O corpo que tomba

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*Joceline Gomes

Corpo político. Corpo manifesto. Corpo templo. Corpo negro. As notícias dos últimos dias nos despertam tantos sentimentos que às vezes é mais fácil acreditar na dicotomia ocidental entre “corpo e mente” e achamos que esse sentir não afetará nosso corpo. Mas afeta. Por dia, no Brasil, tombam 63 corpos negros. E cada corpo que cai, um pedaço de cada pessoa preta que permanece viva cai junto. Nos últimos dias fiz uma série de postagens a respeito dessa dor ser insuportável e de que o ódio muitas vezes é o que nos resta enquanto combustível pra continuar vivo. Também nos últimos dias, uma “influencer” branca postou no Instagram que “atravessar a rua quando vê uma pessoa preta é natural”, ou seja, racismo é natural. Qual a cor de pele desse corpo que afirma isso? Você já deve saber. Muitas pessoas quiseram denunciar a publicação, mas a plataforma Instagram simplesmente não tem esse recurso: denunciar racismo. Uma plataforma desse porte não considera racismo um motivo forte o suficiente para receber denúncias.  Entretanto, derruba vídeos de dançarines e coreógrafes que utilizam músicas de artistas renomados sob o pretexto de ferir Direitos Autorais. A já mencionada “influencer que acha racismo natural” permanece no instagram.

Para fazer esse tipo de afirmação em público, a pessoa precisa ter muita certeza de impunidade. E ela tem. Branca, rica, “influencer”. Sabe quem não tinha nenhuma dessas prerrogativas? Vou citar alguns nomes: George Floyd, Amarildo Dias de Souza, Claudia Silva Ferreira, Ágatha Félix, João Pedro, e mais recentemente Miguel Otávio Santana da Silva. Miguel tinha 5 anos e morreu após Sari Corte Real, patroa de sua mãe, esposa do prefeito de Tamandaré (PE), o deixar sozinho. Sari não teve sequer seu nome ou rostos divulgados nas primeiras notícias. Pagou uma fiança de 20 mil reais e está livre.

A imagem que ilustra esse texto é a capa dessa semana de uma das maiores revistas do mundo, e fala sobre a dor de mães negras que perdem seus filhos. A moldura da capa contém nomes de pessoas pretas assassinadas pela polícia nos Estados Unidos. Hoje, a Bélgica fez uma charge ironizando o assassinato de George Floyd, o que incentivou pessoas brancas dos EUA a fazerem fotos simulando a postura do policial, com o joelho no pescoço de outra pessoa. A Bélgica tem em sua história o passado de amputar mãos e pés de mulheres e crianças quando os homens não atingiam cotas de colheita de cacau. Sabe o famoso “Chocolate Belga” que todo mundo ama? Pois é. Procurem por Leopoldo II no Google e saibam mais.

Racionais já perguntou: Olha quem morre então veja você quem mata. Os corpos escravizados, asfixiados, negligenciados, ironizados, discriminados, violentados, assassinados tem uma cor. Os corpos livres, universais, padrão, outra. Corpos compõe a sociedade, corpos contém alma, espírito, mente, tudo o mais. Tudo o que existe é corpo. E o corpo negro é um corpo resistência, que resiste a todas essas notícias e à morte dos seus iguais dia após dia. Há quem diga que fomos feitos para a luta. Mas não fomos. Fomos feitos para a grandeza. A luta é o que nos restou. E mesmo esta luta sofre cooptação e secundarização da esquerda brasileira. Nosso corpo não está a sua disposição. Não é público. É nosso. E como tal, precisa e quer viver. Nossas vidas importam.

 

*Joceline Gomes é jornalista, dançarina, estuda corpo e questões raciais e tá sentindo variadas dores.

Não é antifascista, é ANTIRRACISTA!

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Delegacia em chamas em Minneapolis (Estados Unidos) durante protestos pela morte de George Floyd. Crédito: Reprodução/Twitter @georgegalloway

 

*Joceline Gomes

E então morre um. Dois. Três. Sessenta e três por dia. Todos os dias no Brasil morrem 63 homens pretos vítima de violência. Começam algumas manifestações pelo Brasil, provocadas pelo assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. Me disseram que perdemos o timing das manifestações pela morte do João Pedro (14 anos, assassinado em casa pela polícia do RJ). Que precisávamos de um exemplo nacional pra essas manifestações. Uma pessoa preta aqui ou nos EUA é uma pessoa preta. Morta aqui ou nos EUA, é uma pessoa preta. Exemplos nacionais temos 63 por dia. Mas as notícias dos protestos norte-americanos motivaram protestos em todo o mundo, inclusive no Brasil. Porém, por aqui, um fenômeno “interessante” aconteceu. O que seriam manifestações pela vida do povo preto e contra o nosso genocídio rapidamente viraram um movimento “antifascista”. E a pergunta que fica é por quê?

O protesto no Brasil só virou “antifascista” porque historicamente a esquerda se apropria de todas as nossas lutas e esvazia a pauta racial. Esvazia porque não estamos lá pra essa “disputa de narrativa” como eles tanto gostam de falar. Pode observar, faz o teste do pescoço aí. Quantos negros tem na sua reunião do partido político super de esquerda que você frequenta? Os partidos e organizações populares brasileiras gostam de falar que “o problema é classe e não raça”, e contam com argumentações e formativas que convencem até as pessoas pretas disso. Mas deixa eu explicar um negócio: somos pobres porque somos negros. Pros movimentos sociais e pra esquerda o problema é existir branco pobre. Quando não tiver mais branco pobre, classe deixará de ser um problema também. Os protestos viraram “antifascistas” porque o fascismo também atinge os brancos. O racismo não. Por que eles lutariam contra o racismo se a estrutura racista os beneficia? Sacaram?

O meu povo tá morrendo e a esquerda branca tá lutando contra o fascismo? Pela democracia? E as mortes do meu povo, quem vai lutar contra? O Covid-19 está matando mais gente preta. A polícia, mesmo em quarentena, continua matando gente preta. E a gente vai falar que agora é hora de se manter em casa? A pauta não é antifascista, galera, é ANTIRRACISTA. Foi o racismo que motivou os primeiros protestos e não dá mais pra afogar nossas pautas com outras. Todas são importantes, mas haverá algum momento em que as pessoas pretas poderão ser protagonistas ao falar de sua dor? Ou vamos jogar todas as pautas nesse protesto, como sempre? E aí, um protesto motivado finalmente por razões raciais vai ser esvaziado do seu significado mais uma vez. Vai virar “antifascista”, “pela demoracia”, “fora bolsonaro”. Tudo isso é muito importante sim, mas NÃO É SOBRE ISSO AGORA. Respeitem nossos mortos!

É possível pelo menos uma vez sermos protagonistas da nossa dor? Podemos falar do povo preto morrendo ou vocês vão continuar agindo como se isso não fosse um problema? Ou isso é problema só do povo preto e se for pra vocês, pessoas brancas, participarem das manifestações não podemos falar sobre isso? Dá pra falarmos sobre esse assunto sem a esquerda se apropriar da nossa luta? Sempre há pautas “mais abrangentes”, como se raça fosse um recorte, e não é. É a base da sociedade brasileira, não dá mais pra agir como recorte. Só existiu fascismo porque existiu capitalismo porque existiu revolução industrial porque existiu escravidão porque existiu racismo. Essa é a ordem. O povo preto já estava na base da famosa pirâmide quando o fascismo surgiu. Pela primeira vez temos protestos contra um crime racial tomando proporções globais e quando chegam ao Brasil automaticamente viram “antifascismo” e a pauta racial é abafada. Como se isso não fosse um problema aqui. Chega de pegar carona no nosso sofrimento.

Amarildo, Claudia, Marielle, João Pedro, em todos era “o timing”, e o povo preto também não ficou calado diante de tudo isso. Acho que nesse momento temos que nos juntar a essa efervescência global e nos posicionarmos finalmente. Se o argumento é que somos desmobilizados e desarticulados, agora temos movimentos acontecendo no mundo todo, chamando a atenção para a política de morte do povo preto (necropolítica). Assim sendo, porque esperar que mais uma tragédia nacional aconteça pra gente falar “agora sim, tá no meu quintal”? Uma parada que sempre me incomodou são aquelas máximas: e se fosse sua mãe, e se fosse sua irmã? Mano, e se fosse um ser humano? Só dói se for dentro da sua família? Do seu país? Da sua rua? EU ASSISTI um video de quatro minutos com um homem negro sendo asfixiado e a mulher BRANCA que chamou a polícia pra ele era quem estava filmando. Quatro minutos asfixiado, pedindo ajuda, sem ter. Amarildo foi torturado por 40 minutos e até hoje seu corpo não foi encontrado. Uma criança estava dentro de casa e foi assassinada. Quando vai ser o timing? O que precisa acontecer pra gente ir pra rua? Esperar eu morrer pros meus amigos puxarem camiseta com minha foto, cartaz e hashtag com o meu nome?

Eu não aguento mais ver meu povo morrer sem fazer nada. Não dá. Meditar, vibrar boas energias, estudar, perdoar, não consigo mais. A polícia de Miami ajoelhou e as pessoas pretas foram abraçar os policiais e chorar com eles. Eu não acreditei. Gente, não emociona com isso, não. Na moral. Policial branco ajoelhado pedindo desculpas? Foi um branco ajoelhado que matou um (vários!) dos nossos. É tão fácil assim nos desviar das nossas pautas e nos fazer acreditar que eles são pacíficos? “Mas eles pediram desculpas”. É fácil assim esquecermos de todos os crimes cometidos por essa instituição contra o nosso povo DIARIAMENTE? Quem continua matando é branco e quem continua morrendo é preto. E a gente continua aceitando pedidos de desculpas. Apenas parem. Precisamos parar!

Admiro quem consegue manter o mínimo de saúde mental nesse momento. Eu não consigo. Já diria Malcolm: se você não fica de pé por nada (não se posiciona) você cairá por qualquer coisa. Já entendi que manifestações não mudam nada. Mas ficar em casa também não. Prefiro estar ao lado dos meus nesse momento e mostrar que estou aqui, de pé, do lado deles. As luzes se apagam, não tem mais palco nem plateia, nós que costumamos nos posicionar por meio da nossa arte estamos em casa. E os nossos continuam morrendo. Quem vai fazer algo a respeito? O que você está fazendo a respeito? Podemos falar do genocídio do povo preto ou vamos continuar sendo subcategorias de recorte de protesto de esquerda pra sempre? São questionamentos que faço, porque domingo (07/06) vai ter protesto em Brasília e eu queria mesmo que a pauta racial fosse mantida. Porque não estou disposta a arriscar minha vida em uma aglomeração que tenha algum outro motivo que não seja a vida do povo preto. Por eles me levanto e estou disposta a cair. Por nada nem ninguém mais.

*Joceline Gomes é jornalista, professora de Danças Afro, pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça, Mulherista Africana, Pan-africanista e entre esquerda e direita continua sendo preta.

Um pouco mais de paciência…

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*Joceline Gomes

Tava tomando meu banho de banheira com óleos essenciais. Deixei bem quente, entrei, fiquei refletindo sobre todas as reviravoltas que minha vida passou nos últimos meses. Me mudei pra Portugal em duas semanas, terminei um relacionamento, passei quase 60 dias em quarentena e estava planejando meu retorno pro Brasil em cinco dias. Foram dias difíceis, com acusações, injustiças e possibilidades profissionais se despedaçando na minha frente, nas mãos do colonizador. Colonizador sempre será colonizador. Não se iludam e guardem essa frase. Mas esse texto não é sobre isso. Durante esse banho, fui tocando cada parte do meu corpo, agradecendo, pedindo perdão. Refletindo. Ouvindo minhas músicas tristes. Chorando. Enfim. Aí chegou uma hora que eu falei: chega dessa merda de ficar sentindo pena de mim mesma. Deixa eu tomar banho pra lavar o cabelo (um evento pra qualquer mulher de cabelo crespo. Num frio de 10 graus então). Quando fui levantar… Tudo ficando escuro, uma falta de ar, coração batendo na cabeça, ouvido tampado, eu já não tava mais quase conseguindo ouvir a música, desespero. Minha pressão deve ter baixado com o vapor quente. Eu não conseguia respirar. Pensei em sair correndo pra fora do banheiro pra conseguir respirar, em gritar por ajuda, pensei mil coisas. Aí resolvi sentar na banheira de novo e esperar passar. Nesse momento fiz a respiração em quatro tempos sugerida pela Kemetic Yoga e veio o insight muito nítido na minha cabeça: sabe isso aí que você tá sentindo? É um microcosmo da sua realidade nesse momento. Você tá se sentindo mal, mas ao invés de sentar e esperar passar você se desespera e termina piorando as coisas. Senta. Se acalma. Respira. Tenha paciência com você. Vai passar.

Quando me dei conta disso, chorei de novo. Mas dessa vez de alegria. Realmente eu sou muito ansiosa. E quero que tudo se resolva rápido. Qualquer coisa. Problema, solução, pandemia, conflito, amor, tudo pode ser mais rápido. Acelerado. E isso termina que eu não sinto as coisas direito. Quero pular etapas. Isso me faz mal. Faz mal pras pessoas a minha volta. Eu deixo todo mundo desesperado e acelerado que nem eu. E esse não é o ritmo das pessoas. É o meu. Já discuti com várias pessoas sobre isso. Mas de fato preciso compreender o que é meu e o que é do outro e respeitar esse espaço. Ter paciência comigo e com o outro. Mas principalmente comigo. Eu me exijo muito, me cobro muito e transfiro isso pros outros também. Em tempos de quarentena então, a exigência por produtividade, por projetos mirabolantes e apresentação de resultados tem consumido muita gente.

Esse banho me colocou em contato com algo muito profundo em mim. A necessidade de velocidade e de aprovação. Os outros precisam gostar de mim e demonstrar que gostam de mim. E tem que ser rápido. Isso tudo é muito nocivo. Preciso ter paciência comigo e compreender que não preciso da aprovação de ninguém. Eu preciso me compreender como alguém que já é amada, já é aceita, por mim mesma. Isso é muito clichê, mas é muito verdade.

Quero um amor e uma paciência externa que não vem na proporção que eu espero e termino frustrada, porque minhas expectativas de pessoa otimista são sempre as mais altas possíveis e a queda desse andaime de três metros pode ser fatal. Pensar negativo é ruim. Me recuso. Mas é preciso compreender também que as coisas podem dar errado. E aceitar isso. E tá tudo bem do mesmo jeito. Nem tudo foi feito pra dar certo. E o que é “dar certo”? Deu certo o tanto que tinha pra dar. O tempo que deu pra dar. Ensinou o que tinha pra ensinar. Agradece e deixa fluir. Nem tudo é pra sempre. Nem a vida. Nem a morte.

 

*Joceline Gomes é jornalista, professora de dança, modelo, atriz e fica se enchendo de coisa pra fazer pra evitar ter que pensar em tudo que precisa melhorar em si mesma.

Relacionamentos entre pretos, o negão e o neguinho – uma DR afrocentrada

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Fotografia do ganense Derrick Ofosu Boateng

*Joceline Gomes

Correndo o risco de ser cancelada, fiz uma thread (sequência de posts) no Twitter sobre um assunto polêmico e achei importante ampliar o debate e trazer pra cá. Tudo começou com uma reflexão: o quanto de “errado” estão os homens pretos e o quanto de “idealização” há nas mulheres pretas a ponto de não nos entendermos em nossos relacionamentos? Estou falando aqui de uma realidade heterossexual, que é de onde falo, então, vou continuar minha reflexão partindo desse lugar. Mas isso pode ser aplicado aos relacionamentos homoafetivos também.

Sabemos que somos, homens e mulheres pretos, atravessados por muitas questões que nos impedem de nos relacionarmos de forma saudável em vários aspectos. bell hooks, em Vivendo de Amor, fala sobre a nossa dificuldade histórica de amar e sermos amados e como isso é reflexo de uma trajetória marcada pela escravização, pelo fato de não podermos demonstrar amor publicamente pois isso podia colocar em risco a vida da pessoa amada e a nossa própria. Separados de nossas famílias, não nos restava muita escolha a não ser nos conformar e aprender e a viver sozinhos. O rolê é pesado e bell hooks fala sobre isso melhor do que eu.

As traições, preterimento e ausência de carinho por parte dos homens têm sido um motivo de sofrimento das mulheres pretas. As mulheres pretas, falo por mim, querem uma parceria, e não um filho ou aprendiz. Os homens querem ser compreendidos e respeitados, pois são muito cobrados o tempo todo pela sociedade. Como fazer essa conta fechar sem ficar pesado pra nenhum dos lados? [Aqui estou generalizando pros dois lados, mas sei que “nem todos os homens/mulheres”, ok?]

Estariam as mulheres pretas sendo arrogantes ao dizer que “não querem ensinar nada”, como se já tivessem todas as suas questões resolvidas? Somos nós que estamos ensinando ou estamos apenas querendo as coisas do nosso jeito, jeito esse aprendido nos filmes hollywoodianos? Estariam os homens pretos se negando a cuidar de suas mulheres ao resistir a dar a elas o mínimo de carinho e afeto? Ou eles não entendem essa necessidade por terem sido ensinados a apenas sobreviver, trabalhar e se provar “macho” o tempo todo? Eu não tenho resposta pra nada e estou apenas pensando em todas essas questões depois de conversar com um amigo.

A real é que não é possível acreditarmos que nosso povo é formado “metade por deusas perfeitas e inquestionáveis e a outra metade por monstros violentos e irrecuperáveis”, como uma pessoa comentou na thread. Será que só o masculino é atravessado por contradições e “precisa aprender”? Que “privilégio” é esse dos homens pretos na sociedade, sendo que eles são sempre os “monstros”, “burros”, “imaturos”, etc? Precisamos repensar e desfazer esses estigmas juntos, porque muitas mulheres reforçam esses estereótipos com esse discurso do “não vou ensinar nada pra macho”, coisa que eu já ouvi em muita roda de mulheres, pretas inclusive. Não julgo ninguém, entendo que possa ser cansativo mesmo, mas acredito que não somos também as deusas da sabedoria, as “fadas sensatas” que só acertam e só têm a ensinar e nunca a aprender (ou se adaptar pelo menos). São duas pessoas quebradas se relacionando e torcendo pros cacos não machucarem o outro ou a si mesmos. É uma relação que já começa cheia de desafios. É preciso muita paciência e compreensão, coisa que nenhum dos dois lados está muito disposto a ter, pelo que parece.

A prática da exposição de homens pretos tem se tornado um motivo de trauma e afastamento desses homens do convívio social. Conheço 3 homens pretos que foram “expostos” e guardam sequelas emocionais pesadissimas desses rolês, que prejudicam suas relações futuras, virando uma bola de neve. Não tô passando pano pra ninguém, agressão e estupro, por exemplo, têm que ser punidos mesmo e não é disso que tô falando, vocês sabem muito bem. Mas há casos em que expor não ajuda ou melhora em nada. Continuamos brigando entre si e mostrando pra branquitude nossos pontos fracos, nos enfraquecendo como povo cada dia mais, numa eterna guerra dos sexos sem vencedores. E quando digo sem vencedores, é sem vencedores mesmo, porque esse suposto “benefício” que o homem negro tem com o patriarcado, não é real.

O patriarcado foi criado de, por, para homens brancos, e os homens negros não são sequer considerados “homens” dentro dessa perspectiva. São “monstros”, “pauzões ambulantes”, um objeto, sem opinião ou personalidade. A solidão não é apenas da mulher, mas também do homem negro. É possível ler mais sobre o assunto no texto: Sobre essa tal solidão do homem negro. Estamos ambos na base da pirâmide, pois trata-se de uma pirâmide racial e não de gênero, em que o fato de homens negros serem violentos com mulheres negras não demonstra qualquer tipo de “benefício” trazido pelo patriarcado. Citando Anin Urasse: “violência não é privilégio”. Nunca foi nem nunca será, muito menos dentro do nosso próprio povo.

O negão e o neguinho – homem negro tem humanidade?

Joceline, mas por que você tá falando disso? Porque comecei a me incomodar profundamente com um negócio. Vem comigo. O homem negro só é citado em duas categorias: ou ele é o neguinho ou ele é o negão. E aí vamos a essa conceituação:

  • Neguinho: infantilizado, imbecil, que só faz coisa errada. Quem nunca usou essa expressão pra dizer algo como “aí ó, neguin quebra tudo”, “aff neguin não tem noção”, “quando der merda, neguin vai se arrepender”. Mas Joceline, é só uma expressão. Expressão racista que vocês precisam parar de usar. Eu gosto de constranger quem fala essas coisas perto de mim devolvendo: “branquinho também, né?”. Mas o que quero dizer não é nem sobre a expressão em si, mas como ela faz surgir o estereótipo do “neguinho”, assim, no masculino, lembrando que o homem preto é o responsável por tudo que dá errado nesse mundo. A culpa é dele, afinal, “neguinho é foda”.
  • Negão: homem preto musculoso, alto, de grande porte físico, de pênis avantajado. “Lá vem o negão, cheio de paixão, te catá, te catá, te catá, querendo ganhar todas as meninininhas, nem coroa ele perdoa não…” Lembra dele? Esse homem preto é um pau ambulante. Franz Fanon fala melhor sobre a falta de humanidade dos homens negros quando diz: “quando nos abandonamos ao movimento das imagens, não mais se percebe o preto, mas um membro: o negro foi eclipsado. Virado membro. Ele é pênis” (Pele Negra, Máscaras Brancas – pag 146). O negão é o preto do pau grande pegador. Aquele que fazem piada pra namorada: “caraca, você deve ficar sem andar né? Como você aguenta?” e outros comentários sem noção piores ainda. [Já ouvi de uma jornalista branca da Globo, com homens negros presentes, depois de darmos uma entrevista sobre o Dia da Consciência Negra, a seguinte pergunta: “falar que homem negro tem pau grande é racismo?” Respondi: você perguntaria isso para um homem branco? Pois é…] Os homens negros aceitam esses comentários como um elogio. Porque é isso ou nada, como bem disse Caio Cesar no texto Hiperssexualização e autoestima do Homem Negro.

O homem negro não tem opinião, não tem identidade, não sabe se relacionar, tem muito a aprender, é safado, pegador, “bandido”, “traficante”… ele não é elogiado. Nunca. Por nada nem ninguém. Aí quando chega alguém e fala: mas deve ser bom de cama e ter um pauzão, né? É o único “elogio” que ele vai receber ao longo da vida, e vai se apegar a isso e querer performar isso, mesmo que não tenha. E aliás, o fato de não ter, ou de brochar, ou qualquer coisa que não corresponda a essa performance esperada por mulheres brancas ou pretas é muitas vezes o motivo pra famosa “exposição”, que foi o que aconteceu recentemente com o humorista Yuri Marçal, por exemplo.

Li em algum lugar que não lembro agora que, enquanto os homens brancos querem se “desconstruir”, os homens pretos querem construir uma identidade humana, querem ser capazes de falar com autonomia e independência, querem não ser comparados com homens brancos e nem terem sua masculinidade atrelada ao patriarcado ou ao machismo, pois não são categorias que os contemplam. Eles podem reproduzir, performar dentro dessas categorias, mas são conceitos que não foram criados por e nem para eles. Assim como o modelo de feminilidade das mulheres brancas não contempla as mulheres negras. Os modelos de “masculinidade” e “feminilidade” que tentamos a todo custo performar, mas que não nos cabem, é também algo que traz grande prejuízo pras nossas relações.

A pornografia está para os homens como as comédias românticas hollywoodianas estão para as mulheres. Uma subjetividade baseada em imagens brancas e padrões surreais e inatingíveis de relação.

Entender isso é compreender que somos todos machucados e traumatizados em nossas experiências enquanto pessoas pretas. Precisamos entender que resolver essas questões de baixa autoestima e insegurança, por exemplo, não é um problema “do outro”. É nosso como povo. É de todos nós. Temos energias masculinas e femininas dentro de todos nós. É juntos que precisamos curar e (re)equilibrar essas energias.

Vocês sabiam que os conceitos de “homem” e “mulher” não existiam nas comunidades tradicionais africanas pré-coloniais? África foi reconhecer essa divisão após a colonização europeia. Gênero não é sexo, e a biologia não era mais importante do que a vida em comunidade. Oyèrónkẹ Oyěwùmí explica isso em seu livro “A invenção da mulher”, mas, resumidamente, ela conta que as funções sociais eram estabelecidas a partir da configuração física, da linhagem familiar e das necessidades da comunidade. Por isso era comum encontrar “mulheres” chefes de exército, indo para guerras, e “homens” cuidando das crianças e fazendo tarefas domésticas. E isso não era demérito pra nenhum dos dois, tampouco significava que ela era “homem” ou ele era “mulher”.

Temos em nós hormônios masculinos e femininos. Na natureza, nas plantas, em tudo há as energias masculinas e femininas. Não dá mais pra lutarmos pela emancipação de apenas um lado. Conversar e acolher apenas um grupo. Precisamos de equilíbrio. A responsabilidade pessoal existe, mas quando nos afrocentramos percebemos que “sou porque somos”. Nossas questões pessoais também são coletivas. E vice-versa. Nesse sentido é preciso nos comprometer pessoal e coletivamente com nossos afetos e evoluir juntos como povo. Precisamos falar mais sobre e COM os homens negros a respeito de tudo isso, porque eles não são apenas parte do problema, são parte também da solução. Precisamos urgentemente nos reerguer como povo: homens e mulheres juntos, pra tornar nossas relações mais saudáveis. Afeto, carinho, respeito e compreensão é o mínimo. Saibamos dar e receber.

*Joceline Gomes é uma mulher preta, mulherista africana em diáspora, jornalista e estudiosa das danças afro que sempre se relacionou com homens pretos. Já acreditou que “precisava ensinar homens pretos” e agora acredita que podem crescer e se curar juntos. Isso tem sido libertador e ela quis compartilhar com vocês.

O real, o irreal, o medo, o pânico.

Vinicius Dias*

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Nós seres humanos somos altamente influenciáveis e influenciadores, o jogo entre eu e o outro gera sentimentos desconexos que algumas vezes não conseguimos nem nomear. Vejamos as crianças com medo do escuro, de algum monstro ou de alguma coisa que irá acontecer. Qual o papel do adulto nestes momentos ? Eu não quero dar respostas únicas, mas um dos papéis é acalmar e se mostrar presente como proteção àquela REALIDADE infantil. Com o tempo algumas crianças vão deixando certa realidade e estruturando-se para ser mais inteiro na superação dos desafios.
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Vivemos em um país agressivo, o medo da morte violenta é real para determinados públicos, mas nem todos sentimos desta forma. Isso cabe perfeitamente para estados de Pânico coletivo e sensações de ansiedade generalizada. Neste sentido as grades de condomínios denunciam um público que se antecede ao medo da violência e julga que o externo é o perigo. Geralmente a construção do perigo adquire aspectos particulares e se personifica na imagem do “outro perigoso” que “precisa” ser combativo. Esta ilusão é cada vez mais desbancada quando vemos o envolvimento de figuras do alto escalão dos poderes envolvidos em escândalos criminosos.
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Ampliando esta discussão precisamos pensar que em nosso contexto, ainda temos grupos que lucram com a desgraça social. A sociedade capitalista (e portanto individualista e competitiva) precisa estimular a necessidade na massa em adquirir bens. O mercado também regula nossa fantasia. Prisões enriquecem empresários que fazem quentinhas, pobres auxiliam no pagamento de juros de banqueiros, empresas de segurança se aperfeiçoam em armamentos que controlam corpos periféricos, ônibus levam bem estar aos donos da frota e seus familiares, mas não ao público que usa o serviço na periferia. A base da pirâmide sustenta o pequeno pico.
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Atenção a si, responsabilidade consigo e com sua comunidade, de maneira realista e possível. É o que desejo.

*Vinicius Dias é Psicólogo.

Homem Negro chora sim

Sobre falar de nós em primeira pessoa. Deixar o coração guiar. Exemplos positivos na mídia. Babu Santana e amor entre nós pretos

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Vinicius Dias*

Babu Santana tem mostrado pra diversos homens negros que é possível chorar, ouvir e até se relacionar estrategicamente com os brancos. “Estrategicamente”, pois depois que você tem consciência negra, descobre que as relações interraciais reproduzem partículas da estrutura racista (do mundo) nos espaços privados. As relações são complexas e a gente vê de tudo. É necessário cuidado para além do “pode” e “não pode”.

Mas eu não quero ser técnico. Quero ser coração. Este é o chamamento de Babu Santana pra mim. Babu é um homem negro, gordo, favelado, e não tem os chamados “traços finos” que impuseram a nós como tentativa de nos autorizar a ser um negro dentro do padrão aceitável branco. Babu estaria nos arranjos empoderantes que usamos como malabares para nos salvar e nos acarinhar, como um Soba estaria para uma comunidade do interior Angolano que resiste ao cristianismo imposto em quase toda África. Parece distante nossas comparações com África, mas diante do esfacelamento subjetivo que fizeram com as famílias pretas, tenho em África mananciais de respiro para novas práticas sociais e comunitárias no Brasil. E estão aqui no Brasil aspectos preservados que em África já não existem mais. Tá vendo como a parada é complexa? Mas é assim mesmo, quem acha que Exú é diabo não entendeu nada. Exú é… Complexo!

Não acompanho o BBB, me interesso pelos pequenos vídeos que a galera do Twitter posta. Hoje chorei junto com ele ouvindo “Azul da cor do mar”, de Tim Maia. Outro homem preto que sempre tentam pejorativar sua existência.

Nós, homens negros, sabemos das angústias que passamos calados no canto escuro desde a época do primário, sabemos do horror à polícia de madrugada, sabemos do que é ficar com alguém que você sabe que não é fechamento e sabemos de muitas coisas que nosso corpo denuncia. Não somos santos. Acho que ninguém é! Gostamos de sexo, gostam de sexo com a gente. Estamos aí, no mundão, interagindo. Sendo bons e ruins. Mas temos um imaginário que dificilmente nos colocará no lugar do chefe de família, sensível, inteligente, romântico. Nossas histórias são geralmente contadas por outros e outras que falam mal, nos ridicularizam. Veja na história: Garrincha, Simonal, Netinho, Mussum, Tião Macalé. Quase todos tem uma história que não passa pela sensibilidade e prestígio social. E mesmo quando “lá vem o negão cheio de paixão” na real ele só queria “pegar todas as menininhas”

Volto a dizer: não existe santo nesta história. Mas a repetição de pejorativismo para o homem negro parece nos deixar sem a possibilidade de justificativas e conversas honestas que queiram construir relações menos violentas. Alguns de nós também não tá mais pra conversa. Diante da necessidade do outro/a ter razão, a gente faz aquilo que sabe bem: se recolhe e tenta arrumar motivos pra ser feliz.

Depois de todo este desabafo, Babu me fez chorar várias vezes. Foi lindo ver aquele cara grande que sempre faz papel de bandido nos filmes girando sem rumo e chorando ao som de Tim Maia. Me lembrou de tantos choros engolidos que eu tive, de tanta fraqueza que camuflei fingindo ser forte, me lembrou de tantos “eu te amo” que não falei, me lembrou da dificuldade de receber carinho de alguém e da incapacidade de argumentar alguma coisa soltando um grito.

Me lembrou de tanta confusão no travesseiro, cabeça que girava e tentava me cobrar como ser homem “direito” baseado nos homens brancos. A solidão acompanhado do álcool nas veias, voltando pra casa sozinho enquanto os amigos brancos iam pro motel fuder. Hoje, com um grupo de homens negros, nos esforçamos para morar em exemplos mais positivos do que é ser um homem negro, e Babu Santana nos ajuda de alguma forma. Temos muitos exemplos, mas como não nos foi ensinado, fazemos nosso trabalho de base indo atrás deles, juntos, se ajudando em roda, almoçando junto, nos abraçando, e deixando o corpo girar e as lágrimas cairem quando for preciso…

 

*Vinicius Dias é Psicólogo e aprendeu a chorar.

Corpo Negro em Movimento

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Jô Gomes e Luiz Igba*

A oficina Corpo Negro em Movimento, realizada no último dia 22 de agosto em parceria entre Jô Gomes e Luiz Igba, mobilizou energias e ancestralidades no restaurante africano Simbaz. Um espaço simbólico para este encontro diaspórico África-Brasil, Paraíba-Distrito Federal, masculino-feminino. A complementaridade da troca, dos saberes e fazeres adquiridos em trajetória diferentes, porém, semelhantes, porque dentro da maafa brasileira, possibilitou duas horas de conhecimentos teóricos e práticos acerca desse corpo negro que se coloca em movimento. A dança africana, afro-brasileira, diaspórica, tradicional manifesta uma inquietação e uma resistência ao mesmo tempo em que resgata o prazer de apenas ser o que se é: a dança e o corpo em sua máxima potência.

A intenção da oficina foi a busca de uma melhor e mais ampla comunicação, reestruturação e fortalecimento corporal, entendendo que esses anseios só poderão ser saciados buscando teorias e práticas do continente africano, por ser matriarcal, ancestral e por ser o lugar onde nossa corporeidade está inteiramente ligada, pois foi em África onde tudo foi criado e pensado por nós e para nós.

“Sabemos que a raça humana originou-se na África e que essa raça como já expus em outros trabalhos meus era profundamente pigmentada ou de pele preta: nenhum cientista sério contestaria isso hoje.” – Cheikh Anta Diop (Coleção Pensamento Preto, vol.3).

As danças apresentadas durante a oficina trouxeram dezenas de significados que transitam desde o matriarcado, passando por festejos ritualísticos, o trabalho com o Aiyê (terra – como plantar e colher) e com o omi (água – através de movimentos que representam o banho e pesca, por exemplo), chegando até mesmo às danças africanas urbanas. Trata-se de movimentos corporais que por vezes são potentes e exigem uma maior agilidade e por outras se transformam em movimentos sutis, porém, ambos são geradores de energias circulares que nos fazem sentir toda a totalidade do que somos em sintonia com as forças da natureza, gerando uma reconexão do corpo, seu fortalecimento e melhor comunicação. Tudo isso torna o nosso corpo um receptor e emissor de energia surpreendente.

Como Marimba Ani nos diz, precisamos partir da visão de mundo africana e de como ela funciona:

“O conceito africano do universo é de totalidade espiritual, onde tudo está interrelacionado. Isso só significa que o que é enfatizado não é só espírito, mas conectividade e que nós nos concebemos, ou melhor, vivemos como seres espirituais… praticamente, como seres cósmicos; e com isso eu quero dizer que estamos conectados com a natureza, de tal maneira que é daí que encontramos as nossas definições de força. Então, para nós, ter poder significa ter energia para realizar, para fazer as coisas acontecerem, energizarmos uns aos outros; a relação entre o espírito e a matéria é de conexão, em que a realidade material é entendida como manifestação do espírito. Nada além disso.” – Marimba Ani (Coleção Pensamento Preto, vol.3).

O trabalho de articular danças afro e matriarcado ganhou novos elementos a partir da oficina, pois confirmou a importância da complementaridade e da harmonia entre masculino e feminino – mistura presente na natureza e também na dança. A própria dinâmica da oficina, em que revezamos séries de movimentações, auxiliaram a compreensão de que a dança é uma tecnologia do corpo e que os corpos masculinos e femininos são parte de algo maior, mas que estão nessa trajetória juntos. Homens e mulheres manifestando-se com liberdade de movimento, de corpo. Enquanto todos não estiverem livres, ninguém será livre.

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Quando falamos de matriarcado, não estamos falando de sexo biológico, gênero ou locais pré-estabelecidos, falamos de uma função social, comunitária, desempenhada por alguém com uma capacidade de gerar e nutrir – pessoas, sonhos, projetos, movimentos. A oficina conseguiu mostrar como a soma desses corpos e energias no âmbito micro pode representar a verdadeira emancipação dos corpos e do povo preto num sentido macro. Afinal, um corpo livre, autodominado e autodeterminado é um corpo e um ser indomável por fatores externos.

Tudo contém e está contido no corpo – alma, mente, espírito, o que nomear – tudo é corpo, e um corpo negro contém, para além de todos esses elementos, uma história de sobrevivência atrelada a muita luta. Mas não fomos feitos apenas para a luta. Somos feitos da e para a grandeza. O povo preto foi o primeiro a pisar e pensar essa terra que habitamos. Foi o responsável por criar e desenvolver tudo que conhecemos: arquitetura, engenharia, química, física, biologia, astronomia, matemática e DANÇA. As movimentações amplas, rápidas, sinuosas, circulares, em deslocamento contam uma história de um povo que atravessou crises múltiplas e é atravessado por opressões seculares, mas que mesmo assim não se dissociou dessa grandeza de que é feito.

“Tempos difíceis exigem danças furiosas” diria Alice Walker. No centro de Brasília, coração da falsa democracia, fizemos uma dança não necessariamente furiosa, mas intensa e transbordante. A seca da cidade adoece, mas o corpo que dança não padece completamente, porque dança, porque se transmuta e permite a transcendência. Mesmo corpos tão diferentes e diversos quanto das mulheres participantes se permitiram o desafio de se atirar ao som da percussão. O corpo negro em movimento mobiliza e articula outros corpos, trajetórias, fazeres e saberes.

É possível falar em dança furiosa quando partimos do legítimo ódio instaurado por seculares opressões. Mas não foram elas a força motriz do encontro, nem dessa dança. Um corpo negro que se coloca em movimento leva outros consigo e transforma a energia do espaço e das pessoas em algo poderoso. Poder – essa é a força que move a dança. Acreditamos que todas as participantes sentiram-se mais poderosas ao deixar o espaço, sabendo toda a potência do seu corpo e do seu movimento. Ao final da oficina, já com os corpos bem energizados e trabalhados, fizemos um momento de relaxamento em duplas, permitindo que um(a) tocasse e energizasse o outro corpo, um de cada vez, começando pelos pés até a cabeça. Essa energia trocada e retrabalhada também é fonte de poder. O encerramento foi uma roda de conversa, um momento de partilha, de troca dos conhecimentos aprendidos.

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Nos resta a gratidão a todas que participaram, ao Simbaz por ceder gentilmente essa casa da cultura africana para esse evento, e a Luiz Igba e Jô Gomes por serem esse canal para um encontro diaspórico tão potente. O corpo negro permanece em movimento pelo Brasil, encontrando novas parcerias e se transmutando em outras encruzilhadas. A próxima edição será em João Pessoa, em novembro, reunindo outras danças, outros corpos e outras possibilidades de movimento. Em breve mais informações.

 

*Jô Gomes é dançarina especializada em Danças Afro (tradicionais e urbanas, do continente e da diáspora), jornalista, pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça na Universidade de Brasília (UnB) e é professora de dança em Brasília-DF.

*Luiz Igba é dançarino especializado em Danças africanas, capoeira, percussionista, músico, artista plástico, poeta, ator e estudante de culturas africanas do continente e da diáspora.

Autocuidado e depressão – Emicida, Tássia Reis e a arte de não precisar ser forte o tempo todo

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“Preciso cuidar de mim” – uma frase perdida do Emicida no meio da música AmarElo, a música que foi feita pra 99% das pessoas que a ouviram na terça-feira, dia 25, quando foi lançada. É aquela música motivacional que você ouve naqueles dias ruins, pesados, que você precisa de um gás. É uma música sobre dor, mas, principalmente, sobre superar a dor. Um momento que me dói bastante ouvir é quando ele fala: Hoje Cedo não era um hit, era um pedido de socorro. Hoje Cedo é uma música tão dolorida quanto AmarElo, só que mais. Fazer essa citação é como se ele dissesse: “sabe as músicas fodas que vocês amam? Eu tava sofrendo quando as escrevi. Que bom que tem ajudado vocês.” E aí fica a pergunta: quem cuida do cuidador?

As músicas de Emicida tem salvado a vida de muita gente. Leandro revolucionou o Hip Hop no Brasil, é um exemplo de empreendedorismo, uma inspiração. Mas ele fez uma música inteira sobre estar sofrendo, em estado depressivo mesmo, e falou sobre isso novamente em uma outra música e a gente só percebe porque também sente. A arte sempre foi esse espaço de cura, de exorcizar os fantasmas, mas não foi feita só pra isso.

Criar em tempos de dor é complicado. Mas essa dor é tão compartilhada que a catarse é coletiva. A depressão é uma doença que atinge, já atingiu ou vai atingir grande parte da população em algum momento. Nem artistas estão ilesos (nem padres!). Mas quem se importa? Como diz Emicida: “a plateia só deseja ser feliz (…) Onde a última tendência é depressão com aparência de férias”. O afastamento e o isolamento é um sinal de socorro, não de “me deixem em paz”. É algo que a doença faz com a gente. Nem todo isolamento de um artista vai criar um álbum do Queen. Às vezes é só depressão mesmo.

Ser preto, rapper, da quebrada, homem negro e cantar sobre saúde mental. Ser drag, ser trans, ser travesti e cantar sobre saúde mental. Ser dançarina, negra, da quebrada e estar numa busca por sua saúde mental. Tamo todo mundo no corre, porque identificamos que tá todo mundo no corre. Somos, como artistas, cuidadores de almas. Nossa alma precisa estar forte. Uma pessoa curada cura pessoas. Mas nossa cura, as pessoas dizem, “é a arte”, ou seja, criem e curem-se sozinhos. Vai dançar, vai cantar, vai compor. Nem todo mundo é Adele, que transformou um pé na bunda em 250 grammys. Às vezes a gente só vai chorar e dormir o dia inteiro, rezando pra inspiração vir e o sorriso não se apagar no meio de uma apresentação e alguém perceber a dor que tá sendo ficar em pé.

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Tássia Reis já fez uma música sobre isso também: “Se Avexe Não”. Tem dia que é ruim de vingar/ Tem noite que eu quero morrer/ Eu sei que é difícil aturar/ Mais fácil deixar adoecer/ Mas a gente nem pode optar/ E simplesmente poder padecer/ Já que à noite eu tenho que cantar/ Pra alegrar o povo e entreter/ Só sorrir quando quero chorar/ Isso não foi difícil aprender/ Mas desaprendo pra algo mudar/ E assim eu me fortalecer.

Às mulheres negras não é permitido não ser forte. Você tem que ser forte. É preciso ser forte porque é só isso que podemos ser em meio à morte e encarceramento em massa de nossos homens, em meio ao desrespeito ao nosso próprio corpo e das nossas mulheres. Não temos tempo pra ficar chorando e pensando em depressão ou como sair dela. É preciso ser forte. E aí quando não somos, caímos em outros processos: a culpa da fragilidade. “Poxa eu deveria ter segurado o choro”, “eu não deveria ter conversado sobre isso, pareço fraca agora”, “caraca, ela é minha chefe, deve achar que eu não sou profissional”, “deveria ter ficado calada e seguido em frente, me resolver com isso sozinha”. A solidão da mulher negra não é estar solteira aos 30, é ser casada, com filhos, com netos, e sempre achar que precisa se resolver sozinha, porque os outros são sua responsabilidade mas você não é responsabilidade de ninguém a não se de você mesma.

Por isso Tássia começa a música dizendo pra gente não chorar. Aquele comportamento típico dazamiga que quer te ver bem. Mas ela vai vendo que “poxa, realmente, temos motivos pra chorar né?” E termina dizendo: se quiser chore, se preciso for seja o acalanto do seu coração. Precisamos aprender a lidar com nossas emoções, a administrar nossos conflitos e confusões, porque, principalmente nós negros e pobres, acionamos o modo sobrevivência na infância e não desligamos mais. Quando surge uma crise, a gente não sabe nem o que fazer.

E aí vem Emicida: Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes / Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência / É roubar o pouco de bom que vivi. Não me resuma à sobrevivência. Eu não devo me resumir à minha sobrevivência. “Superação” é quase um rótulo pra todo mundo que tem uma origem não-branca-rica. Eu não quero sobreviver nem superar nada. Quero viver, e viver em plenitude. Rica de saúde mental e criando a partir de um lugar de abundância de criatividade, não de dor. Que essas músicas mostrem que precisamos desses lugares, que a dança recupere os corpos e sentidos. Mas que a arte não sirva apenas para nos salvar da dor, mas também, pra nos conduzir a uma saúde plena, sem monstros a serem exorcizados. Nem nos artistas, nem no público. Ano passado morremos, mas esse ano não morreremos e vamos criar coisas lindas que dizem respeito à nossa saúde, não à nossa doença.

Se você precisa de ajuda, peça. Comunique-se. Você não precisa ser forte o tempo todo. É na crise que você reconhece sua força, porque apenas uma pessoa forte é capaz de reconhecer que precisa de ajuda e pedi-la a pessoas de confiança. Fortaleça-se entre os seus. Admita sua vulnerabilidade e faça as pazes com ela. É daí que virá sua cura. Cuide-se. Você não está só. Nem na dor, nem na cura. Levanta e vai à luta “Pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome”. E se você precisa de inspiração, assista ao clipe de AmarElo. A arte salva.

Jô Gomes é dançarina, professora de Danças Afro, jornalista, pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça e não para de ouvir AmarElo desde ontem.

Protagonistas da nossa história – corpo, cultura negra e apropriação cultural

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Como Beyoncé e dois espetáculos de artistas africanos me mostraram a importância de registrarmos nossa memória cultural

*Joceline Gomes

Corpo, dores e cultura negra em evidência. Esses são os tópicos de três espetáculos que assisti essas últimas semanas: Homecoming, da norte-americana Beyoncé, Tears, do moçambicano Edivaldo Ernesto e Happi, la tristesse du roi, da Cie James Carlès Danse&Co. Ainda impactada por todos resolvi falar sobre como me tocaram de uma forma complementar.

Beyoncé dispensa apresentações, mas Homecoming é algo que precisa ser celebrado em toda a sua potência. A diva máxima do mundo nunca se mostrou tão humana – e tão negra. Passando por várias representações da cultura afro-norte-americana, expondo frases de grandes escritores/as e pensadores/as negros/as, ela reafirmou-se como uma mulher negra que quer fazer a diferença para o seu povo. Assim como Nina Simone, Malcolm X, e outras personalidades citadas ao longo do documentário. Mas, diferentemente de Nina, Beyoncé nunca será, a partir deste momento, invisibilizada. E sabe porquê? Porque ela jogou o jogo do capitalismo. Juntou o dinheiro, poder e influência necessários pro sistema se render aos seus pés e falar: você quer o mundo? Eu te dou. E deu. Talento não lhe falta. Trabalho, esforço, dedicação e inovação permanente também não. Dinheiro muito menos. Nina precisava se apresentar, Nina PRECISAVA do dinheiro, e o sistema, muito esperto, não deu. Afastada de sua arte, privada de sua subsistência, Nina definhou no ostracismo. What happenned Miss Simone? What happenned? Racismo, gente. Quando não mata, enlouquece. Simples assim.

Beyoncé não precisa mais se apresentar, ela escolhe onde, como e com quem. E o mais importante: o porquê. Que mensagens ela quer passar, de que forma, pra qual público. Ela agradeceu o Coachella por ser a primeira negra headliner. AGRADECEU. O deboche e o shady foram de um refinamento que eu gritei. Exaltou as mulheres, os filhos, os jovens, as amizades, a música ao vivo, a cultura negra como fator de mudança, empoderamento, ancestralidade e pertencimento. Beyoncé juntou dinheiro suficiente pra fazer o que quiser. E isso inclui mostrar para uma platéia Lollapaloostica que a cultura negra e as vidas negras importam. E tudo isso com classe, figurinos, cenários e músicas maravilhosas. O Egito é negro, a vida começou na África, e ela fez questão de mostrar isso logo na abertura. First things first. Primeiro as primeiras coisas. Prioridades. Rainha não perde a majestade e esse show jamais será esquecido.

O Movimento Internacional da Dança (MID) é um festival tradicional de Brasília. Traz apresentações de diversos países, oficinas, rodas de conversa, movimenta a cena da dança mesmo. Esse ano ele veio com 55 espetáculos. Cinquenta e cinco! E um número incrível de dois espetáculos protagonizados por artistas africanos. Isso mesmo, dois. Haviam outros/as dançarinos/as negros/as em outros espetáculos (sempre minoria), mas protagonistas, ainda mais africanos, considero que é um número muito pequeno, principalmente quando pensamos que a África tem 54 países. Pensei no que pode estar sendo produzido em tantos locais com tantas culturas diferentes, e porque temos que ver tanta coisa da Europa quando a principal referência corporal do Brasil é africana. Samba, frevo, funk, capoeira, temos bastante coisa pra mostrar, mas sobretudo pra referenciar à Terra-Mãe. Gostaria de ver mais dança contemporânea africana, mais dança fora das referências clássicas. Queria mais. Queria bis. Principalmente depois de ter visto o primeiro espetáculo, Tears.

O artista Edivaldo Ernesto apresentou em seu espetáculo Tears toda a potência do corpo negro num solo de 55 minutos de duração. Cada músculo visível em cada movimento, e não por ser “maromba”, mas por saber mobilizar toda a musculatura para a execução de cada passo. Começamos na penumbra. Total escuridão. Barulho de correntes sendo arrastadas. Luzes laterais se acendem, não há música. Uma respiração compassada e firme do artista dita o ritmo dos movimentos, que lembram luta, dança, resistência, rigidez, raiva, prontidão, tudo ao mesmo tempo. O corpo é jogado ao chão, se arrasta, levanta, joga-se ao chão novamente, sua expressão é de dor, de medo, de vontade de sobreviver. E sobrevive. E entra a música, uma espécie de canto gregoriano. Um corpo masculino negro dançando canto gregoriano. Deboche e shady presentes again! Fumaça. As luzes superiores do palco se acendem. Junto com a fumaça é como se o artista dançasse em meio às nuvens. A música para e sua respiração volta a ditar o ritmo. O corpo negro masculino, esse corpo que é diariamente jogado ao chão, arrastado, derrubado, exterminado estava no centro do palco. Só. Sem música. Apenas sendo. Resistindo. Representatividade máxima.

O terceiro espetáculo a que me referi, Happi, la tristesse du roi contou, por meio da dança e do corpo do francês de origem camaronesa James Carlès, a história real de Happi, um rei africano que negociou a escravidão de seus iguais, incluindo dois de seus familiares. Uma história trágica, que começa com todo o vigor de um corpo nu que luta, que impõe-se e vence, passa pela interação com recursos audiovisuais e toda a pompa que um rei vitorioso merece, e termina com a vergonha mais profunda, em que o rei ora vangloriado enrola-se em panos a fim de não ser visto e de morrer isolado nesta profunda decepção. Se traçarmos um paralelo com o movimento negro de hoje, podemos ver pessoas que vendem seus iguais em troca de likes, dinheiro, status, enfim, fazendo o mesmo percurso que Happi. Reconhecer-se neste local deve ser dolorido, e acho que nunca vi uma cena tão forte simbolicamente como a desse homem a se enrolar em tecidos, curvando-se e embolando-se de vergonha após reconhecer seu feito. Uma cena forte, delicada e profunda pra quem compreende o que ela pode significar. O artista fez questão de colocar uma gravação logo no início do espetáculo explicando que Happi foi um personagem real e contando sua história, pra que não houvesse outra interpretação possível. Não há poesia. É trágico e doloroso. Apenas.

Mais uma vez o corpo negro como instrumento e ferramenta de contar sua própria história, algo que, por mais simples que pareça, nos é negado a todo momento. Os livros didáticos não são escritos por nós. Você conhecia a história de Happi? Você sabe a história de Nzinga? Você sabia que o tango e a rumba foram criados e desenvolvidos por africanos/as?

Quando falo do tango essa é a maior surpresa que as pessoas têm. Pois hoje você não encontra mais uma pessoa negra sequer dançando, que fará contando essa história. Esse é o grande problema da apropriação cultural. Aliás, esse é o problema do combo apropriação cultural + extermínio do povo negro. O resultado é o completo apagamento de um povo e sua cultura, a tal ponto que essa cultura será totalmente realizada por outro povo e não restará mais sequer a imagem daquela cultura sendo manifestada por seu povo original. É ou não é o caso do tango? A Argentina exterminou sua população negra a tal ponto que você não a encontra sequer nas ruas, que fará nas artes ou nos postos de comando. No Brasil, em que se mata 63 homens negros por dia, principalmente nas favelas, é questão de tempo até que o funk não seja mais negro, o samba, o rap… corremos o risco real de daqui a duas ou três gerações falarem que “o preço já foi pago” é um clássico.

Parece absurdo, mas é só lembrar do blues, do jazz, e do choro aqui no Brasil. Quantos artistas negros são destaque nessas manifestações culturais? Quando todos os negros forem exterminados não terá ninguém pra dizer o que era cultura negra. Quando a gente se manifesta e grita e pede respeito à memória dos artistas negros, é disso que estamos falando.

O que Beyoncé, Edivaldo Ernesto e James Carlès fizeram foi lembrar que esse corpo negro, desse artista negro, falando sobre cultura negra existe, resiste, e precisa ser registrado. Porque as próximas gerações precisam saber que estivemos aqui e que produzimos a cultura mais rica que já existiu. Afinal, se tirarmos a cultura negra do mundo vai sobrar o quê? Respeita quem veio antes. Respeita quem trouxe essa cultura até aqui. Respeita!

*Joceline Gomes é dançarina, jornalista, e quer deixar registrada a enorme contribuição da cultura e dos artistas negros e negras para o mundo.

Sobre matriarcado, determinação, corpo e mexer a raba

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Foto de oficina com Taísa Machado, chefona do Afrofunk Rio, que trabalha empoderamento feminino por meio do funk (Blog Mulherias/Uol)

 

*Joceline Gomes

Pensa aqui comigo: a mulher carrega em si esse poder de gerar e nutrir uma vida. Ainda que não tenha filhos, ela tem essa capacidade. E se ela pode gerar uma vida, ela pode gerar qualquer coisa. Afinal, o que há de mais poderoso do que a vida? A mulher carrega em si o que uma vida precisa pra ser criada e mantida. Ela gera em seu ventre e alimenta em seu seio. Gerar e nutrir. Tudo que precisamos para ser quem quisermos, fazer o que quisermos, está dentro de nós.

O matriarcado é o sistema político, filosófico e prático que reconhece isso e coloca esses princípios em ação. A mulher é respeitada, valorizada, reverenciada por sua capacidade de gerar e nutrir uma vida. Mas os homens não são tratados como desnecessários ou inimigos. Afinal, eles participam desse processo de gerar uma vida. Cada um tem suas habilidades e contribuições reconhecidas. Os homens não se sentem menos homens por respeitar e valorizar aquelas que lhe deram a vida ou darão a vida a outras pessoas. As mulheres não se sentem menos mulheres por reconhecerem aqueles que têm a capacidade de protege-las, cuida-las e de seus filhos.

É preciso reconhecer e respeitar as diferenças. Os direitos podem ser iguais, mas nós, definitivamente, não somos. Homens e mulheres não possuem a mesma força física, o mesmo tônus muscular, a mesma predisposição pra esta ou aquela doença, a mesma velocidade e capacidade de explosão em uma corrida ou uma luta. Sob as mesmas condições de treino, intensidade, velocidade e peso, um homem ainda vai se destacar. Mas numa situação de pressão extrema em que a vida de uma pessoa ou grupo de pessoas esteja em risco, sabemos que uma mulher pode até dobrar sua força e capacidade de explosão – vide caso de Silmara Cristina Silva de Morais, que salvou 50 crianças do ataque à escola em Suzano-SP, ou de Maria Jerônimo Campos, mãe que, sem saber nadar, salvou o filho que caiu em um poço. Você não daria tudo de si pra salvar aquilo que você mesma gerou?

Você que, assim como eu, não tem filhos biológicos, não identifica seu potencial criativo, seus projetos e sonhos como filhos? Não estou banalizando filhos como as “mães de pet”, galera, calma. Estou dizendo que, reforçando o que disse no primeiro parágrafo, uma pessoa capaz de gerar uma vida não seria capaz de gerar qualquer coisa? O que quer que você, mulher, ponha sua energia, sua vontade mais profunda e verdadeira, aquilo não vai absorver toda essa energia que poderia vir a ser uma outra vida? Em que você tem investido essa energia?

Matriarcas não são apenas aquelas que possuem filhos biológicos ou adotivos. Matriarcas geram e nutrem uma comunidade, local, nacional ou mesmo internacional. Yalorixás que nunca tiveram filhos biológicos, mas administram e cuidam do terreiro e de todos os seus filhos de santo como se assim fossem; aquela tia que não tem filhos mas criou você e toda a galera da sua rua; aquela irmã mais velha que criou todos os irmãos e agora é a referência dos sobrinhos; aquela mulher que realiza há anos um projeto social que resgata a autoestima da juventude negra, periférica, e que já profissionalizou e salvou a vida de pelo menos três gerações… todas essas mulheres são matriarcas, e elas podem não ter filhos que saíram de dentro delas, mas foram elas que geraram e nutriram os sonhos que alimentaram essas pessoas. O matriarcado reconhece e respeita as mulheres que geram filhos, sonhos, projetos, e muitas outras coisas. E todo esse poder de vida está em seu ventre, em seu seio, em você, mulher.

As movimentações de quadril, as contrações da musculatura genital (pompoarismo) tão reprimidas hoje, são movimentações de cura, autocura, autoconhecimento, que eram usadas para prevenir doenças, dores, cólicas, há movimentações que aumentam a fertilidade, diminuem, e podem até ser abortivas. Tudo no seu próprio corpo, no seu próprio ventre. Nos desligamos dessa capacidade de nos curar sozinhas, porque em algum momento o ocidente nos disse que precisamos pagar pelo remédio, pelo conhecimento do nosso próprio corpo, pela cura que não sabemos mais qual é e precisamos de outra pessoa pra nos dizer. O corpo tem a capacidade de se curar sozinho, se estiver sob as condições adequadas. Alimentação, sono, estresse emocional, tudo isso interfere, obviamente. Mas o seu ventre, seu quadril, esse está bem acessível e você pode começar a fazer algo a respeito agora mesmo.

Não desperdice esse poder que há latente dentro de você.  Movimente-se! Abra suas pernas, dobre seus joelhos, fique na base, vá em direção ao chão, fique de cócoras, quique, rebole, contraia e relaxa sua musculatura pélvica. Ou, no português contemporâneo: rebole a sua raba! Pisque a ppk! Não fique com vergonha de cuidar de seu próprio corpo, de readquirir o poder inato que você tem sobre ele. Esse corpo é seu! Conheça-o! Ame-o! Tome posse! Saiba do que você é feita! Se olhe no espelho! Dance!

Pesquiso e dou palestras/aulas sobre matriarcado e danças afro e muitas pessoas devem chegar para elas sem saber qual a relação possível. Para além do fato de serem as mulheres as principais transmissoras das informações sobre essa dança, sobretudo por meio da tradição oral, há todo esse poder no corpo feminino que uma mulher compreende bem melhor. E aqui não quero desrespeitar nenhuma mulher trans, pois não falo apenas de biologia, mas principalmente de uma energia feminina que nos habita. O matriarcado respeita e acolhe todas as pessoas, como disse anteriormente.

O quadril, o ventre, guarda, tanto em homens quanto em mulheres, esse poder de vida. Há um potencial de vida dentro de você. Direcione esse potencial para o que te move. Descubra o que te move. Mova-se. E sempre que puder lembre-se que não há nada de errado em mexer o quadril. Pra quem diz “mexa o cérebro ao invés de mexer a raba”, aqui vão algumas informações:

1) mexer o cérebro não é saudável. Ele foi feito pra ficar bem paradinho no lugar dele. Estude anatomia;

2) “mexer a raba” (qualquer parte do corpo, na verdade) exige uma coordenação motora que nem todas as pessoas têm a consciência de que possuem. Percebam que eu não disse “tem gente que não tem”, eu disse sobre não ter consciência, pois até pra andar você precisa ter coordenação motora. Ou você nunca reparou que quando você anda balança o braço contrário da perna? Dançar coloca essa coordenação pra trabalhar de forma consciente. Talvez daí venha o problema: autoconsciência. Quando falamos que dança é autoconhecimento, falamos disso, de conhecer o próprio corpo e ter consciência do que ele é capaz de fazer. Então, voltando ao assunto de mexer a raba, rebolar ao som de uma música exige uma consciência da própria coordenação motora que nem todo mundo tem (mas que pode desenvolver, se quiser e treinar);

3) se você não mexe a raba como gostaria, ou não sabe, não vem desmexer a raba de quem mexe. Recalque é um conceito psicológico para além da gíria do funk. Lide com seu recalque e entre numa aula de dança. Tamo aí na atividade caso queira indicações. 😉

É, Brasil, parece que eu consegui escrever um texto que começa com matriarcado e termina com um jabá sobre mexer a raba. Ninguém é uma coisa só. Somos jornalistas, dançarinas, matriarcas, rebolantes, professoras de dança, e muito mais. Só não somos limitadas. Mexa-se! Afinal, o mundo está em movimento. E o movimento é sexy.

*Joceline Gomes é jornalista e professora de dança. Dá aulas de Danças Afro, Funk e Dancehall em Brasília-DF. É pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça pela Universidade de Brasília e pós-graduanda em Dança e Consciência Corporal pela Estácio. Pesquisa História Geral da África e Matriarcado Africano no Instituto Hoju (RJ), onde tem desenvolvido a pesquisa sobre Matriarcado e Danças Afro.

 

**Texto originalmente publicado na coluna de Joceline Gomes na Rádio Eixo.