancos. Eu sei que é só um filme. Mas representatividade importa. E eu sei que você sabe disso também.

 

*Joceline Gomes é jornalista, dançarina, e também colunista da Rádio Eixo, onde esse texto foi publicado originalmente. Era #TeamKillmonger mas virou #TeamNakia graças a debates com pessoas muito inteligentes no Twitter.

 

Referências

MARQUES, Gilza. 10 tópicos sobre Mulherismo Africana (para escurecer o pensamento). 24 mar 2016. In: Pensamentos Mulheristas. Disponível em: < https://pensamentosmulheristas.wordpress.com/2016/03/24/10-topicos-sobre-mulherismo-africana-para-escurecer-o-pensamento/ >. Acesso em: 11 abril 2016.

DOVE, Nah. Mulherisma Africana: Uma teoria afrocêntrica. In: Jornal de Estudos Negros. Vol. 28. № 5. Maio 1998. 515-539. Disponível em: < https://estahorareall.files.wordpress.com/2015/11/mulherisma-africana-uma-teoria-afrocecc82ntrica-nah-dove.pdf >. Acesso em: 13 abril 2016.

 

Um pensamento sobre “Pantera Negra e o Mulherismo Africana

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