Batalha de dança em Ceilândia seleciona dançarinos para disputar vaga em festival inédito na Jamaica

Wan Move Battles Brazil desembarca na capital federal em 11 de agosto, com workshops e batalhas de vários estilos. Inscrições antecipadas com desconto até um dia antes do evento

 

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Imagine ganhar uma viagem para a Jamaica com tudo pago e ainda participar de um evento internacional de danças urbanas, ao lado de dançarinos do mundo inteiro? Gostou da ideia? Então, você não pode perder o Wan Move Battles Brazil, dia 11 de agosto (sábado), a partir das 14h, na Praça do Cidadão em Ceilândia. Essa etapa em Brasília, juntamente com as realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, é uma seletiva para o Wan Move Diaspora, festival inédito que reunirá, em novembro, em Kingston, capital jamaicana, dançarinos de diferentes nacionalidades para uma imersão no universo das danças tradicionais e urbanas de matriz afro.

A programação inicia às 14h, com aulas de Breaking e Danças Afro com as brasilienses BGirl Prix e Nãnan Matos, respectivamente, e Dancehall com a jamaicana Kim Weezy, que virá ao Brasil especialmente para o evento.

Para encerrar as atividades, às 19h, uma batalha de dança all styles, ao som do DJ Sapo, fundador dos grupos Apocalipse Crew e Cyphers Clan. A disputa que contempla e acolhe todos os estilos de dança será avaliada por quatro jurados: Valéria Assunção, coreógrafa do Studio Under7, Eduard Kon Zion, mother da house of Hands Up DF, Mare Rela, professora de Dancehall em Goiânia (GO), além da dançarina jamaicana Kim Weezy.

A dançarina ou o dançarino que alcançar a melhor nota entre os participantes das três batalhas (Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro) vai viajar para Jamaica, com todas as despesas pagas (passagem aérea, visto, hospedagem, refeições e traslados, etc.) para participar do Wan Move Diaspora. Além de cursos de dança, performances, painéis e debates sobre vários aspectos das várias modalidades de dança de origem africana, os participantes vão concorrer ao título de Global King and Queen of Dance (Rei e Rainha da Dança Global, em tradução livre), com premiação de US$ 5 mil e um ano de contrato ao vencedor.

Inscrições – Para se inscrever no Wan Move Battles Brazil – etapa Brasília, o interessado deve enviar para o e-mail kqd@wanmovediaspora.com o nome completo, telefone e contatos de redes sociais, juntamente com o comprovante de pagamento das taxas correspondentes (transferência ou depósito bancário). As inscrições antecipadas custam R$ 80,00 (pacote para as três aulas) e R$ 10,00 (para participar da batalha). No dia do evento, serão cobrados os valores sem desconto de R$ 100,00 e R$ 15,00, respectivamente.

Todos os recursos arrecadados durante o Wan Move Battles Brazil vão contribuir para arcar com as despesas de inscrição, transporte, hospedagem e alimentação dos dançarinos no festival jamaicano. De acordo com a organização, dependendo do montante alcançado, é possível até ampliar o número de vagas para estender a oportunidade a outros dançarinos, especialmente, em situação de vulnerabilidade social.

Para tanto, a proposta é realizar os eventos em espaços culturais alternativos, a fim de atingir prioritariamente a juventude negra e periférica, além de pessoas que estejam comprometidas com as danças tradicionais e urbanas de origem negra (tais como Hip Hop, House, Vogue, Passinho, Dancehall, Kuduro, Afro House, entre outras). Com esse mesmo objetivo de ampliar as oportunidades à população em situação de vulnerabilidade social, cinco beneficiários do projeto Jovem de Expressão vão ganhar bolsas para participar gratuitamente dos workshops e da batalha de dança.

 

Wan Move Diaspora

wanmoveDe 26 de novembro a 2 de dezembro de 2018, o Wan Move Diaspora vai reunir no Edna Manley College of Visual and Performing Arts, em Kingston, capital da Jamaica, profissionais da dança de 23 países para ministrar aulas de diversas modalidades tradicionais e urbanas de dança de origem e matriz afro, tanto do continente africano quanto da diáspora, ou seja, da comunidade africana espalhada pelo globo.

O nome do festival remete à forma de dizer, em inglês, a expressão “um movimento” (one move). A ideia é traduzir a semelhança entre as manifestações culturais de origem africana que se espalharam pela diáspora, criando diversas expressões culturais, mas sem perder a unidade enquanto povo.

Serão oito dias de imersão completa na dança afro-diaspórica, com mais de 50 professores pioneiros ou grandes representantes dos mais de 50 gêneros que serão ministrados. A programação também contemplará performances, painéis e debates sobre vários aspectos da dança afro.

Para organizar os grupos de dançarinos que vão participar do Wan Move Diaspora foram escolhidos diretores regionais em 27 países. No Brasil, a diretora regional é a proprietária da Backstage Dance Center, Carolina Newmann.  Para mais informações, basta acessar o site www.wanmovediaspora.com ou entrar em contato diretamente com Carolina Newmann pelo telefone (61) 3202-1255.

Arte engajada – vídeos sobre Marielle Franco

Por acreditar que não existe arte separada do contexto social em que está inserida, a organização do Wan Move Diaspora se mobilizou nas redes sociais após o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018. Foi lançado um concurso mundial para incentivar dançarinos a gravar vídeos se manifestando artisticamente contra a injustiça e o racismo que este crime representa. O vencedor do concurso foi o mineiro Marcelo Mendes. Ele e os outros quatro dançarinos que participaram da coreografia escolhida também vão participar do Wan Move Diaspora, com todas as despesas pagas.

A ideia de realizar as batalhas de dança em espaços nas periferias das grandes cidades surgiu como resposta a este crime bárbaro, diante do entendimento de que a arte é uma forma de questionar as estruturas sociais e recuperar o sentido original de muitas das danças urbanas criadas pela comunidade negra.

Serviço:

Wan Move Battles Brazil – etapa Brasília
Data: 11 de agosto de 2018 (sábado)
Local: Jovem de Expressão – EQNM 18/20, Praça do Cidadão em Ceilândia Norte
Programação: 14h – Danças Afro – Nãnan Matos
15h – Breaking – BGirl Prix
16h – Dancehall – Kim Weezy
19h – Batalha All Styles


Inscrições
Workshops (pacote para as três aulas – Breaking, Danças Afro e Dancehall)
R$ 80,00 antecipado/R$ 100,00 no local

Batalha All Styles
R$10,00 antecipado/R$ 15,00 no local

Pagamento com transferência ou depósito
Banco do Brasil
Agência 1003-0
Conta Corrente 17.424-6
(Anna Caroline Newman dos Santos Zica)

Confirmação da inscrição:
Envio do comprovante de pagamento, com os dado participante (nome completo, telefone e redes sociais) para kqd@wanmovediaspora.com

Mais informações: Joceline Gomes: (61) 98132-4082

 

Perfil das professoras dos workshops de dança

Kim Weezy – Dancehall

kimweezyA jamaicana Kimberly Ashley Hyman, mais conhecida como Kim Weezy, tem 28 anos e começou a dançar aos quatro, estudando ballet. Já adolescente, entrou para o programa da Edna Manley School of Dance. Após concluir o ensino médio, também terminou seus estudos na Edna Manley School of the Visual and Performing Arts, conquistando seu diploma profissional de Dança, Teatro e Produção. A partir de então, decidiu se dedicar de forma mais intensa ao Dancehall, estilo no qual trabalhou com Konshens por mais de dez anos, gravando vídeos, saindo em turnê pelas ilhas caribenhas e coordenando performances no palco. Ainda atuou como dançarina de muitos artistas locais e internacionais, entre eles, Drake, Beenie Man, Elephant Man, Movado, Vybz Kartel, Mya, Spice, Gnarls Barkley. Trabalhou também na cobertura do único programa de TV jamaicano sobre dança, o Dancin Dynamites, competição que durou 13 semanas na TV Land. Kim Weezy criou três passos de dança femininos que viralizaram e são ainda hoje sucesso entre as mulheres, os chamados Boom Whine, WEEZY Whine e Ketch a fyah.

Nãnan Matos – Danças Afro

Foto: Tatiana Reis Fotografia

Foto: Tatiana Reis Fotografia

Nãnan Matos é uma cantora, dançarina e arte-educadora brasiliense que desenvolve trabalhos de pesquisas e práticas musicais há 10 anos no Distrito Federal. Sua experiência e formação artística a fez especializar-se em música tradicional africana e afro-brasileira. Nãnan Matos, que se formou na Escola de Música de Brasília, iniciou centenas de alunos na prática de instrumentos tradicionais da África, como djembês e dununs, além de ter realizado importantes trabalhos performáticos de propagação da cultura africana. Atualmente, ela dá aulas de percussão e dança tradicional do oeste africano. Com cantora e dançarina, Nãnan Matos já se apresentou em grandes festivais de vários estados brasileiros e, recentemente, participou do programa The Voice Brasil, exibido pela emissora TV Globo.


BGirl Prix – Breaking

Breaking_BGirl_Prix_Judge (02)Professora de dança e DJ, Priscila Paixão (BGirl Prix) já tem 10 anos de carreira, quatro deles como integrante do grupo BSB Girls – Brasil Stylers B.Girls, coletivo pioneiro de mulheres no Breaking em Brasília. Entre os vários prêmios e batalhas locais e nacionais que conquistou, estão o festival brasiliense Quando as Ruas Chamam (Voto Popular), o 10° Campinas Street Dance Festival/ Batlle of the year Brasil 1vs1 e o Rota Convida 2010 – Competição de Street Dance nível profissional. Já trabalhou com nomes como GOG, Markão Aborígene e participou de competições e cursos internacionais.

Perfil dos demais jurados e DJ da Batalha All Styles

Valéria Assunção

Valeria_Assunção_JudgeCoreógrafa dos grupos Studio Under7 base, senior e adulto, com os quais já ganhou prêmios em importantes festivais locais e nacionais de danças urbanas. Proprietária das duas unidades do Studio Under7 (Águas Claras e Pistão Sul) e do Bar Under Seven Store – ponto de encontro e convivência dos artistas da Cultura Urbana do Distrito Federal. Já integrou grupos nacionalmente renomados como o Rota Brasil e o Tekamul, do qual também já foi coreógrafa. Também ministra aulas de Hip Hop no La Salle e em seu próprio studio.

 

Eduard Kon Zion

Eduard_Kon_Zion_Judge (03)Brasileira trans não binaria nascida em Brasília, Eduard Kon Zion iniciou seus estudos em danças urbanas cedo, tendo contato a principio com o Breaking, em seguida dança clássica.  Retornando às danças urbanas, já dançou e coreografou trabalhos utilizando Hip Hop, Street Jazz, Waacking, Voguing, Contemporâneo, Video dance, apresentando essas estéticas nos vários campeonatos que concorreu e nos grupos de dança de que participou. Hoje representante condecorado do Brasil da House Of Zion de Nova York – casa que aplica e estuda a cultura Vogue na comunidade afro-latina criada por Pony Zion, coreógrafo do primeiro grupo de Voguing (Vogue Evolution) a apresentar no programa America’s Best Dance Crew .

A dança é sua linha de estudo artístico, mas Kon também é hoster, comentator, MC , Chanter das BallRoom’s (Batalhas de Voguing) e está ajudando cada vez mais e mais a crescer esta cena no Brasil, tornando se uma referência nacional e internacional, com workshops ministrados em locais como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, e, recentemente, no Chile. Kon se aprofunda nos estudos de danças performáticas utilizando de referências das mais variadas nomenclaturas existentes e de todo o vocabulário que adquiriu e continua adquirindo ao estudar Brasil a fora.

Mare Rela

Mare_Rela_Judge (01)Mariana Filgueira Rela iniciou como estudante de Danças Urbanas no Studio Dançarte em 2009. Desde então participou de cursos e workshops por todo o país e internacionais, estudando em escolas conceituadas como Studio MRG (Paris – FR); L.A.X Studio (Paris – FR); Dany Studio (Nova Iorque – NY); Studio Latino (Montpellier). Em 2013, iniciou a carreira como professora de Dancehall e Danças Urbanas do Studio Dançarte. No ano seguinte, participou do festival de Dancehall mais conceituado do mundo, em sua edição na América Latina: O Big Up Kemp Argentina. Foi vencedora da batalha 2×2 ao lado de Camila Leão, obteve destaque como uma das representantes brasileiras do Dancehall.

Idealizadora do Dancehall Brazil Weekend, ao lado do sócio Thiago Spósito, evento que reuniu mais de 80 participantes e alunos de todo o país com professores nacionais. Artista influente na cena das danças urbanas de Goiânia, Mare Rela já ministrou aulas em escolas conceituadas de outras cidades, bem como em alguns eventos importantes da cena Dancehall no país.

DJ Sapo

DJ_Sapo (3)Além de DJ, Weberth Firmino dos Santos Araújo, mais conhecido como DJ Sapo, também é dançarino desde 2011, quando teve seu primeiro contato com as danças urbanas por meio do Locking. Em seguida, conheceu o Breaking e fundou, a partir desta nova paixão, a Apocalipse Crew e o grupo Cyphers Clan. Hoje, a Cyphers Clan tornou-se um coletivo cultural, com dançarinos, DJs e MCs. Na sua formação artística, priorizou cursos nas áreas de produção de eventos e arte-educação, atuando em centros de reintegração social e casas de recuperação. Atualmente, integra o coletivo de DJs chamado Risquad Crew, formado por DJs das danças urbanas de Brasília. Também participa do coletivo House of Hands Up, constituído por dançarinos de Vogue.

DJ Sapo foi o idealizador do Breaking Down, evento de danças urbanas que reuniu em 2013, em Brasília, dançarinos locais e de vários outros estados. Já tocou em grandes e tradicionais eventos de cultura urbana, tais como: Boom Bap, Festa Melanina, Batalha No Topo (Franca-SP), Eliminatória Quando As Ruas Chamam Etapa Brasília, Raw Circles Eliminatória Brasil, Makossa Baile Black, Batekoo, Jam No Museu, Yo Music, Breaking Na Praça, Rolê Bboyz (GO), Red Bull Bc One Cyphers Brasília, Pick Nick, Noite No Museu Com Basquiat (CCBB-DF).

 

Regulamento Batalha All Styles

Com um formato inovador, que remete aos concursos de Dancehall Queen, na Jamaica, e outros grandes campeonatos de dança norte-americanos, a batalha de dança All Styles nas três cidades contará com rodadas que misturam improviso e coreografia. Serão abertas para dançarinos ou dançarinas de qualquer estilo. Os/as jurados/as darão uma nota de 1 a 10 nas seguintes categorias: Originalidade, versatilidade, engajamento do público, desempenho/personalidade, musicalidade e expressividade.

Confira abaixo as regras:

1 – Cada dançarino/a vai se apresentar, falar sobre si, sua experiência com a dança, estilo que se especializou. Essa etapa será julgada a confiança do/a candidato/a. Essa etapa não é eliminatória e valerá 5 pontos

2 – Round 1 – Improviso: cada dançarino/a vai dançar por 1 minuto à música imprevisível que o DJ tocar. Essa etapa é eliminatória e valerá 10 pontos. Quem tirar menos do que 5 pontos será eliminado.

3 – O gênero musical vai mudar a cada rodada e pode ser variar entre qualquer gênero, como: rap, pop, dancehall, afro, break beats, funk, eletrônica, house music, etc.

4 – Durante as rodadas preliminares, o DJ vai tocar uma música. Ou seja, todos/as vão dançar à mesma música, a fim de mostrar sua personalidade e técnica.

5 – O Round 2 será uma rodada de coreografias. AS MÚSICAS QUE SERÃO USADAS DEVEM SER ENVIADAS PELO MENOS 3 DIAS ANTES DA COMPETIÇÃO. Esta rodada será de 1 minuto e 30 segundos por dançarino/a.

6 – Os/as jurados/as darão uma nota de 1 a 10 nas seguintes categorias: Originalidade, versatilidade, engajamento do público, desempenho/personalidade, musicalidade e expressividade.

7 – A cada round de 2 a 5 dançarinos/as (dependendo do número total de competidores/as) será eliminado baseado nas notas mais baixas. Na última rodada os/as últimos/as dois/duas vão se enfrentar, mas não no estilo de uma batalha 1×1, e sim, de frente para o público e os/as jurados/as.

8 – O/a dançarino/a com a maior nota vai ganhar um troféu. O/a dançarino/a com a maior nota entre Brasília, Rio e São Paulo vai ganhar o título de Queen ou King of Dance Brasil e voará para a Jamaica para representar seu país na final global.

Qualquer dúvida sobre os critérios poderá ser solucionada por e-mail no endereço: kqd@wanmovediaspora.com

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Batalha de dança em Ceilândia pode levar dançarinos com tudo pago para Jamaica

Wan Move Battles promove workshop e batalha para levantar recursos

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No dia 11 de agosto, a partir das 14h, Ceilândia receberá o Wan Move Battles Brazil. O evento, que acontece também em São Paulo e no Rio de Janeiro, em Brasília será realizado no Jovem de Expressão, na Praça do Cidadão, e vai oferecer três aulas de dança – Breaking, com BGirl Prix, Danças Afro, com Nãnan Matos, e Dancehall com Kim Weezy, diretamente da Jamaica. Após as três aulas acontecerá uma batalha All Styles, e o vencedor ou a vencedora concorrerá, juntamente com os/as vencedores/as das outras cidades, a uma viagem com tudo pago para o Wan Move Diaspora – evento inédito que reunirá danças de matriz afro do mundo todo em novembro, na Jamaica.

O processo para escolha do/a vencedor/a vai funcionar por notas, dadas pelas juradas. Quem tiver a melhor nota entre os/as três que ganharam nas cidades (Brasília, Rio e São Paulo), vai para Jamaica com tudo pago.

O Wan Move Battles tem por objetivo levantar recursos para levar dançarinos/as em situação de vulnerabilidade social para a Jamaica, e lá disputar com dançarinos/as de todo o mundo o título de “Global King and Queen of Dance” (Rei e Rainha da Dança Global, em tradução livre).

O pacote com as três aulas custarão R$80 e a participação na batalha, R$10 (valores antecipados). No dia do evento, custarão R$100 e R$15, respectivamente. Para se inscrever na batalha é preciso enviar nome completo, telefone e redes sociais para o e-mail kqd@wanmovediaspora.com, juntamente com o comprovante de pagamento por depósito bancário.

A proposta é realizar os eventos em espaços culturais alternativos no Brasil, a fim de fortalecer prioritariamente a juventude negra e periférica dessas cidades, e levar pessoas que estejam comprometidas com as danças tradicionais e urbanas de origem negra (tais como Hip Hop, House, Vogue, Passinho, Dancehall, Kuduro, Afro House, entre outras).

Workshops Brasília

kimweezyKim Weezy – Jamaica – Dancehall

Kimberly Ashley Hyman, mais conhecida como Kim Weezy tem 28 anos e começou a dançar aos quatro, estudando ballet. Já adolescente, entrou para o programa da Edna Manley School of Dance, depois de sair do ensino médio, terminou seus estudos na Edna Manley School of the Visual and Performing Arts, Escola de Dança, conquistando seu diploma em Dança Teatro e Produção. Então levou sua dança para outro nível: começou a focar no Dancehall, estilo no qual trabalhou com Konshens for mais de 10 anos gravando vídeos, saindo em turnê pelas ilhas caribenhas e coordenando a performance no palco. Também trabalhou como dançarina de muitos artistas locais e internacionais como Drake, Beenie Man, Elephant Man, Movado, Vybz Kartel, Mya, Spice, Gnarls Barkley apenas para listar alguns. Trabalhou também na cobertura do único programa de TV jamaicano sobre dança, o Dancin Dynamites, competição que durou 13 semanas na TV Land. Kim criou três passos de dança femininos que viralizaram e são sucesso entre as mulheres por oito anos e seguem sendo, chamados: Boom Whine, WEEZY Whine e Ketch a fyah.

Foto: Tatiana Reis FotografiaNãnan Matos – Danças Afro

Nãnan Matos é uma cantora, dançarina e arte-educadora brasiliense que desenvolve trabalhos de pesquisas e práticas musicais há 10 anos no Distrito Federal. Sua experiência e formação artística a fez especializar-se em música tradicional africana e afro-brasileira. Nãnan Matos, após 6 anos de formação na Escola de Música de Brasília, já iniciou centenas de alunos na prática de instrumentos tradicionais da África, como djembês e dununs, além de ter realizado importantes trabalhos performáticos de propagação da cultura africana. Dá aulas de percussão e dança tradicional do oeste africano e participou do último The Voice, da TV Globo. Já se apresentou em grandes festivais e em vários estados brasileiros.

Breaking_BGirl_Prix_Judge (02)BGirl Prix – Breaking

Professora de dança e DJ, Priscila Paixão, a BGirl Prix, já tem 10 anos de carreira, e integra há quatro o BSB Girls – Brasil Stylers B.Girls, coletivo pioneiro de mulheres no Breaking em Brasília. Já foi a vencedora de diversos e prêmios e batalhas locais e nacionais, para citar alguns exemplos: Quando as Ruas Chamam (Voto Popular), 10°Campinas Street Dance Festival/ Batlle of the year Brasil 1vs1 e o Rota Convida 2010- Competição de Street Dance nível Profissional. Já trabalhou com nomes como GOG, Markão Aborígene e participou de competições e cursos internacionais.

Batalha

A batalha All Styles, ou seja, que contempla e acolhe todos os estilos de dança, vai começar às 19h. Além de Kim Weezy, teremos outras três juradas. Saiba mais sobre elas:

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Valéria Assunção
Coreógrafa dos grupos Studio Under7 base, senior e adulto, com os quais já ganhou prêmios em importantes festivais locais e nacionais de danças urbanas, Valéria Assunção é proprietária do Studio Under7 (Águas Claras) e do Bar Under Seven Store – ponto de encontro e convivência dos artistas da Cultura Urbana do Distrito Federal. Já integrou grupos nacionalmente renomados como o Rota Brasil e o Tekamul. Também ministra aulas de Hip Hop em escolas e em seu próprio studio.

 

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Eduard Kon Zion
Brasileira trans não-binária nascida em Brasília, Eduard Kon Zion iniciou seus estudos em danças urbana cedo, com o Breaking, em seguida com a dança clássica. Retornando às danças urbanas, já dançou e coreografou trabalhos utilizando Hip Hop, Street Jazz, Waacking, Voguing, Contemporâneo, Video dance, tendo essas estéticas presentes em campeonatos e apresentações nos grupos de danças de que já participou. Hoje representante condecorado do Brasil da House Of Zion de Nova York – casa que aplica e estuda a cultura Vogue na comunidade afro-latina criada por Pony Zion, coreógrafo do primeiro grupo de Voguing (Vogue Evolution) a apresentar no programa America’s Best Dance Crew .

A dança é sua linha de estudo artístico, mas Kon também é hoster, comentator, MC , Chanter das BallRoom’s (Batalhas de Voguing) e está ajudando cada vez mais e mais a crescer esta cena no Brasil, tornando se uma referência nacional e internacional, com workshops ministrados em locais como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, e, recentemente, no Chile. Kon se aprofunda nos estudos de danças performáticas utilizando de referências das mais variadas nomenclaturas existentes e de todo o vocabulário que adquiriu e continua adquirindo ao estudar Brasil a fora.

Mare_Rela_Judge (01)Mare Rela
Mariana Filgueira Rela, mais conhecida como Mare Rela, iniciou como estudante de Danças Urbanas no Studio Dançarte em 2009. Desde então participou de cursos e workshops por todo o país e em outros países, estudando em escolas conceituadas como: Studio MRG (Paris – FR); L.A.X Studio (Paris – FR); Dany Studio (Nova Iorque – NY); Studio Latino (Montpellier). Em 2013 iniciou a carreira como professora de Dancehall e Danças Urbanas do Studio Dançarte. Em 2014, participou do festival de Dancehall mais conceituado do mundo, em sua edição na América Latina: O Big Up Kemp Argentina. Foi vencedora da batalha 2×2 ao lado de Camila Leão, obteve destaque como uma das representantes brasileiras do Dancehall.

Idealizadora do evento nacional Dancehall Brazil Weekend, ao lado do sócio Thiago Spósito, evento que reuniu mais de 80 participantes e alunos de todo o país com professores nacionais. Artista influente na cena das danças urbanas de Goiânia, Mare Rela já ministrou aulas em escolas conceituadas de outras cidades, bem como em alguns eventos importantes da cena Dancehall no país.

DJ_Sapo (3)O DJ da batalha será DJ Sapo, que também é dançarino, desde 2011, quando teve seu primeiro contato com as danças urbanas por meio do Locking. Em seguida, conheceu o Breaking e fundou, a partir desta nova paixão, a Apocalipse Crew e o grupo Cyphers Clan. Hoje, a Cyphers Clan tornou-se um coletivo cultural, com dançarinos e dançarinas, DJs e MC. Idealizou e realizou em Brasília o evento de danças urbanas Breaking Down, que reuniu dançarinos/as locais e de outros estados. Focou nos cursos de produção de eventos e na arte-educação, atuando em centros de reintegração social e casas de recuperação. Integra o coletivo de DJs chamado Risquad Crew, formado por DJs integrantes das danças urbanas de Brasília. Integra também o coletivo House of Hands Up, constituído por dançarinos/as de Vogue.

Já tocou em grandes e tradicionais eventos de cultura urbana, tais como: Boom Bap, Festa Melanina, Batalha No Topo (Franca-SP), Eliminatória Quando As Ruas Chamam Etapa Brasília, Raw Circles Eliminatória Brasil, Makossa Baile Black, Batekoo, Jam No Museu, Yo Music, Breaking Na Praça, Rolê Bboyz (GO), Red Bull Bc One Cyphers Brasília, Pick Nick, Noite No Museu Com Basquiat (CCCBB-DF), dentre outros eventos locais e fora de Brasília.

O Wan Move Diaspora

O Wan Move Diapora é um congresso que reunirá mais de 50 danças tradicionais e urbanas de origem e matriz afro de todo o mundo, sejam elas diretamente do continente africano ou da diáspora, ou seja, da comunidade africana espalhada pelo globo. Entre os dias 26 de novembro e 02 de dezembro de 2018, representantes de danças de 23 países ministrarão aulas no Edna Manley College of Visual and Performing Arts, em Kingston, capital da Jamaica.

O nome remete à forma de dizer “One Move” – um movimento, representando a semelhança entre as manifestações culturais de origem africana que se espalharam pela diáspora, criando diversas expressões culturais mas, ainda assim, simbolizando uma unidade enquanto povo.

Serão oito dias de imersão completa na dança afro-diaspórica, com mais de 50 professores/as que são pioneiros/as ou grandes representantes dos mais de 50 gêneros que serão ministrados. Além disso, ainda serão realizadas performances, painéis e debates sobre temas relevantes para a dança de origem afro, a fim de qualificar a participação e o retorno dos/as participantes para seus países.

Há diretores regionais em 27 países para organizar os grupos para ir ao evento. No Brasil, a diretora regional é Carolina Newmann, que poderá passar mais informações sobre a ida para a Jamaica. O pacote para participar do evento é all inclusive, ou seja, com tudo incluso: passagens, visto, hospedagem, refeições (café da manhã, almoço e jantar), traslado e a participação na conferência. Também acontecerão festas, passeios e a batalha Global King and Queen of Dance, que premiará com 5 mil dólares e mais um ano de contrato a pessoa que vencer. As batalhas em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo serão seletivas para essa batalha maior que acontecerá na Jamaica.

Para mais informações, basta acessar o site www.wanmovediaspora.com/. Ou entrar em contato diretamente com Carolina Newmann pelo telefone: (61) 3202-1255.

Arte engajada – vídeos sobre Marielle Franco

Por acreditar que não existe arte separada do contexto social em que está inserida, a organização do Wan Move Diaspora se mobilizou nas redes sociais após o assassinato da vereadora Marielle Franco no dia 14 de março de 2018. Foi lançado um concurso mundial de vídeos que se manifestassem artisticamente contra a injustiça e o racismo que este crime representa, e o melhor vídeo ganharia a viagem com tudo pago. O vencedor do concurso foi o mineiro Marcelo Mendes, que vai participar do evento junto com as outras quatro pessoas que participaram da coreografia.

A proposta das batalhas em espaços nas periferias das grandes cidades surgiu também como resposta a este crime bárbaro, pois compreendeu-se que a arte precisa ser uma forma de questionar as estruturas sociais e de recuperar este sentido original de muitas das danças urbanas criadas pela comunidade negra.

Em Brasília, o projeto Jovem de Expressão ganhou bolsas para que cinco jovens do projeto possam participar dos workshops e da batalha de graça, a fim de que possam também se envolver com a proposta do evento e concorrer à viagem.

Serviço

Wan Move Battles – Brasília

Dia 11 de agosto de 2018, a partir das 14h

Local: Jovem de Expressão – EQNM 18/20, Praça do Cidadão em Ceilândia Norte

Preços

Workshops – R$80 antecipado / R$100 no local

Inscrição na batalha – R$10 antecipado / R$15 no local

Dados bancários para o depósito:

Banco do Brasil
Agência 1003-0
Conta Corrente 17.424-6
Anna Caroline Newman dos Santos Zica

Enviar comprovante de pagamento, nome completo e redes sociais para: kqd@wanmovediaspora.com

Programação

14h – Danças Afro – Nãnan Matos

15 – Breaking – Bgirl Prix

16h – Dancehall – Kim Weezy

19h – Batalha All Styles

Mais informações: Joceline Gomes: (61) 98132-4082

Pantera Negra e o Mulherismo Africana

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*Joceline Gomes

Pantera Negra. Um super-herói criado na década de 1960 e transportado para os cinemas, como filme solo, apenas em 2018. Mas veio em boa hora e em boas mãos. Pantera Negra inaugurou um novo momento de visibilidade e representatividade. Com um elenco praticamente todo formado por pessoas negras, incluindo até os dublês, o filme alcançou bilheterias estratosféricas, e esta mesma que vos fala foi ao cinema três vezes, coisa que não faço desde que a meia era 4 reais. Aí você me fala: mas Joceline, como assim Pantera Negra, você prometeu que ia falar sobre as correntes teóricas além do feminismo para abordar as especificidades das mulheres negras. E eu vou. Parece que não mas Pantera Negra facilitou e muito o meu trabalho. Porque trouxe imagens. E você sabe que uma imagem, ainda mais de Hollywood, vale mais que três textos.

Então vamos lá, vamos falar sobre minha corrente teórica favorita, que não é apenas um conceito, é uma também uma proposição política: o Mulherismo Africana. Sintetizando, como num Tweet, os três princípios básicos do Mulherismo Africana são: matriarcado (mulheres como centro da comunidade), pan-africanismo (negros são africanos, do continente ou da diáspora, porque fomos tirados de lá por sequestro) e afrocentricidade (de, por e para negros, blackmoney, por exemplo). Esses três princípios estão lá, em Pantera Negra. Aqui um parênteses: o “a” no final de “Africana”, não é de feminino, é de plural, para lembrar que existem diversas “Áfricas”.

SPOILER ALERT

daqui pra frente. Mas se você quer ver o filme com outros olhos, prossiga. Não importa o que eu te diga sobre o filme, o que vale é tudo que ele representa e a experiência de ver tudo isso que vou escrever aqui se materializando na sua frente. Vá ver.

Matriarcado

O papel das mulheres em Pantera Negra são fundamentais para a trama. O herói é homem, mas sem as mulheres ele não toma nenhuma decisão. Isso é o matriarcado. A mulher é a figura central de sua comunidade, sendo respeitada, reverenciada e ouvida, pois ela conhece melhor os anseios e necessidades de cada um, sendo a responsável por pensar as estratégias para melhorar a vida do seu povo. Isso fica evidente em cada personagem feminina que cerca o herói: seja a líder do exército de mulheres Okoye, a irmã cientista afrofuturista Shuri, a espiã do mundo exterior (e quase rainha) Nakia, ou a rainha-mãe ponderada e sábia Ramonda. Todas procuram, juntas, e da sua forma, melhorar a vida de todos, salvando a vida do rei e de todo o povo de Wakanda de diferentes formas e em diversas ocasiões.

Nakia propõe, inclusive, compartilhar todo o conhecimento e tecnologia de Wakanda para melhorar a vida da população em todo o mundo, e diminuir com isso as desigualdades e o sofrimento delas decorrente. Seu senso de justiça social, econômica e intelectual mostra que é uma verdadeira rainha, preocupada com o bem estar de todos.

Afinal, enquanto todos não formos livres, ninguém será, correto? Matriarcado é isso. Não há superiores ou inferiores.

Homens e mulheres trabalham juntos, horizontalmente, em prol de um povo que precisa ser orientado, cuidado, liderado para um bem maior e coletivo.

Nah Dove, em sua obra “Mulherisma Africana: Uma teoria afrocêntrica” (1998) explica que o matriarcado estabelece uma relação de complementariedade entre o masculino e o feminino, não há hierarquias e ambos trabalham juntos pela organização social, porém, “a mulher é reverenciada em seu papel como a mãe, quem é a portadora da vida, a condutora para a regeneração espiritual dos antepassados, a portadora da cultura, e o centro da organização social” (1998:08).

Sobre este ponto, há pessoas que argumentam que o Mulherismo Africana é uma teoria que reforça o machismo ou que relega às mulheres o papel de mãe e dona de casa, ou ainda que as mulheres exerciam um poder econômico e social opressor ao homem. Dove, utilizando a definição de Cheikh Anta Diop (1959/1990) para o matriarcado, explica que este sistema é baseado “em relações de reciprocidade, complementares, e, portanto, não hierárquicas, não sugere que as mulheres estavam em um tempo de superioridade aos homens”, muito menos que estivessem fazendo atividades domésticas por obrigação ou por imposição destes. Ao contrário, como afirma Diop (1959/1990 apud Dove 1998) um “regime matriarcal, longe de ser imposto ao homem por circunstâncias independentes da sua vontade, é aceito e defendido por ele”. Ainda assim, é importante ressaltar que apesar dessa complementaridade entre homens e mulheres no Mulherismo Africana, essa unidade não significa que não haja assimetrias ou diferenças, pois homens e mulheres ocupam papeis sociais diferentes, ou seja, esta unidade é heterogênea.

Um detalhe que gostaria que você, que ainda não assistiu ou pretende assistir de novo, prestasse atenção é: Ramonda, a rainha-mãe, passa grande parte do filme com turbantes ma-ra-vi-golds. Porém, quando T’Challa morre, a próxima cena da rainha-mãe é sem turbante. Não se trata apenas de um “pano na cabeça”. É coroa. É nesses detalhes que você percebe que a galera não está pra brincadeira. Representatividade é importante, e não deve ser feita de qualquer jeito.

As referências à ancestralidade também são emocionantes, e nos reconectam com quem somos.

Pan-africanismo

Em determinado momento do filme, o “vilão” (as aspas são por minha conta, porque me identifiquei com ele em vários aspectos) Killmonger fala: mas a vida não começou aqui em Wakanda(=África)? Somos todos daqui. O pan-africanismo é, resumidamente, saber que se estamos no Brasil hoje é porque nossos ancestrais foram sequestrados de África e trazidos escravizados para cá. Assim como grande parte da população negra nas Américas. Logo, somos todos africanos, do continente ou da diáspora.

De acordo com Gilza Marques (2016), o pan-africanismo é a plataforma política do Mulherismo Africana. Para ela, afirmar-se pan-africanista “significa dizer que povos pretos do continente e da diáspora devem lutar unidos pela libertação, é reconhecer que toda pessoa preta é africana e que a opressão racial se expressa de maneira semelhante em qualquer lugar do mundo onde uma pessoa preta esteja” (2016). De acordo com a autora, o Brasil é uma “invenção europeia” que sempre considerou a população negra como “cidadãos de segunda classe exatamente devido a nossa origem africana”.

Nah Dove usa o termo “Africano” para definir não apenas os nascidos no continente, mas também os descendentes de sua diáspora, “porque há uma crença de que nós, apesar de nossas experiências diferentes, estamos ligados à nossa memória cultural e espiritualidade Africana e podemos a qualquer momento nos tornarmos conscientes de sua importância para nossa Africanidade e futuro” (1998:04).

A autora destaca ainda que o Mulherismo Africana é uma teoria central para “a construção da visão de mundo Africana”, reforçando o conceito de que tráfico de pessoas escravizadas foi o responsável por tirar a população negra da África, mas que isso não tirou os elementos culturais, espirituais e individuais de homens e mulheres negros que, mesmo fora do continente, não podem negar sua origem africana.

Afrocentricidade

De preto, pra preto, por preto. Nós por nós. Black Money (negros comprando de afroempreendedores). São exemplos de afrocentricidade, que é o caminho para o pan-africanismo. É saber que operamos em coletivo, e que por isso é importante buscar um referencial africano, pois fazemos parte de um povo africano, independentemente de onde estivermos. Se somos segregados individualmente, precisamos reagir em grupo. Busque suas referências negras.

Pantera Negra acaba de se tornar uma. Seja você também uma para as pessoas a sua volta. Estude, pesquise, leia sobre a História da África e você vai entender sobre sua própria história. O final do filme é a coroa da afrocentricidade: Nós por nós, cuidando do nosso povo. Vamos nos educar, nos informar, capacitar e qualificar os nossos para que possamos nos emancipar, em conjunto, por meio da educação. Não dá pra resolver tudo com educação, mas esse é o caminho do autoconhecimento. E uma pessoa que se conhece, controla o que quer que seja, né?

Tendo tudo isso dito, Pantera Negra é ancestralidade. É matriarcado. É pan-africanismo. É afrocentricidade. É um movimento, que só começou. Aumentou e muito os padrões de filmes de representatividade negra, e não apenas de super-herói. Agora vai ser difícil fazer qualquer coisa de qualquer jeito. É um marco. Wakanda Forever.

P.S: Eu sei que o dinheiro continua indo pros super produtores brancos. Eu sei que é só um filme. Mas representatividade importa. E eu sei que você sabe disso também.

 

*Joceline Gomes é jornalista, dançarina, e também colunista da Rádio Eixo, onde esse texto foi publicado originalmente. Era #TeamKillmonger mas virou #TeamNakia graças a debates com pessoas muito inteligentes no Twitter.

 

Referências

MARQUES, Gilza. 10 tópicos sobre Mulherismo Africana (para escurecer o pensamento). 24 mar 2016. In: Pensamentos Mulheristas. Disponível em: < https://pensamentosmulheristas.wordpress.com/2016/03/24/10-topicos-sobre-mulherismo-africana-para-escurecer-o-pensamento/ >. Acesso em: 11 abril 2016.

DOVE, Nah. Mulherisma Africana: Uma teoria afrocêntrica. In: Jornal de Estudos Negros. Vol. 28. № 5. Maio 1998. 515-539. Disponível em: < https://estahorareall.files.wordpress.com/2015/11/mulherisma-africana-uma-teoria-afrocecc82ntrica-nah-dove.pdf >. Acesso em: 13 abril 2016.

 

Aprenda: preto é uma palavra linda e não ofende ninguém*

pretos

*Basília Rodrigues

Cento e vinte e nove anos desde o fim da escravidão e ainda é preciso explicar que a defesa de negros e negras não tem nada a ver com vitimização. Para piorar, o racismo velado anda perdendo espaço para a falta de vergonha na cara de quem molda seu jeito de ser de acordo com a cor da pele das pessoas. Com alguns, sorrisos; com outros, racismo. É como aquele sujeito que anda na festa entre amigos, sorridente e comum, mas, ao se referir a uma mulher negra, agride.

No início do mês, isso aconteceu comigo. Estava em um evento de jornalistas. E, ao ouvir que eu era repórter, um rapaz quis confirmar a minha profissão e se eu era negra. Pois é, ele me olhou e perguntou isso frente a frente.

As duas palavras em uma mesma frase não foram suficientemente plausíveis para aquele rapaz, que, afundado bem mais do que em copos de uísque, partiu para uma provocação inegável: sou negra.

Em seguida, o homem disse: “Não sei se você pode conversar comigo”. Explicou que certo candidato à Presidência da República tem restrições a pessoas negras. “Posso conversar com você? Vou votar nele e ele não deixa”, afirma.

Inconveniente, o eleitor/racista/bêbado é convidado a se retirar, mas pede para ficar porque estava “dando em cima da preta”. E eu respondi prontamente: “Ser chamada de preta não me ofende”. Uma pessoa que testemunhou a conversa, assim como eu, se sentiu transportada para alguma cena do passado em pleno 2017. Seu discurso e sua presença não cabiam mais naquela mesa, nem no presente.

Não há nada mais sintomático sobre preconceito do que associar certos tipos de profissão a certos tipos de pessoas e tons de pele. É surpreendente ver como o inconformismo pode se revelar do nada – ele não se aguenta mais velado.”
Torço para que mais negros se afirmem como são e protejam sua autoestima, sem perder a leveza da vida. Venho aqui hoje escrever isso: não saia da mesa, encare. “Preta” é uma das palavras mais lindas que eu já ouvi, mas é mal colocada. Aprenda: esse termo não ofende e nunca mais alguém irá usá-lo na tentativa de ofender.

*Basilia Rodrigues é repórter da CBN há quase 10 anos. Editora da Revista Evoke, que circula em Brasília. Colabora com os sites Congresso em Foco e Jota. Formada pelo Uniceub, em Jornalismo, cursa especialização em Historia, Sociedade e Cidadania.

Projeto Saravá

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Executado pela fotógrafa Thamires Cursino (Festivais Satélite 061, Elemento em Movimento, Mamulengo de RAPente, Circulação quarteto Capivara). O projeto Saravá visa mostrar, através da fotografia, a autenticidade e a beleza que os cultos de matriz africana possuem, com todas suas diversidades e características marcantes. A ideia deste trabalho é levar um olhar de dentro dos cultos afro-brasileiros para a população.

Thamires é apaixonada pela arte da fotografia, gosta de fotografar cultos de matriz africana, cultura popular e espetáculos.

Em conversa com o FP, Thamires diz que sentiu ‘uma estrema necessidade de mostrar um olhar diferenciado para os cultos de matriz africana. Sou umbandista e sei o como é ter olhares tortos para nossas guias no meio da ruas. Queria mostrar a beleza, o colorido e principalmente a paixão dos seus filhos. O povo do santo tem uma dedicação e um amor pelo que faz que transborda, levamos os ensinamentos do terreiro para a vida. É isso que tento mostrar com minha fotografia.’

Insta: Thamíres Cursino ou na página da Agência Uboro: http://agenciauboro.wixsite.com/uboro

Veja mais fotos do Projeto Saravá na nossa Página no Facebook

 

Um papo nada Singelo

O rapper e ativista cultural Singelo MC solta o verbo sobre cultura, juventude, periferia, rap e política

singelo

Vinicius Dias

Rafael Félix poderia ser só mais um jovem morador de Samambaia, quebrada do DF, mas não, ele resolveu ser diferente e fazer a diferença. Rapper, ativista cultural, estudante de psicologia e recentemente eleito conselheiro regional de Cultura por Samambaia, ele não perde tempo e não fica parado.  Normalmente visto por aí com um sorriso negro no rosto preto, Rafael é mais conhecido pelo nome Singelo MC, e tá ainda mais sorridente esses dias, pois está indo em pra Batalha Mic Master Brasil. O evento vai premiar com um carro zero o mais sinistro no improviso. E a gente tá na torcida desse mano, que nos concedeu uma entrevista exclusiva e soltou o verbo com sua visão política apurada:

1 – Quando você começou a rimar e quais foram/são  suas influências?
Rimo desde criança, fazia melôs pros meus amigos e inventava paródia das músicas. Considero que já era rimador, mas não havia assumido essa identidade. Nas Batalhas de MC, rimo desde junho de 2012. A primeira referência de rima, mesmo sendo novo (tenho 23 anos) foi o álbum “Holocausto urbano” dos Racionais MCs, além dos outros clássicos CD “O beck e o contracheque” do Tropa de Elite e “A ocasião faz o ladrão” do Cirurgia Moral. Considero que fui privilegiado na forma como meu interesse pelos que rappers e MCs poderiam fazer com as palavras. No Freestyle, minhas referências são caras que fazem a rima pura e simples como Vinição, Vuks e Magú de BH, Daniel Garnet de SP. No Rap gosto de sons autênticos, com mensagens necessárias, sadias e boa musicalidade como o que vejo no Quadrilha Intelectual, Branco P9, Valete, KRS-One. Bebo muito também em outros estilos brasileiros, como o samba, a MPB, o funk carioca. Enfim, música boa, sem rótulos!

2 – Fala um pouco da cena Rap aqui em Brasília…
Fomos pioneiros num estilo de Rap que nos caracterizava bastante, o Gangsta. Essa identidade é importante. Acredito que o Rap distritofederalense anda carente de referências. Infelizmente, a grande maioria desconhece seu passado, é confuso sobre o seu presente e incapaz de construir o futuro. Falta uma pá de coisa, como responsabilidade, posição, postura. Como diz um amigo meu, Henrique QI: “quem vai samplear nóis?”, quem vai substituir nossos generais, como GOG e Markão Aborígene? Quem tá na disposição de pegar o bastão? O mercado fez a gente se acostumar com mingau, sendo que a lide do Hip Hop exige sustança! Sempre nivelo minha gente por cima e acredito que podemos ser mais criativos, autênticos, originais. Sermos nós mesmos. Como ponto positivo, a expansão da mídia está fazendo que nóis se aproprie das produções musicais, audiovisuais e nós por nós sempre é bom.

3 – Como ta a expectativa pro evento que você foi convocado em São Paulo. Fala um pouco do evento pra nós…
Na verdade, não fui convocado, tive que passar por umas pedreiras aqui na seletiva, que foi regada a muitas polêmicas. Na eliminatória, fui classificado pela Batalha da Santinha e consegui vencer o Diogo Loko, o Nauí, o DeJAH e o Marinho. Alguns falam que a parada foi garfada, mas tudo que envolve dinheiro e bens gera esse tipo de polêmica, tanto que rolou a mesma coisa nos outros estados. Ainda bem que sou vacinado contra esse tipo de situação. Em 2013, quando fui campeão do Calango Pensante, no aniversário de Brasília, falaram a mesma coisa em relação a uma batalha minha contra o Biro-Biro. Não respondi a nenhum dos críticos, pois acho que os resultados e desempenho falam por si. Desejo o bem de todos os críticos, mesmo que eles quase tenham me feito desanimar da parada…
Enfim, o evento é o Mic Master Brasil, uma batalha de MCs idealizada pela Double G, que premiará seu campeão com um carro 0 km, um Hyundai HB-20. Tô me sentindo seguro e preparado, com o apoio da galera do DF, pode pá que vai vir coisa boa pra nois… Vou em nome de cada scratch, flow, bomb e footwork daqui.

Singelo MC emocionado ao ganhar a eliminatória que garantiu sua vaga no Mic Master Brasil - Batalha de MC que acontecerá em São Paulo

Singelo MC emocionado ao ganhar a eliminatória que garantiu sua vaga no Mic Master Brasil – Batalha de MC que acontecerá em São Paulo

4 – Como tu ta vendo o cenário atual politico no Brasil?
A palavra é instabilidade. Nossa democracia é muito nova e suscetíveis a ataques como a ocupação do cargo de presidente pelo senhor Michel Temer. Precisamos botar os pingos nos is, não tem a ver com defender partido X ou Y, nem em ser de esquerda ou de direita, tem a ver com, minimamente preservar a democracia. Nossa gente ainda tá comendo muito kaô da mídia corporativa, elegendo os inimigos errados. Feliz por ser convidado pra festa de gala desse pseudoprogressismo, se esquecendo que será banquete ou trabalhará na copa, como de costume. Não tá pela ordem. E vários do Hip Hop não estão se posicionando diante desse circo… os mornos. Cara, temos que aprender de novo a fazer as críticas. Estamos tão acostumados a criticar todo governo e todo político no automático, que esquecemos de ver os avanços e queremos descartar todo o pouco que foi conquistado, o que nos fazer ideias pouco sensatas como a de ficar derrubando os políticos um por um, até a eternidade. Não seria mais simples ruir o sistema ou preparar nossa gente pra se eleger? Quem tá afim de ser deputado distrital? Ou melhor, o que faz um deputado distrital? Vamos começar pela base… Qual é o nome do administrador sua região administrativa? É necessário voltar ao trabalho de base, deu certo uma vez e pode dar de novo, ou melhor, tem que dar novo!!! A democracia pede socorro!

5 – Politica e rap. Tem alguma ligação ?
Totalmente. Não acredito que exista um Rap sério que não tenha alguma ligação com política. O Rap se originou pra dar voz a quem não tem e a cuidar de quem não é cuidado. Quando Public Enemy canta “Fight the power”, não é apenas o Chuck-D, Flavor Fav e o Terminator X que mandam a mensagem, é o gueto norte-americano que canta, é os cerca de 10% da população negra, os latinos que se identificam com a parada e talvez, quem sabe, até os “burgueses sensatos”, entende? Eles são porta-vozes, e isso é muito político. Quando Pepeu canta “Nomes de Meninas”, ele cria um som que embala a quebrada, faz todo mundo cantar junto, ou seja, de um modo DIRETO ele embala a socialização dos bailes, ele cuida do nosso bem-estar, nos diverte de um modo saudável. Você consegue perceber o quanto isso é político? Os cara pensa que política é só criticar o governo, falar de problemas sociais. Às vezes é fazer um som romântico e tirar a mulher desse lugar de objetificação que ela foi colocado ou até mesmo fazer um bom trap, que resgate valores perdidos e promova a comunhão na comunidade. Enfim, pensamento aberto nessas ideia aí.

6 – Quais são os trampos pro futuro? A rapaziada pode esperar alguma coisa aí? Algum sonho?
Tenho um livro de poemas pela metade, não sei se um dia se tornará concreto. Tenho um EP engatilhado e um profundo desejo de lançar um CD, que inclusive estava sendo gestado, mas tive de repensar por incoerências políticas da minha parte. Meu sonho é virar tipo um pensador de culturas urbanas, mostrar o quanto elas podem fazer bem pras pessoas e revolucionar corações, quando bem orientadas. Idealista nato! (risos)

7 – Você participa de batalhas de poesia, os slams. Essa forma de mandar a ideia tem alguma ligação com tua forma de criar letras de rap ou é uma outra forma de criação?
Cara, eu participei apenas uma vez e de vez em quando mando alguns poemas meus. Essa forma não tem muito a ver com minha forma de criar letras não, enxergo que é outra plataforma. A base do Rap limita sua possibilidades e o silêncio da declamação de poesias deixa as possibilidades infinitas, então são paradas diferentes.

8 – Improviso ou letra escrita ?
Os dois! Mas acho que sou melhor no improviso, é o que a rapa diz e eu abraço! (risos)

9 – Todo mundo fala que o Rap de Brasília é diferenciado, tem uma pegada mais gangsta. Eu tenho a impressão que uma galera nova ta desconstruindo isso e dando uma nova cara no rap do DF, assim como em outros lugares do Brasil também. Você percebe isso também?
Percebo e tenho ressalvas. Vou chover no molhado. Sou muito saudosista, cresci ouvindo os tapes de flashback do meu pai, então reitero a crítica: nos falta reverência e referência. Deixamos nossos ícones da arte brasileira serem esquecidos ou parcialmente lembrados. Assim como nosso grande Mestre Bimba morreu à míngua lá em Goiânia, vejo muitos ícones nossos aqui passando mó veneno, sem nem ao menos serem lembrados. Isso é falta de reverência. A outra questão é que o Hip Hop não começou ontem, ele tem uma história que remonta lá na Jamaica colonizada pela Inglaterra, então, meu, se você quiser dar continuidade na história, você tem que conhecê-la. Fico de cara, quando troco ideia com os dinossauro do Hip Hop, os cara sabe tudo! Sabem detalhes da vida do Nelson Triunfo, Ghetto Brothers, Malcom X, Paulo Freire. Nós, os girinos, estamos sem referências e não nos preocupamos com isso. Temos que considerar que a educação política e musical dos cara foi diferente e acredito que, assim como nos E.U.A., essa educação, na época, foi uma questão de sobrevivência, de auto-estima. Hoje isso não é tão forte. É mil fita, nêgo.

10 – O mic ta aberto…é seu…
Assassinem o “eu” pra que o “nós” possa ressurgir. Cuidem das suas famílias, seus amigos, sua cidade e seu povo.  Mantenha sua espiritualidade forte e intocável. Tenha propósitos em tudo. Dê o seu melhor. Manifeste seus talentos. Não sejam humildes demais. Sejam respeitosos sobretudo com os desrespeitosos. Imponham limites, mantenham a classe. Sejam sempre fieis e honestos. Não se iludam. Não comam qualquer caô. Questione os inquestionáveis. Estranhe tudo. Mas faça tudo isso enquanto aproveita a vida. Sejam felizes! Em síntese, como diria Spike Lee: “Faça a coisa certa!”.

Marcha das Flores e a Estátua da Justiça

Esqueça o que você leu na imprensa. Foi isso que aconteceu.

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Da Redação (ou seja, tudo nosso)

Brasília, 29/05/2016.

Um protesto é feito por coletivos em solidariedade ao caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro. A banda percussiva Batalá, com formação exclusiva feminina, rufa os tambores e dá o tom através de seu toque do que virá. Coisa de mulher: força, garra, determinação! Ao final da apresentação, Maria Paula Andrade, atriz e apresentadora, faz o chamamento e alerta que aquele encontro é apartidário e não governamental. Importante o alerta de Maria de Paula porque os oportunistas políticos de plantão sempre estão a rondar. Ela recita uma poesia de improviso e abre a contagem regressiva, começando do numeral trinta e terminando em: nenhum! Nunca mais! O coro é uma coisa única e muito emociona. Mulheres e homens choram, se abraçam, se dão as mãos, lembrando do quão pavorosa deve ser a imagem daqueles trinta homens que pacientemente esperaram sua vez de violar o corpo de uma adolescente. A marcha dá início! São cerca de 3.000 pessoas, maioria mulheres!

Seguem pela Esplanada dos Ministérios com gritos de guerra sobre questões do movimento de mulheres: o corpo, o direito a livre expressão, o racismo que impacta crucialmente as mulheres negras, a violência, o combate à cultura do estupro, o machismo. Em alguns momentos alertam para a situação do país também, com um Congresso e um Judiciário que não representa a maioria da população. Nada mais justo em um governo que suprimiu a Secretaria de Políticas para as Mulheres a uma instância menor no organograma atual. São momentos emocionantes. Homens acompanham a passeata com poucos sorrisos. Parece um momento de reflexão de seus lugares ali e na história social do patriarcado.

Chegamos ao prédio do Supremo Tribunal Federal. Todo cercado de grades isolando a estátua denominada “A Justiça”. Diferente dos vários símbolos que representam a justiça em âmbito internacional, a estátua Justiça em frente a um dos prédios mais importantes na estrutura de poder do Brasil não tem a balança que significa a equidade no julgar. As grades que cercam são por demais simbólicas, querem dizer: o acesso à justiça é difícil, vocês deverão ultrapassar barreiras caso queiram acessa-la. É o que faz uma das manifestantes, que pula as grades, pega algumas flores jogadas dentro do cerco pelas demais colegas e começa a montar um buquê. Se direciona à “justiça do Brasil”, aquela que tem uma venda nos olhos e uma espada nas mãos, que representa a força, a coragem, a ordem e a regra necessárias para impor o Direito.

A mulher caminha forte e segura. Os seguranças vem de encontro a ela pra proteger a justiça. Há uma pequena negociação. O corporal da mulher deixa claro que ela quer concretizar o ato simbólico por suas companheira sem acesso, ela quer colocar o buquê, colhido com flores jogadas ao chão que não chegaram à justiça por conta da longa distância entre elas (poética e literal). A segurança é intransigente. A mulher é determinada. Usam spray de pimenta contra ela. Começam gritos e muita indignação. A mulherada balança as grades, empurra, arrasta, derruba. A polícia atira spray de pimenta contra as manifestantes. As mulheres da linha de frente voltam esfregando os olhos e abrindo caminho pras próximas que estão por vir. Avança o exército feminino. Os seguranças recuam, fecham um círculo em volta da justiça, de mãos dadas e de costas para a escultura. Todas começam a atirar as flores, que estavam ao chão, na própria estátua. O que era pra ser um depósito simbólico, aos seus pés, torna-se uma chuva de flores: algumas caem no colo da justiça, algumas no chão, outras nos seguranças… A estátua fica cheia de flores, além de alguns cartazes na base, com dizeres: “Mexeu com uma, mexeu com todas”, “Pelo fim da cultura do estupro”, entre outros.

É uma visão por demais simbólica do Brasil. Um protesto que começou porque faltou proteção a uma mulher termina agredindo outras mulheres para defender uma estátua. Semanas antes, o ministro da Educação recebeu um ator pornô que admitiu, em rede nacional (uma concessão pública, portanto) ter estuprado uma mulher. Ali próximo se reúnem políticos da espécie mais misógena que se pode ter notícia, como o deputado Jair Bolsonaro, que se dirigiu à deputada Maria do Rosário dizendo: “Eu não vou estuprar você porque você não merece”. Tudo ali, sendo representado de uma maneira muito fiel: o povo querendo depositar flores na estátua e cerca de 10 seguranças protegendo um bloco de cimento maciço. Uma menina de 16 anos foi estuprada por 33 homens e não foi protegida com toda atenção que era dada à estátua Justiça. A polícia fazendo a segurança… de quem mesmo?

A estátua Justiça
Feita pelo artista mineiro Alfredo Ceschiatti, a estátua mede 3,3 de altura e 1,48 de largura. É uma mulher sentada e foi feita em 1961. Diferentemente das outras representações da Justiça, que carregam uma balança simbolizando a igualdade do pesar da decisão, a equidade e o nivelamento jurídico, a obra brasileira carrega em suas mãos apenas a espada, que significa o rigor nas decisões daquele poder. Foi esculpida em bloco de granito maciço. A simbologia dessa escultura tem origem na deusa romana Justiça, que corresponde à grega Dice, filha de Zeus com Têmis, a guardiã dos juramentos dos homens.

Hoje, ela, que era coadjuvante, passou a ser o centro das atenções e cuidados. Nosso foco era simples: uma mulher ia depositar flores aos seus pés, simbolizando o enterro da justiça, dessa justiça falida, que está de fato cega para as necessidades de seu povo e que além de julgar mal, participa de um golpe contra a nação. Mas não, não podíamos fazer isso. Muito simbólico. Muito pesado. Quiseram humilhar a mulher que levava as flores. Mas nós já estávamos protestando contra a violência contra uma mulher, não poderíamos assistir paradas a mais uma violência contra outra mulher. Sexo frágil? Aqui não. Todos os dias enfrentamos medos diversos, só do caminho de casa até o ponto de ônibus. Não vamos nos limitar a uma grade. Passamos por cima de diferenças salariais, desigualdades no tratamento, falta de respeito diversas, racismo, hipersexualização, entre outros obstáculos. Não vamos passar por uma grade? Por uma estátua? De frágil, aqui, só tem o estereótipo. Ou, como dizia a ciranda que foi feita em torno da estátua: “Ô seu machista, cê pode crer, a mulherada não tem medo de você!”.