Aprenda: preto é uma palavra linda e não ofende ninguém*

pretos

*Basília Rodrigues

Cento e vinte e nove anos desde o fim da escravidão e ainda é preciso explicar que a defesa de negros e negras não tem nada a ver com vitimização. Para piorar, o racismo velado anda perdendo espaço para a falta de vergonha na cara de quem molda seu jeito de ser de acordo com a cor da pele das pessoas. Com alguns, sorrisos; com outros, racismo. É como aquele sujeito que anda na festa entre amigos, sorridente e comum, mas, ao se referir a uma mulher negra, agride.

No início do mês, isso aconteceu comigo. Estava em um evento de jornalistas. E, ao ouvir que eu era repórter, um rapaz quis confirmar a minha profissão e se eu era negra. Pois é, ele me olhou e perguntou isso frente a frente.

As duas palavras em uma mesma frase não foram suficientemente plausíveis para aquele rapaz, que, afundado bem mais do que em copos de uísque, partiu para uma provocação inegável: sou negra.

Em seguida, o homem disse: “Não sei se você pode conversar comigo”. Explicou que certo candidato à Presidência da República tem restrições a pessoas negras. “Posso conversar com você? Vou votar nele e ele não deixa”, afirma.

Inconveniente, o eleitor/racista/bêbado é convidado a se retirar, mas pede para ficar porque estava “dando em cima da preta”. E eu respondi prontamente: “Ser chamada de preta não me ofende”. Uma pessoa que testemunhou a conversa, assim como eu, se sentiu transportada para alguma cena do passado em pleno 2017. Seu discurso e sua presença não cabiam mais naquela mesa, nem no presente.

Não há nada mais sintomático sobre preconceito do que associar certos tipos de profissão a certos tipos de pessoas e tons de pele. É surpreendente ver como o inconformismo pode se revelar do nada – ele não se aguenta mais velado.”
Torço para que mais negros se afirmem como são e protejam sua autoestima, sem perder a leveza da vida. Venho aqui hoje escrever isso: não saia da mesa, encare. “Preta” é uma das palavras mais lindas que eu já ouvi, mas é mal colocada. Aprenda: esse termo não ofende e nunca mais alguém irá usá-lo na tentativa de ofender.

*Basilia Rodrigues é repórter da CBN há quase 10 anos. Editora da Revista Evoke, que circula em Brasília. Colabora com os sites Congresso em Foco e Jota. Formada pelo Uniceub, em Jornalismo, cursa especialização em Historia, Sociedade e Cidadania.

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Projeto Saravá

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Executado pela fotógrafa Thamires Cursino (Festivais Satélite 061, Elemento em Movimento, Mamulengo de RAPente, Circulação quarteto Capivara). O projeto Saravá visa mostrar, através da fotografia, a autenticidade e a beleza que os cultos de matriz africana possuem, com todas suas diversidades e características marcantes. A ideia deste trabalho é levar um olhar de dentro dos cultos afro-brasileiros para a população.

Thamires é apaixonada pela arte da fotografia, gosta de fotografar cultos de matriz africana, cultura popular e espetáculos.

Em conversa com o FP, Thamires diz que sentiu ‘uma estrema necessidade de mostrar um olhar diferenciado para os cultos de matriz africana. Sou umbandista e sei o como é ter olhares tortos para nossas guias no meio da ruas. Queria mostrar a beleza, o colorido e principalmente a paixão dos seus filhos. O povo do santo tem uma dedicação e um amor pelo que faz que transborda, levamos os ensinamentos do terreiro para a vida. É isso que tento mostrar com minha fotografia.’

Insta: Thamíres Cursino ou na página da Agência Uboro: http://agenciauboro.wixsite.com/uboro

Veja mais fotos do Projeto Saravá na nossa Página no Facebook

 

Um papo nada Singelo

O rapper e ativista cultural Singelo MC solta o verbo sobre cultura, juventude, periferia, rap e política

singelo

Vinicius Dias

Rafael Félix poderia ser só mais um jovem morador de Samambaia, quebrada do DF, mas não, ele resolveu ser diferente e fazer a diferença. Rapper, ativista cultural, estudante de psicologia e recentemente eleito conselheiro regional de Cultura por Samambaia, ele não perde tempo e não fica parado.  Normalmente visto por aí com um sorriso negro no rosto preto, Rafael é mais conhecido pelo nome Singelo MC, e tá ainda mais sorridente esses dias, pois está indo em pra Batalha Mic Master Brasil. O evento vai premiar com um carro zero o mais sinistro no improviso. E a gente tá na torcida desse mano, que nos concedeu uma entrevista exclusiva e soltou o verbo com sua visão política apurada:

1 – Quando você começou a rimar e quais foram/são  suas influências?
Rimo desde criança, fazia melôs pros meus amigos e inventava paródia das músicas. Considero que já era rimador, mas não havia assumido essa identidade. Nas Batalhas de MC, rimo desde junho de 2012. A primeira referência de rima, mesmo sendo novo (tenho 23 anos) foi o álbum “Holocausto urbano” dos Racionais MCs, além dos outros clássicos CD “O beck e o contracheque” do Tropa de Elite e “A ocasião faz o ladrão” do Cirurgia Moral. Considero que fui privilegiado na forma como meu interesse pelos que rappers e MCs poderiam fazer com as palavras. No Freestyle, minhas referências são caras que fazem a rima pura e simples como Vinição, Vuks e Magú de BH, Daniel Garnet de SP. No Rap gosto de sons autênticos, com mensagens necessárias, sadias e boa musicalidade como o que vejo no Quadrilha Intelectual, Branco P9, Valete, KRS-One. Bebo muito também em outros estilos brasileiros, como o samba, a MPB, o funk carioca. Enfim, música boa, sem rótulos!

2 – Fala um pouco da cena Rap aqui em Brasília…
Fomos pioneiros num estilo de Rap que nos caracterizava bastante, o Gangsta. Essa identidade é importante. Acredito que o Rap distritofederalense anda carente de referências. Infelizmente, a grande maioria desconhece seu passado, é confuso sobre o seu presente e incapaz de construir o futuro. Falta uma pá de coisa, como responsabilidade, posição, postura. Como diz um amigo meu, Henrique QI: “quem vai samplear nóis?”, quem vai substituir nossos generais, como GOG e Markão Aborígene? Quem tá na disposição de pegar o bastão? O mercado fez a gente se acostumar com mingau, sendo que a lide do Hip Hop exige sustança! Sempre nivelo minha gente por cima e acredito que podemos ser mais criativos, autênticos, originais. Sermos nós mesmos. Como ponto positivo, a expansão da mídia está fazendo que nóis se aproprie das produções musicais, audiovisuais e nós por nós sempre é bom.

3 – Como ta a expectativa pro evento que você foi convocado em São Paulo. Fala um pouco do evento pra nós…
Na verdade, não fui convocado, tive que passar por umas pedreiras aqui na seletiva, que foi regada a muitas polêmicas. Na eliminatória, fui classificado pela Batalha da Santinha e consegui vencer o Diogo Loko, o Nauí, o DeJAH e o Marinho. Alguns falam que a parada foi garfada, mas tudo que envolve dinheiro e bens gera esse tipo de polêmica, tanto que rolou a mesma coisa nos outros estados. Ainda bem que sou vacinado contra esse tipo de situação. Em 2013, quando fui campeão do Calango Pensante, no aniversário de Brasília, falaram a mesma coisa em relação a uma batalha minha contra o Biro-Biro. Não respondi a nenhum dos críticos, pois acho que os resultados e desempenho falam por si. Desejo o bem de todos os críticos, mesmo que eles quase tenham me feito desanimar da parada…
Enfim, o evento é o Mic Master Brasil, uma batalha de MCs idealizada pela Double G, que premiará seu campeão com um carro 0 km, um Hyundai HB-20. Tô me sentindo seguro e preparado, com o apoio da galera do DF, pode pá que vai vir coisa boa pra nois… Vou em nome de cada scratch, flow, bomb e footwork daqui.

Singelo MC emocionado ao ganhar a eliminatória que garantiu sua vaga no Mic Master Brasil - Batalha de MC que acontecerá em São Paulo

Singelo MC emocionado ao ganhar a eliminatória que garantiu sua vaga no Mic Master Brasil – Batalha de MC que acontecerá em São Paulo

4 – Como tu ta vendo o cenário atual politico no Brasil?
A palavra é instabilidade. Nossa democracia é muito nova e suscetíveis a ataques como a ocupação do cargo de presidente pelo senhor Michel Temer. Precisamos botar os pingos nos is, não tem a ver com defender partido X ou Y, nem em ser de esquerda ou de direita, tem a ver com, minimamente preservar a democracia. Nossa gente ainda tá comendo muito kaô da mídia corporativa, elegendo os inimigos errados. Feliz por ser convidado pra festa de gala desse pseudoprogressismo, se esquecendo que será banquete ou trabalhará na copa, como de costume. Não tá pela ordem. E vários do Hip Hop não estão se posicionando diante desse circo… os mornos. Cara, temos que aprender de novo a fazer as críticas. Estamos tão acostumados a criticar todo governo e todo político no automático, que esquecemos de ver os avanços e queremos descartar todo o pouco que foi conquistado, o que nos fazer ideias pouco sensatas como a de ficar derrubando os políticos um por um, até a eternidade. Não seria mais simples ruir o sistema ou preparar nossa gente pra se eleger? Quem tá afim de ser deputado distrital? Ou melhor, o que faz um deputado distrital? Vamos começar pela base… Qual é o nome do administrador sua região administrativa? É necessário voltar ao trabalho de base, deu certo uma vez e pode dar de novo, ou melhor, tem que dar novo!!! A democracia pede socorro!

5 – Politica e rap. Tem alguma ligação ?
Totalmente. Não acredito que exista um Rap sério que não tenha alguma ligação com política. O Rap se originou pra dar voz a quem não tem e a cuidar de quem não é cuidado. Quando Public Enemy canta “Fight the power”, não é apenas o Chuck-D, Flavor Fav e o Terminator X que mandam a mensagem, é o gueto norte-americano que canta, é os cerca de 10% da população negra, os latinos que se identificam com a parada e talvez, quem sabe, até os “burgueses sensatos”, entende? Eles são porta-vozes, e isso é muito político. Quando Pepeu canta “Nomes de Meninas”, ele cria um som que embala a quebrada, faz todo mundo cantar junto, ou seja, de um modo DIRETO ele embala a socialização dos bailes, ele cuida do nosso bem-estar, nos diverte de um modo saudável. Você consegue perceber o quanto isso é político? Os cara pensa que política é só criticar o governo, falar de problemas sociais. Às vezes é fazer um som romântico e tirar a mulher desse lugar de objetificação que ela foi colocado ou até mesmo fazer um bom trap, que resgate valores perdidos e promova a comunhão na comunidade. Enfim, pensamento aberto nessas ideia aí.

6 – Quais são os trampos pro futuro? A rapaziada pode esperar alguma coisa aí? Algum sonho?
Tenho um livro de poemas pela metade, não sei se um dia se tornará concreto. Tenho um EP engatilhado e um profundo desejo de lançar um CD, que inclusive estava sendo gestado, mas tive de repensar por incoerências políticas da minha parte. Meu sonho é virar tipo um pensador de culturas urbanas, mostrar o quanto elas podem fazer bem pras pessoas e revolucionar corações, quando bem orientadas. Idealista nato! (risos)

7 – Você participa de batalhas de poesia, os slams. Essa forma de mandar a ideia tem alguma ligação com tua forma de criar letras de rap ou é uma outra forma de criação?
Cara, eu participei apenas uma vez e de vez em quando mando alguns poemas meus. Essa forma não tem muito a ver com minha forma de criar letras não, enxergo que é outra plataforma. A base do Rap limita sua possibilidades e o silêncio da declamação de poesias deixa as possibilidades infinitas, então são paradas diferentes.

8 – Improviso ou letra escrita ?
Os dois! Mas acho que sou melhor no improviso, é o que a rapa diz e eu abraço! (risos)

9 – Todo mundo fala que o Rap de Brasília é diferenciado, tem uma pegada mais gangsta. Eu tenho a impressão que uma galera nova ta desconstruindo isso e dando uma nova cara no rap do DF, assim como em outros lugares do Brasil também. Você percebe isso também?
Percebo e tenho ressalvas. Vou chover no molhado. Sou muito saudosista, cresci ouvindo os tapes de flashback do meu pai, então reitero a crítica: nos falta reverência e referência. Deixamos nossos ícones da arte brasileira serem esquecidos ou parcialmente lembrados. Assim como nosso grande Mestre Bimba morreu à míngua lá em Goiânia, vejo muitos ícones nossos aqui passando mó veneno, sem nem ao menos serem lembrados. Isso é falta de reverência. A outra questão é que o Hip Hop não começou ontem, ele tem uma história que remonta lá na Jamaica colonizada pela Inglaterra, então, meu, se você quiser dar continuidade na história, você tem que conhecê-la. Fico de cara, quando troco ideia com os dinossauro do Hip Hop, os cara sabe tudo! Sabem detalhes da vida do Nelson Triunfo, Ghetto Brothers, Malcom X, Paulo Freire. Nós, os girinos, estamos sem referências e não nos preocupamos com isso. Temos que considerar que a educação política e musical dos cara foi diferente e acredito que, assim como nos E.U.A., essa educação, na época, foi uma questão de sobrevivência, de auto-estima. Hoje isso não é tão forte. É mil fita, nêgo.

10 – O mic ta aberto…é seu…
Assassinem o “eu” pra que o “nós” possa ressurgir. Cuidem das suas famílias, seus amigos, sua cidade e seu povo.  Mantenha sua espiritualidade forte e intocável. Tenha propósitos em tudo. Dê o seu melhor. Manifeste seus talentos. Não sejam humildes demais. Sejam respeitosos sobretudo com os desrespeitosos. Imponham limites, mantenham a classe. Sejam sempre fieis e honestos. Não se iludam. Não comam qualquer caô. Questione os inquestionáveis. Estranhe tudo. Mas faça tudo isso enquanto aproveita a vida. Sejam felizes! Em síntese, como diria Spike Lee: “Faça a coisa certa!”.

Marcha das Flores e a Estátua da Justiça

Esqueça o que você leu na imprensa. Foi isso que aconteceu.

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Da Redação (ou seja, tudo nosso)

Brasília, 29/05/2016.

Um protesto é feito por coletivos em solidariedade ao caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro. A banda percussiva Batalá, com formação exclusiva feminina, rufa os tambores e dá o tom através de seu toque do que virá. Coisa de mulher: força, garra, determinação! Ao final da apresentação, Maria Paula Andrade, atriz e apresentadora, faz o chamamento e alerta que aquele encontro é apartidário e não governamental. Importante o alerta de Maria de Paula porque os oportunistas políticos de plantão sempre estão a rondar. Ela recita uma poesia de improviso e abre a contagem regressiva, começando do numeral trinta e terminando em: nenhum! Nunca mais! O coro é uma coisa única e muito emociona. Mulheres e homens choram, se abraçam, se dão as mãos, lembrando do quão pavorosa deve ser a imagem daqueles trinta homens que pacientemente esperaram sua vez de violar o corpo de uma adolescente. A marcha dá início! São cerca de 3.000 pessoas, maioria mulheres!

Seguem pela Esplanada dos Ministérios com gritos de guerra sobre questões do movimento de mulheres: o corpo, o direito a livre expressão, o racismo que impacta crucialmente as mulheres negras, a violência, o combate à cultura do estupro, o machismo. Em alguns momentos alertam para a situação do país também, com um Congresso e um Judiciário que não representa a maioria da população. Nada mais justo em um governo que suprimiu a Secretaria de Políticas para as Mulheres a uma instância menor no organograma atual. São momentos emocionantes. Homens acompanham a passeata com poucos sorrisos. Parece um momento de reflexão de seus lugares ali e na história social do patriarcado.

Chegamos ao prédio do Supremo Tribunal Federal. Todo cercado de grades isolando a estátua denominada “A Justiça”. Diferente dos vários símbolos que representam a justiça em âmbito internacional, a estátua Justiça em frente a um dos prédios mais importantes na estrutura de poder do Brasil não tem a balança que significa a equidade no julgar. As grades que cercam são por demais simbólicas, querem dizer: o acesso à justiça é difícil, vocês deverão ultrapassar barreiras caso queiram acessa-la. É o que faz uma das manifestantes, que pula as grades, pega algumas flores jogadas dentro do cerco pelas demais colegas e começa a montar um buquê. Se direciona à “justiça do Brasil”, aquela que tem uma venda nos olhos e uma espada nas mãos, que representa a força, a coragem, a ordem e a regra necessárias para impor o Direito.

A mulher caminha forte e segura. Os seguranças vem de encontro a ela pra proteger a justiça. Há uma pequena negociação. O corporal da mulher deixa claro que ela quer concretizar o ato simbólico por suas companheira sem acesso, ela quer colocar o buquê, colhido com flores jogadas ao chão que não chegaram à justiça por conta da longa distância entre elas (poética e literal). A segurança é intransigente. A mulher é determinada. Usam spray de pimenta contra ela. Começam gritos e muita indignação. A mulherada balança as grades, empurra, arrasta, derruba. A polícia atira spray de pimenta contra as manifestantes. As mulheres da linha de frente voltam esfregando os olhos e abrindo caminho pras próximas que estão por vir. Avança o exército feminino. Os seguranças recuam, fecham um círculo em volta da justiça, de mãos dadas e de costas para a escultura. Todas começam a atirar as flores, que estavam ao chão, na própria estátua. O que era pra ser um depósito simbólico, aos seus pés, torna-se uma chuva de flores: algumas caem no colo da justiça, algumas no chão, outras nos seguranças… A estátua fica cheia de flores, além de alguns cartazes na base, com dizeres: “Mexeu com uma, mexeu com todas”, “Pelo fim da cultura do estupro”, entre outros.

É uma visão por demais simbólica do Brasil. Um protesto que começou porque faltou proteção a uma mulher termina agredindo outras mulheres para defender uma estátua. Semanas antes, o ministro da Educação recebeu um ator pornô que admitiu, em rede nacional (uma concessão pública, portanto) ter estuprado uma mulher. Ali próximo se reúnem políticos da espécie mais misógena que se pode ter notícia, como o deputado Jair Bolsonaro, que se dirigiu à deputada Maria do Rosário dizendo: “Eu não vou estuprar você porque você não merece”. Tudo ali, sendo representado de uma maneira muito fiel: o povo querendo depositar flores na estátua e cerca de 10 seguranças protegendo um bloco de cimento maciço. Uma menina de 16 anos foi estuprada por 33 homens e não foi protegida com toda atenção que era dada à estátua Justiça. A polícia fazendo a segurança… de quem mesmo?

A estátua Justiça
Feita pelo artista mineiro Alfredo Ceschiatti, a estátua mede 3,3 de altura e 1,48 de largura. É uma mulher sentada e foi feita em 1961. Diferentemente das outras representações da Justiça, que carregam uma balança simbolizando a igualdade do pesar da decisão, a equidade e o nivelamento jurídico, a obra brasileira carrega em suas mãos apenas a espada, que significa o rigor nas decisões daquele poder. Foi esculpida em bloco de granito maciço. A simbologia dessa escultura tem origem na deusa romana Justiça, que corresponde à grega Dice, filha de Zeus com Têmis, a guardiã dos juramentos dos homens.

Hoje, ela, que era coadjuvante, passou a ser o centro das atenções e cuidados. Nosso foco era simples: uma mulher ia depositar flores aos seus pés, simbolizando o enterro da justiça, dessa justiça falida, que está de fato cega para as necessidades de seu povo e que além de julgar mal, participa de um golpe contra a nação. Mas não, não podíamos fazer isso. Muito simbólico. Muito pesado. Quiseram humilhar a mulher que levava as flores. Mas nós já estávamos protestando contra a violência contra uma mulher, não poderíamos assistir paradas a mais uma violência contra outra mulher. Sexo frágil? Aqui não. Todos os dias enfrentamos medos diversos, só do caminho de casa até o ponto de ônibus. Não vamos nos limitar a uma grade. Passamos por cima de diferenças salariais, desigualdades no tratamento, falta de respeito diversas, racismo, hipersexualização, entre outros obstáculos. Não vamos passar por uma grade? Por uma estátua? De frágil, aqui, só tem o estereótipo. Ou, como dizia a ciranda que foi feita em torno da estátua: “Ô seu machista, cê pode crer, a mulherada não tem medo de você!”.

Masculinidade e Cultura do Estupro

estupro

*Vinicius Dias

Na terça-feira, dia 24/5, um vídeo é compartilhado no WhatsApp e começa a viralizar. Trata-se de um estupro coletivo executado por 30 homens onde a vítima era uma menina de 17 anos. Rapidamente a notícia viralizou em diversas mídias sociais. Numa lógica doente de disseminação do horror, milhares de “inocentes” neste momento veem o vídeo e compartilham com mais curiosos. Tão criminosos quanto, vulnerabilizam mais a vítima, mostrando mais seu corpo, violentando mais sua privacidade. O show de horrores não para por aí. Nos perfis do Facebook, um monte de homens justificam o ato, colocando a responsabilidade na vítima: “Ela estava bêbada”, “também, andando na favela com aquelas pessoas”, “usava roupa curta”… É uma sociedade muito adoentada e machista. Por falar em machismo, gostaria de direcionar este texto a você, macho. Porque deste assunto eu entendo, e você sabe do que estou falando.

Nasci e me criei em uma família matriarcal. Naquela lógica antiga, que homens trabalham e mulheres cuidam da casa. Cresci assimilando o que eu via como certo e sem nenhum questionamento. Cheguei à adolescência e percebi que todos os meus tios tinham amantes, e aquilo era um segredo pra mim, pois eu, de alguma forma, comecei a entender o código inerente que circula entre nós, homens. Ali, sem ninguém me pedir, eu mantinha um segredo que julgava ser importante na proteção de meus tios. Percebi mais tarde que a família toda sabia das amantes, e inclusive que alguns tios tiveram filhos com estas mulheres que começaram a frequentar nossa casa com a alcunha de “primos”. Todos sabiam, mas ninguém problematizava. E aquilo começou a me causar um mal estar terrível, mas eu já estava numa de trabalhar o dia inteiro, estudar a noite e chegar bem tarde na terra longínqua de Santa Cruz (Zona Oeste do Rio, mesmo território em que esta tragédia aconteceu), e isso acabava me deixando mais insensível com aquela dinâmica autorizada. Mas nos finais de semana de almoço coletivo familiar, eu e meus tios sempre arrumávamos um canto pra falar delas, de forma muito preconceituosa. Queria questionar, mas me sentia acuado, pois uma das “verdades” que fomos educados era a de que deveríamos respeitar os mais velhos. Sem nenhum senso crítico, a gente crescia sem problematizar o que era respeito e o que era submissão.

Essa representação social da mulher foi crescendo comigo. Nas conversas de bares eu sei o que falam de vocês, mulheres. No banheiro da balada, eu sei o que pensam de vocês. Quem sou eu pra dizer que sou um homem feminista. Aprendi com uma mulher que não sou digno deste termo. Minha mente não funciona como uma mulher, e feminismo, assim como outros movimentos de mulheres, são frutos da forma de funcionamento de mulheres. E eu não sou mulher. Parece simplista dizer isso, mas é importante pra alertar alguns manos que, não satisfeitos com a estrutura patriarcal que nos oferece privilégios, proteção e autorização em sermos homens, ainda querem papel de protagonismo nos movimentos de mulheres também. Acho super da hora sermos parceiros, mas nosso lugar na verdade é onde as mulheres não conseguem sacar o machismo no seu mais alto grau de manifestação: nos churrascos da vida, no final da partida de futebol, no jogo de sueca… você sabe que eu sei da autorização que eu te dou e você me dá em olhar pra aquela mulher e julga-la com as palavras mais sórdidas do vocabulário humano. Você sabe que eu sei que quando elas chegam nos travestimos de educados, românticos, generosos, mas porra nenhuma, somos quem somos, e é preciso desconstruir essa porra! O dia a dia das nossas relações está cheio de atitudes que nos possibilitam e autorizam a sermos machistas (bem como racistas).

Tenho acompanhado a discussão sobre a produção do funk atual. As opiniões são bem diversas: de um lado uma galera que critica, que fala até que não é música. De outro lado, uma galera que defende, que apoia, mas que quando é tocado o tema “pornografia” no funk, sinto um certo cuidado em não “bater forte” nos irmãozinhos porque a gente tá ligado que, como nós, são a classe sofredora e são aliados do que a gente mais quer: subir na vida, dar condições melhores às nossas famílias. É preciso sermos mais realistas, manos. O que autoriza uma música como “Baile de Favela” estourar nas rádios e boates? O que autoriza uma música falar que a novinha – termo com cunho pedófilo – quica, rebola e senta? O que autoriza é a estrutura machista do nosso mundo! A mesma que autoriza 30 homens estuprarem uma menina e divulgar o ato em redes sociais, e ainda um deles, alertado pra retirar o conteúdo que ia dar merda, se sentir tranquilo e retrucar “Caiu na rede, pô, deixa rolar kkkk”.

Sou maior solidário na luta das irmãs, mas meu lugar de solidariedade é entre esses que, como Michel, se sentiu autorizado a colocar seu machismo em ato, vulnerabilizando ainda mais uma adolescente estuprada por 30 homens. Eu ando por estes espaços, eu sei do que estou falando. Há muito tempo recebo a autorização de ter amantes enquanto cobro a virgindade das minhas companheiras. Escrevo essas linhas com certa vergonha, mas imagino que vergonhoso deve ser a invasão em ser chamado de gostoso na rua, passar por alguém e ao olhar pra trás perceber que você está sendo escoltado, receber “piadas” sobre nosso decote. Você não consegue se ver nestas ações né? Elas sim!

Então, para além dessas linhas, é necessário ação! E não é na linha de frente da marcha das mulheres, porque a marcha é auto explicativa: é de mulheres! Mas posso ir onde o machismo se camufla, e sei dos caminhos. Hoje é feriado, e as distribuidoras de bebidas estão cheias de homens se entorpecendo. Lá estão eles, meu alvo! É preciso ter coragem, alguns são agressivos. Mas tem outros ambientes em que a mistura etílica não é compartilhada, dando um caráter mais tranquilo à natureza “macha”, as universidades, mas lá são muito espertos e intelectualizados. É possível um ambiente mais humilde, aqui perto de casa, as igrejas. Mas por lá, eles tem justificativas bíblicas que colocam o homem em uma posição de superioridade. Assim, eu percebo que a autorização está em todos os espaços, no imaginário construído pelos anúncios de cerveja, nos posters dos postos de gasolina. Está aqui dentro de mim. Cada um de nós, homens, de certa forma, fomos responsáveis pelo caso da menina que foi estuprada no dia 21/5 na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

 

*Vinicius Dias hoje não se sente confortável em dizer que é homem.

As cores da minha cor

*Bárbara Barbosa

Se uso branco, sou babá.

De preto, sou empregada.

De laranja, sou gari.

Colorida, sou prostituta.

Meus cabelos, minha cor

Se claros, sou adequada,

Embora, não aceita.

Se escuros, sou escrava

Do branco que aqui se deita.

Minha alma tem que ser branca

Denegrido é o meu passado

E até a inveja “boa” sobre mim

É suavizada por ser mais clara

Minha beleza ganha as cores do exótico

Em galerias de bizarrices profundas

Meus tons fortes são ironizados

Pelas black faces e focos nas bundas.

 

*Bárbara Barbosa é gerente de Inclusão e Acessibilidade da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, produtora e consultora de Acessibilidade Cultural, intérprete de LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais. Além disso, devaneísta amadora compulsiva, mãe coruja, impaciente cronica, entre outras coisas.

Cidade Ocidental tem dança!

No Dia Internacional da Dança, conheça a história do B-Boy Jazz, que vai representar nossas quebradas em um campeonato na Bélgica

BBoy Jazz destruindo tudo

*Joceline Gomes

Um B-Boy é um dançarino de Break. Break é um dos quatro elementos do Hip Hop, que são: DJ, MC, Break e Grafite. Dherlison da Silva Vasconcelos é um B-Boy, mas seu apelido é Jazz. E ele vive e respira Break. Aos 20 anos, Jazz está a poucos dias de um grande sonho: participar de um campeonato internacional. Por ter sido o vencedor do Street Battle Brasil, ele embarca no dia 10 de maio para o Unbreakable World Championship, na Bélgica.

Nascido numa pequena cidade do Maranhão chamada Buriti, em setembro de 2009 conheceu a dança através de um amigo de escola, e nunca mais parou. Em 2010, mudou-se pra Cidade Ocidental, que apesar de ser um município goiano, todo mundo sabe que é considerada uma quebrada do Distrito Federal, pois fica no que chamam de “entorno”.

Morando com a tia, Jazz só ficou 6 meses na cidade, pois ela não deixava ele dançar. Contudo, durante esse pouco tempo, o B-Boy conheceu a galera da dança de Brasília, que o fortaleceu e não o impediu de tomar uma decisão triste, porém, necessária: voltar para o Maranhão pra não ter que parar de dançar.

Antes de ir embora, um dos amigos, o B-Boy Cesinha (César Rodrigues) disse a Jazz que, quando quisesse voltar, poderiam morar juntos. Então, em julho de 2011, o dançarino voltou, e dessa vez pra ficar. Veio de mala, cuia e com a família inteira pra Cidade Ocidental. Foi aí que as coisas começaram a melhorar, na vida e na dança (se bem que, pra quem dança, as duas são uma coisa só, né?). Jazz chegou a fazer parte de outro grupo, mas foi no Quebra de Movimento (QDM) que fez sua “segunda família”.

“Já participei de muitos campeonatos, tive a oportunidade de sempre estar bem colocado em muitos deles”, explica o dançarino, que em 2012 foi campeão em São Paulo, em uma outra eliminatória que valia vaga para a Grécia, porém, como era menor de idade, teve muitas dificuldades e não conseguiu tirar o passaporte.

“Mas nunca perdi a fé, sabia que iria ter outras oportunidades como aquela e continuei treinando. Graças a Deus isso realmente aconteceu”, conta, referindo-se à vaga para o mundial da Bélgica. As eliminatórias foram feitas em vários estados do Brasil, trazendo então os melhores do país para a grande final, que foi em Brasília. Esse campeonato reúne os melhores B-Boys do mundo e já teve várias edições. Mas ninguém resiste a um bom Jazz.

Boa viagem e traz o ouro pra gente!

 

*Joceline Gomes é jornalista mas dançar é o que mais dá alegria ao seu coração. Ficou sabendo da história do Jazz e não queria perder a oportunidade de conta-la hoje, Dia Internacional da Dança. Parabéns a todos e todas que tornam essa vida mais bonita dançando!