Projeto Saravá

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Executado pela fotógrafa Thamires Cursino (Festivais Satélite 061, Elemento em Movimento, Mamulengo de RAPente, Circulação quarteto Capivara). O projeto Saravá visa mostrar, através da fotografia, a autenticidade e a beleza que os cultos de matriz africana possuem, com todas suas diversidades e características marcantes. A ideia deste trabalho é levar um olhar de dentro dos cultos afro-brasileiros para a população.

Thamires é apaixonada pela arte da fotografia, gosta de fotografar cultos de matriz africana, cultura popular e espetáculos.

Em conversa com o FP, Thamires diz que sentiu ‘uma estrema necessidade de mostrar um olhar diferenciado para os cultos de matriz africana. Sou umbandista e sei o como é ter olhares tortos para nossas guias no meio da ruas. Queria mostrar a beleza, o colorido e principalmente a paixão dos seus filhos. O povo do santo tem uma dedicação e um amor pelo que faz que transborda, levamos os ensinamentos do terreiro para a vida. É isso que tento mostrar com minha fotografia.’

Insta: Thamíres Cursino ou na página da Agência Uboro: http://agenciauboro.wixsite.com/uboro

Veja mais fotos do Projeto Saravá na nossa Página no Facebook

 

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Um papo nada Singelo

O rapper e ativista cultural Singelo MC solta o verbo sobre cultura, juventude, periferia, rap e política

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Vinicius Dias

Rafael Félix poderia ser só mais um jovem morador de Samambaia, quebrada do DF, mas não, ele resolveu ser diferente e fazer a diferença. Rapper, ativista cultural, estudante de psicologia e recentemente eleito conselheiro regional de Cultura por Samambaia, ele não perde tempo e não fica parado.  Normalmente visto por aí com um sorriso negro no rosto preto, Rafael é mais conhecido pelo nome Singelo MC, e tá ainda mais sorridente esses dias, pois está indo em pra Batalha Mic Master Brasil. O evento vai premiar com um carro zero o mais sinistro no improviso. E a gente tá na torcida desse mano, que nos concedeu uma entrevista exclusiva e soltou o verbo com sua visão política apurada:

1 – Quando você começou a rimar e quais foram/são  suas influências?
Rimo desde criança, fazia melôs pros meus amigos e inventava paródia das músicas. Considero que já era rimador, mas não havia assumido essa identidade. Nas Batalhas de MC, rimo desde junho de 2012. A primeira referência de rima, mesmo sendo novo (tenho 23 anos) foi o álbum “Holocausto urbano” dos Racionais MCs, além dos outros clássicos CD “O beck e o contracheque” do Tropa de Elite e “A ocasião faz o ladrão” do Cirurgia Moral. Considero que fui privilegiado na forma como meu interesse pelos que rappers e MCs poderiam fazer com as palavras. No Freestyle, minhas referências são caras que fazem a rima pura e simples como Vinição, Vuks e Magú de BH, Daniel Garnet de SP. No Rap gosto de sons autênticos, com mensagens necessárias, sadias e boa musicalidade como o que vejo no Quadrilha Intelectual, Branco P9, Valete, KRS-One. Bebo muito também em outros estilos brasileiros, como o samba, a MPB, o funk carioca. Enfim, música boa, sem rótulos!

2 – Fala um pouco da cena Rap aqui em Brasília…
Fomos pioneiros num estilo de Rap que nos caracterizava bastante, o Gangsta. Essa identidade é importante. Acredito que o Rap distritofederalense anda carente de referências. Infelizmente, a grande maioria desconhece seu passado, é confuso sobre o seu presente e incapaz de construir o futuro. Falta uma pá de coisa, como responsabilidade, posição, postura. Como diz um amigo meu, Henrique QI: “quem vai samplear nóis?”, quem vai substituir nossos generais, como GOG e Markão Aborígene? Quem tá na disposição de pegar o bastão? O mercado fez a gente se acostumar com mingau, sendo que a lide do Hip Hop exige sustança! Sempre nivelo minha gente por cima e acredito que podemos ser mais criativos, autênticos, originais. Sermos nós mesmos. Como ponto positivo, a expansão da mídia está fazendo que nóis se aproprie das produções musicais, audiovisuais e nós por nós sempre é bom.

3 – Como ta a expectativa pro evento que você foi convocado em São Paulo. Fala um pouco do evento pra nós…
Na verdade, não fui convocado, tive que passar por umas pedreiras aqui na seletiva, que foi regada a muitas polêmicas. Na eliminatória, fui classificado pela Batalha da Santinha e consegui vencer o Diogo Loko, o Nauí, o DeJAH e o Marinho. Alguns falam que a parada foi garfada, mas tudo que envolve dinheiro e bens gera esse tipo de polêmica, tanto que rolou a mesma coisa nos outros estados. Ainda bem que sou vacinado contra esse tipo de situação. Em 2013, quando fui campeão do Calango Pensante, no aniversário de Brasília, falaram a mesma coisa em relação a uma batalha minha contra o Biro-Biro. Não respondi a nenhum dos críticos, pois acho que os resultados e desempenho falam por si. Desejo o bem de todos os críticos, mesmo que eles quase tenham me feito desanimar da parada…
Enfim, o evento é o Mic Master Brasil, uma batalha de MCs idealizada pela Double G, que premiará seu campeão com um carro 0 km, um Hyundai HB-20. Tô me sentindo seguro e preparado, com o apoio da galera do DF, pode pá que vai vir coisa boa pra nois… Vou em nome de cada scratch, flow, bomb e footwork daqui.

Singelo MC emocionado ao ganhar a eliminatória que garantiu sua vaga no Mic Master Brasil - Batalha de MC que acontecerá em São Paulo

Singelo MC emocionado ao ganhar a eliminatória que garantiu sua vaga no Mic Master Brasil – Batalha de MC que acontecerá em São Paulo

4 – Como tu ta vendo o cenário atual politico no Brasil?
A palavra é instabilidade. Nossa democracia é muito nova e suscetíveis a ataques como a ocupação do cargo de presidente pelo senhor Michel Temer. Precisamos botar os pingos nos is, não tem a ver com defender partido X ou Y, nem em ser de esquerda ou de direita, tem a ver com, minimamente preservar a democracia. Nossa gente ainda tá comendo muito kaô da mídia corporativa, elegendo os inimigos errados. Feliz por ser convidado pra festa de gala desse pseudoprogressismo, se esquecendo que será banquete ou trabalhará na copa, como de costume. Não tá pela ordem. E vários do Hip Hop não estão se posicionando diante desse circo… os mornos. Cara, temos que aprender de novo a fazer as críticas. Estamos tão acostumados a criticar todo governo e todo político no automático, que esquecemos de ver os avanços e queremos descartar todo o pouco que foi conquistado, o que nos fazer ideias pouco sensatas como a de ficar derrubando os políticos um por um, até a eternidade. Não seria mais simples ruir o sistema ou preparar nossa gente pra se eleger? Quem tá afim de ser deputado distrital? Ou melhor, o que faz um deputado distrital? Vamos começar pela base… Qual é o nome do administrador sua região administrativa? É necessário voltar ao trabalho de base, deu certo uma vez e pode dar de novo, ou melhor, tem que dar novo!!! A democracia pede socorro!

5 – Politica e rap. Tem alguma ligação ?
Totalmente. Não acredito que exista um Rap sério que não tenha alguma ligação com política. O Rap se originou pra dar voz a quem não tem e a cuidar de quem não é cuidado. Quando Public Enemy canta “Fight the power”, não é apenas o Chuck-D, Flavor Fav e o Terminator X que mandam a mensagem, é o gueto norte-americano que canta, é os cerca de 10% da população negra, os latinos que se identificam com a parada e talvez, quem sabe, até os “burgueses sensatos”, entende? Eles são porta-vozes, e isso é muito político. Quando Pepeu canta “Nomes de Meninas”, ele cria um som que embala a quebrada, faz todo mundo cantar junto, ou seja, de um modo DIRETO ele embala a socialização dos bailes, ele cuida do nosso bem-estar, nos diverte de um modo saudável. Você consegue perceber o quanto isso é político? Os cara pensa que política é só criticar o governo, falar de problemas sociais. Às vezes é fazer um som romântico e tirar a mulher desse lugar de objetificação que ela foi colocado ou até mesmo fazer um bom trap, que resgate valores perdidos e promova a comunhão na comunidade. Enfim, pensamento aberto nessas ideia aí.

6 – Quais são os trampos pro futuro? A rapaziada pode esperar alguma coisa aí? Algum sonho?
Tenho um livro de poemas pela metade, não sei se um dia se tornará concreto. Tenho um EP engatilhado e um profundo desejo de lançar um CD, que inclusive estava sendo gestado, mas tive de repensar por incoerências políticas da minha parte. Meu sonho é virar tipo um pensador de culturas urbanas, mostrar o quanto elas podem fazer bem pras pessoas e revolucionar corações, quando bem orientadas. Idealista nato! (risos)

7 – Você participa de batalhas de poesia, os slams. Essa forma de mandar a ideia tem alguma ligação com tua forma de criar letras de rap ou é uma outra forma de criação?
Cara, eu participei apenas uma vez e de vez em quando mando alguns poemas meus. Essa forma não tem muito a ver com minha forma de criar letras não, enxergo que é outra plataforma. A base do Rap limita sua possibilidades e o silêncio da declamação de poesias deixa as possibilidades infinitas, então são paradas diferentes.

8 – Improviso ou letra escrita ?
Os dois! Mas acho que sou melhor no improviso, é o que a rapa diz e eu abraço! (risos)

9 – Todo mundo fala que o Rap de Brasília é diferenciado, tem uma pegada mais gangsta. Eu tenho a impressão que uma galera nova ta desconstruindo isso e dando uma nova cara no rap do DF, assim como em outros lugares do Brasil também. Você percebe isso também?
Percebo e tenho ressalvas. Vou chover no molhado. Sou muito saudosista, cresci ouvindo os tapes de flashback do meu pai, então reitero a crítica: nos falta reverência e referência. Deixamos nossos ícones da arte brasileira serem esquecidos ou parcialmente lembrados. Assim como nosso grande Mestre Bimba morreu à míngua lá em Goiânia, vejo muitos ícones nossos aqui passando mó veneno, sem nem ao menos serem lembrados. Isso é falta de reverência. A outra questão é que o Hip Hop não começou ontem, ele tem uma história que remonta lá na Jamaica colonizada pela Inglaterra, então, meu, se você quiser dar continuidade na história, você tem que conhecê-la. Fico de cara, quando troco ideia com os dinossauro do Hip Hop, os cara sabe tudo! Sabem detalhes da vida do Nelson Triunfo, Ghetto Brothers, Malcom X, Paulo Freire. Nós, os girinos, estamos sem referências e não nos preocupamos com isso. Temos que considerar que a educação política e musical dos cara foi diferente e acredito que, assim como nos E.U.A., essa educação, na época, foi uma questão de sobrevivência, de auto-estima. Hoje isso não é tão forte. É mil fita, nêgo.

10 – O mic ta aberto…é seu…
Assassinem o “eu” pra que o “nós” possa ressurgir. Cuidem das suas famílias, seus amigos, sua cidade e seu povo.  Mantenha sua espiritualidade forte e intocável. Tenha propósitos em tudo. Dê o seu melhor. Manifeste seus talentos. Não sejam humildes demais. Sejam respeitosos sobretudo com os desrespeitosos. Imponham limites, mantenham a classe. Sejam sempre fieis e honestos. Não se iludam. Não comam qualquer caô. Questione os inquestionáveis. Estranhe tudo. Mas faça tudo isso enquanto aproveita a vida. Sejam felizes! Em síntese, como diria Spike Lee: “Faça a coisa certa!”.

Marcha das Flores e a Estátua da Justiça

Esqueça o que você leu na imprensa. Foi isso que aconteceu.

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Da Redação (ou seja, tudo nosso)

Brasília, 29/05/2016.

Um protesto é feito por coletivos em solidariedade ao caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro. A banda percussiva Batalá, com formação exclusiva feminina, rufa os tambores e dá o tom através de seu toque do que virá. Coisa de mulher: força, garra, determinação! Ao final da apresentação, Maria Paula Andrade, atriz e apresentadora, faz o chamamento e alerta que aquele encontro é apartidário e não governamental. Importante o alerta de Maria de Paula porque os oportunistas políticos de plantão sempre estão a rondar. Ela recita uma poesia de improviso e abre a contagem regressiva, começando do numeral trinta e terminando em: nenhum! Nunca mais! O coro é uma coisa única e muito emociona. Mulheres e homens choram, se abraçam, se dão as mãos, lembrando do quão pavorosa deve ser a imagem daqueles trinta homens que pacientemente esperaram sua vez de violar o corpo de uma adolescente. A marcha dá início! São cerca de 3.000 pessoas, maioria mulheres!

Seguem pela Esplanada dos Ministérios com gritos de guerra sobre questões do movimento de mulheres: o corpo, o direito a livre expressão, o racismo que impacta crucialmente as mulheres negras, a violência, o combate à cultura do estupro, o machismo. Em alguns momentos alertam para a situação do país também, com um Congresso e um Judiciário que não representa a maioria da população. Nada mais justo em um governo que suprimiu a Secretaria de Políticas para as Mulheres a uma instância menor no organograma atual. São momentos emocionantes. Homens acompanham a passeata com poucos sorrisos. Parece um momento de reflexão de seus lugares ali e na história social do patriarcado.

Chegamos ao prédio do Supremo Tribunal Federal. Todo cercado de grades isolando a estátua denominada “A Justiça”. Diferente dos vários símbolos que representam a justiça em âmbito internacional, a estátua Justiça em frente a um dos prédios mais importantes na estrutura de poder do Brasil não tem a balança que significa a equidade no julgar. As grades que cercam são por demais simbólicas, querem dizer: o acesso à justiça é difícil, vocês deverão ultrapassar barreiras caso queiram acessa-la. É o que faz uma das manifestantes, que pula as grades, pega algumas flores jogadas dentro do cerco pelas demais colegas e começa a montar um buquê. Se direciona à “justiça do Brasil”, aquela que tem uma venda nos olhos e uma espada nas mãos, que representa a força, a coragem, a ordem e a regra necessárias para impor o Direito.

A mulher caminha forte e segura. Os seguranças vem de encontro a ela pra proteger a justiça. Há uma pequena negociação. O corporal da mulher deixa claro que ela quer concretizar o ato simbólico por suas companheira sem acesso, ela quer colocar o buquê, colhido com flores jogadas ao chão que não chegaram à justiça por conta da longa distância entre elas (poética e literal). A segurança é intransigente. A mulher é determinada. Usam spray de pimenta contra ela. Começam gritos e muita indignação. A mulherada balança as grades, empurra, arrasta, derruba. A polícia atira spray de pimenta contra as manifestantes. As mulheres da linha de frente voltam esfregando os olhos e abrindo caminho pras próximas que estão por vir. Avança o exército feminino. Os seguranças recuam, fecham um círculo em volta da justiça, de mãos dadas e de costas para a escultura. Todas começam a atirar as flores, que estavam ao chão, na própria estátua. O que era pra ser um depósito simbólico, aos seus pés, torna-se uma chuva de flores: algumas caem no colo da justiça, algumas no chão, outras nos seguranças… A estátua fica cheia de flores, além de alguns cartazes na base, com dizeres: “Mexeu com uma, mexeu com todas”, “Pelo fim da cultura do estupro”, entre outros.

É uma visão por demais simbólica do Brasil. Um protesto que começou porque faltou proteção a uma mulher termina agredindo outras mulheres para defender uma estátua. Semanas antes, o ministro da Educação recebeu um ator pornô que admitiu, em rede nacional (uma concessão pública, portanto) ter estuprado uma mulher. Ali próximo se reúnem políticos da espécie mais misógena que se pode ter notícia, como o deputado Jair Bolsonaro, que se dirigiu à deputada Maria do Rosário dizendo: “Eu não vou estuprar você porque você não merece”. Tudo ali, sendo representado de uma maneira muito fiel: o povo querendo depositar flores na estátua e cerca de 10 seguranças protegendo um bloco de cimento maciço. Uma menina de 16 anos foi estuprada por 33 homens e não foi protegida com toda atenção que era dada à estátua Justiça. A polícia fazendo a segurança… de quem mesmo?

A estátua Justiça
Feita pelo artista mineiro Alfredo Ceschiatti, a estátua mede 3,3 de altura e 1,48 de largura. É uma mulher sentada e foi feita em 1961. Diferentemente das outras representações da Justiça, que carregam uma balança simbolizando a igualdade do pesar da decisão, a equidade e o nivelamento jurídico, a obra brasileira carrega em suas mãos apenas a espada, que significa o rigor nas decisões daquele poder. Foi esculpida em bloco de granito maciço. A simbologia dessa escultura tem origem na deusa romana Justiça, que corresponde à grega Dice, filha de Zeus com Têmis, a guardiã dos juramentos dos homens.

Hoje, ela, que era coadjuvante, passou a ser o centro das atenções e cuidados. Nosso foco era simples: uma mulher ia depositar flores aos seus pés, simbolizando o enterro da justiça, dessa justiça falida, que está de fato cega para as necessidades de seu povo e que além de julgar mal, participa de um golpe contra a nação. Mas não, não podíamos fazer isso. Muito simbólico. Muito pesado. Quiseram humilhar a mulher que levava as flores. Mas nós já estávamos protestando contra a violência contra uma mulher, não poderíamos assistir paradas a mais uma violência contra outra mulher. Sexo frágil? Aqui não. Todos os dias enfrentamos medos diversos, só do caminho de casa até o ponto de ônibus. Não vamos nos limitar a uma grade. Passamos por cima de diferenças salariais, desigualdades no tratamento, falta de respeito diversas, racismo, hipersexualização, entre outros obstáculos. Não vamos passar por uma grade? Por uma estátua? De frágil, aqui, só tem o estereótipo. Ou, como dizia a ciranda que foi feita em torno da estátua: “Ô seu machista, cê pode crer, a mulherada não tem medo de você!”.

Masculinidade e Cultura do Estupro

estupro

*Vinicius Dias

Na terça-feira, dia 24/5, um vídeo é compartilhado no WhatsApp e começa a viralizar. Trata-se de um estupro coletivo executado por 30 homens onde a vítima era uma menina de 17 anos. Rapidamente a notícia viralizou em diversas mídias sociais. Numa lógica doente de disseminação do horror, milhares de “inocentes” neste momento veem o vídeo e compartilham com mais curiosos. Tão criminosos quanto, vulnerabilizam mais a vítima, mostrando mais seu corpo, violentando mais sua privacidade. O show de horrores não para por aí. Nos perfis do Facebook, um monte de homens justificam o ato, colocando a responsabilidade na vítima: “Ela estava bêbada”, “também, andando na favela com aquelas pessoas”, “usava roupa curta”… É uma sociedade muito adoentada e machista. Por falar em machismo, gostaria de direcionar este texto a você, macho. Porque deste assunto eu entendo, e você sabe do que estou falando.

Nasci e me criei em uma família matriarcal. Naquela lógica antiga, que homens trabalham e mulheres cuidam da casa. Cresci assimilando o que eu via como certo e sem nenhum questionamento. Cheguei à adolescência e percebi que todos os meus tios tinham amantes, e aquilo era um segredo pra mim, pois eu, de alguma forma, comecei a entender o código inerente que circula entre nós, homens. Ali, sem ninguém me pedir, eu mantinha um segredo que julgava ser importante na proteção de meus tios. Percebi mais tarde que a família toda sabia das amantes, e inclusive que alguns tios tiveram filhos com estas mulheres que começaram a frequentar nossa casa com a alcunha de “primos”. Todos sabiam, mas ninguém problematizava. E aquilo começou a me causar um mal estar terrível, mas eu já estava numa de trabalhar o dia inteiro, estudar a noite e chegar bem tarde na terra longínqua de Santa Cruz (Zona Oeste do Rio, mesmo território em que esta tragédia aconteceu), e isso acabava me deixando mais insensível com aquela dinâmica autorizada. Mas nos finais de semana de almoço coletivo familiar, eu e meus tios sempre arrumávamos um canto pra falar delas, de forma muito preconceituosa. Queria questionar, mas me sentia acuado, pois uma das “verdades” que fomos educados era a de que deveríamos respeitar os mais velhos. Sem nenhum senso crítico, a gente crescia sem problematizar o que era respeito e o que era submissão.

Essa representação social da mulher foi crescendo comigo. Nas conversas de bares eu sei o que falam de vocês, mulheres. No banheiro da balada, eu sei o que pensam de vocês. Quem sou eu pra dizer que sou um homem feminista. Aprendi com uma mulher que não sou digno deste termo. Minha mente não funciona como uma mulher, e feminismo, assim como outros movimentos de mulheres, são frutos da forma de funcionamento de mulheres. E eu não sou mulher. Parece simplista dizer isso, mas é importante pra alertar alguns manos que, não satisfeitos com a estrutura patriarcal que nos oferece privilégios, proteção e autorização em sermos homens, ainda querem papel de protagonismo nos movimentos de mulheres também. Acho super da hora sermos parceiros, mas nosso lugar na verdade é onde as mulheres não conseguem sacar o machismo no seu mais alto grau de manifestação: nos churrascos da vida, no final da partida de futebol, no jogo de sueca… você sabe que eu sei da autorização que eu te dou e você me dá em olhar pra aquela mulher e julga-la com as palavras mais sórdidas do vocabulário humano. Você sabe que eu sei que quando elas chegam nos travestimos de educados, românticos, generosos, mas porra nenhuma, somos quem somos, e é preciso desconstruir essa porra! O dia a dia das nossas relações está cheio de atitudes que nos possibilitam e autorizam a sermos machistas (bem como racistas).

Tenho acompanhado a discussão sobre a produção do funk atual. As opiniões são bem diversas: de um lado uma galera que critica, que fala até que não é música. De outro lado, uma galera que defende, que apoia, mas que quando é tocado o tema “pornografia” no funk, sinto um certo cuidado em não “bater forte” nos irmãozinhos porque a gente tá ligado que, como nós, são a classe sofredora e são aliados do que a gente mais quer: subir na vida, dar condições melhores às nossas famílias. É preciso sermos mais realistas, manos. O que autoriza uma música como “Baile de Favela” estourar nas rádios e boates? O que autoriza uma música falar que a novinha – termo com cunho pedófilo – quica, rebola e senta? O que autoriza é a estrutura machista do nosso mundo! A mesma que autoriza 30 homens estuprarem uma menina e divulgar o ato em redes sociais, e ainda um deles, alertado pra retirar o conteúdo que ia dar merda, se sentir tranquilo e retrucar “Caiu na rede, pô, deixa rolar kkkk”.

Sou maior solidário na luta das irmãs, mas meu lugar de solidariedade é entre esses que, como Michel, se sentiu autorizado a colocar seu machismo em ato, vulnerabilizando ainda mais uma adolescente estuprada por 30 homens. Eu ando por estes espaços, eu sei do que estou falando. Há muito tempo recebo a autorização de ter amantes enquanto cobro a virgindade das minhas companheiras. Escrevo essas linhas com certa vergonha, mas imagino que vergonhoso deve ser a invasão em ser chamado de gostoso na rua, passar por alguém e ao olhar pra trás perceber que você está sendo escoltado, receber “piadas” sobre nosso decote. Você não consegue se ver nestas ações né? Elas sim!

Então, para além dessas linhas, é necessário ação! E não é na linha de frente da marcha das mulheres, porque a marcha é auto explicativa: é de mulheres! Mas posso ir onde o machismo se camufla, e sei dos caminhos. Hoje é feriado, e as distribuidoras de bebidas estão cheias de homens se entorpecendo. Lá estão eles, meu alvo! É preciso ter coragem, alguns são agressivos. Mas tem outros ambientes em que a mistura etílica não é compartilhada, dando um caráter mais tranquilo à natureza “macha”, as universidades, mas lá são muito espertos e intelectualizados. É possível um ambiente mais humilde, aqui perto de casa, as igrejas. Mas por lá, eles tem justificativas bíblicas que colocam o homem em uma posição de superioridade. Assim, eu percebo que a autorização está em todos os espaços, no imaginário construído pelos anúncios de cerveja, nos posters dos postos de gasolina. Está aqui dentro de mim. Cada um de nós, homens, de certa forma, fomos responsáveis pelo caso da menina que foi estuprada no dia 21/5 na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

 

*Vinicius Dias hoje não se sente confortável em dizer que é homem.

As cores da minha cor

*Bárbara Barbosa

Se uso branco, sou babá.

De preto, sou empregada.

De laranja, sou gari.

Colorida, sou prostituta.

Meus cabelos, minha cor

Se claros, sou adequada,

Embora, não aceita.

Se escuros, sou escrava

Do branco que aqui se deita.

Minha alma tem que ser branca

Denegrido é o meu passado

E até a inveja “boa” sobre mim

É suavizada por ser mais clara

Minha beleza ganha as cores do exótico

Em galerias de bizarrices profundas

Meus tons fortes são ironizados

Pelas black faces e focos nas bundas.

 

*Bárbara Barbosa é gerente de Inclusão e Acessibilidade da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, produtora e consultora de Acessibilidade Cultural, intérprete de LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais. Além disso, devaneísta amadora compulsiva, mãe coruja, impaciente cronica, entre outras coisas.

Cidade Ocidental tem dança!

No Dia Internacional da Dança, conheça a história do B-Boy Jazz, que vai representar nossas quebradas em um campeonato na Bélgica

BBoy Jazz destruindo tudo

*Joceline Gomes

Um B-Boy é um dançarino de Break. Break é um dos quatro elementos do Hip Hop, que são: DJ, MC, Break e Grafite. Dherlison da Silva Vasconcelos é um B-Boy, mas seu apelido é Jazz. E ele vive e respira Break. Aos 20 anos, Jazz está a poucos dias de um grande sonho: participar de um campeonato internacional. Por ter sido o vencedor do Street Battle Brasil, ele embarca no dia 10 de maio para o Unbreakable World Championship, na Bélgica.

Nascido numa pequena cidade do Maranhão chamada Buriti, em setembro de 2009 conheceu a dança através de um amigo de escola, e nunca mais parou. Em 2010, mudou-se pra Cidade Ocidental, que apesar de ser um município goiano, todo mundo sabe que é considerada uma quebrada do Distrito Federal, pois fica no que chamam de “entorno”.

Morando com a tia, Jazz só ficou 6 meses na cidade, pois ela não deixava ele dançar. Contudo, durante esse pouco tempo, o B-Boy conheceu a galera da dança de Brasília, que o fortaleceu e não o impediu de tomar uma decisão triste, porém, necessária: voltar para o Maranhão pra não ter que parar de dançar.

Antes de ir embora, um dos amigos, o B-Boy Cesinha (César Rodrigues) disse a Jazz que, quando quisesse voltar, poderiam morar juntos. Então, em julho de 2011, o dançarino voltou, e dessa vez pra ficar. Veio de mala, cuia e com a família inteira pra Cidade Ocidental. Foi aí que as coisas começaram a melhorar, na vida e na dança (se bem que, pra quem dança, as duas são uma coisa só, né?). Jazz chegou a fazer parte de outro grupo, mas foi no Quebra de Movimento (QDM) que fez sua “segunda família”.

“Já participei de muitos campeonatos, tive a oportunidade de sempre estar bem colocado em muitos deles”, explica o dançarino, que em 2012 foi campeão em São Paulo, em uma outra eliminatória que valia vaga para a Grécia, porém, como era menor de idade, teve muitas dificuldades e não conseguiu tirar o passaporte.

“Mas nunca perdi a fé, sabia que iria ter outras oportunidades como aquela e continuei treinando. Graças a Deus isso realmente aconteceu”, conta, referindo-se à vaga para o mundial da Bélgica. As eliminatórias foram feitas em vários estados do Brasil, trazendo então os melhores do país para a grande final, que foi em Brasília. Esse campeonato reúne os melhores B-Boys do mundo e já teve várias edições. Mas ninguém resiste a um bom Jazz.

Boa viagem e traz o ouro pra gente!

 

*Joceline Gomes é jornalista mas dançar é o que mais dá alegria ao seu coração. Ficou sabendo da história do Jazz e não queria perder a oportunidade de conta-la hoje, Dia Internacional da Dança. Parabéns a todos e todas que tornam essa vida mais bonita dançando!

Eu mereço ser amada

*Lívia Natália

A experiência do desamor é uma queixa comum entre mulheres negras. A cultura racista e sexista não nos criou como seres dignos de dedicação amorosa e nós, muitas vezes, não conseguimos nos compreender como sujeitos dignos de amor.

A palavra amor parece apontar para uma imaterialidade, uma interpretação. Mas nós, pelo contrário, sentimos o peso da sua materialidade cotidianamente, nós diuturnamente imaginamos que não merecemos ser amadas. A experiência do amor romântico nos foi roubada pelo processo de escravização, quando era impossível constituir ligações afetivo-familiares ou a vivência do romance, no entanto, percebemos os seus efeitos ainda hoje, nos aprisionando num lugar extemporâneo: enquanto muitas mulheres brancas querem a emancipação absoluta, inclusive do envolvimento amoroso, nós ainda precisamos do exercício do afeto, nós não aprendemos a amar.

O nó górdio da questão passa pelo gesto de auto-amor. Ouvimos todo o tempo nos dizerem que precisamos nos amar, nos valorizar, então, compramos potes de cremes e banhamos cabelo, pele, nos enfeitamos e maquiamos um sujeito completamente estilhaçado por dentro. Nós, por dentro, estamos como um campo sobrevivente a uma bomba atômica. Estamos dilaceradas. E isto, infelizmente, nos constituiu como seres humanos, estruturando a nossa subjetividade.

Nosso corpo, que jamais foi pensado como possível destino de afeto amoroso, foi sistematicamente vilipendiado durante a escravização e, depois, nos tornamos, ora sonho de consumo do macho branco, ora inimiga da mulher branca e, outras vezes, prêmio de consolação para o homem negro, quando não as três coisas ao mesmo tempo. O mundo da branquitude e do sexismo nos resumiu a uma genitália: nela se entra para alcançar o prazer, dela saem crianças para o mundo. E nós, sempre secundarizadas pela vagina, que, com o tempo, tornou-se tão alheia a nós que quase se converteu numa inimiga. Afinal, era graças a ela que éramos tratadas como cidadãs de segunda classe.

Ângela Davis, em Mulher, raça e classe, nos explica como se organiza esta equação: se fomos sempre corpos de uso, somos nós as últimas a ter direito de uso sobre nossos próprios corpos. O feminismo não nos abrigou, as mulheres negras eram, justamente, as inimigas das brancas, pessoas que precisavam ter seu desvalor continuamente afirmado por elas, inclusive pela sistemática exclusão das pautas destas mulheres dos interesses pelos quais lutava o movimento feminista, podíamos figurar para dar corpo ao movimento, mas continuávamos sendo as ladras de seus maridos.

O lugar de vítima nos foi, ora negado, ora impingido. Às mulheres brancas era impossível compreender que a hierarquia de raças enfraqueceria o movimento, aos homens brancos era essencial – inclusive no processo de conquista de direito ao voto – garantir que o sexismo se exercesse, tolerando o voto dos homens negros, mas não das mulheres. E prosseguimos sendo continuamente rechaçadas.

Mulher negra e afetividade

Quando penso na minha formação enquanto mulher negra, compreendo que ela se deu muito tarde. A despertença do corpo se dá de maneira muito eficiente. Nossos cabelos nunca são bons o suficiente, nossa beleza não pode soar excessiva – e, até hoje, luto contra o ímpeto de rebolar ou empinar as nádegas enquanto ando –, quando nossa vida sexual começa, ela costuma vir cedo demais, e nasce, muito comumente, de um afeto unilateral: nós amamos aqueles homens, que não nos amam. Em casa, na escola, na adolescência e na vida adulta, nós amamos como quem buscasse fugir, a todo custo, da casa vazia e do dedo sem aliança e os homens nos amam “do seu jeito”.

Peço desculpas pelo centramento na heteronormatividade das relações aqui pensadas, mas só me é dado, neste ínterim, falar deste lugar. As relações afetivas entre homens e mulheres negras sempre se dá num desnível afetivo, porque os homens negros não aprenderam a expressar afeto. Nós, que vivenciamos o sistemático recalque do afeto dentro das famílias, que aprendemos com nossas mães a sermos ferozes para proteger nosso casamento das outras negras aventureiras e das brancas que buscavam novidade sexual, nós, ensinadas pelas mulheres da nossa família a cuidar do nosso homem e, ao mesmo tempo, a evitar depender financeiramente deles, nós, com o tempo, fomos aprendendo a amar, mas da maneira errada.

Conheço mulheres negras, extremamente empoderadas, bem sucedidas e belíssimas que se expõem a relacionamento abusivos. Eu mesma fui uma delas. E o que mais nos machuca, é que, primeiramente, muitas vezes não percebemos que estamos sendo violadas por uma relação abusiva, e, depois, nós aprendemos a encontrar, à força, em nós mesmas, a justificativa para o abuso, seja ele qual for.

Conheço mulheres que fazem a sua vida orbitar em torno de um “ele”, deixando-se construir, diuturnamente, pelos humores da relação. Todas nós vivemos ou viveremos uma relação estruturada nesta desproporção afetiva. Chamo assim o desnível de afeto e envolvimento entre homens e mulheres. Cabe a nós alimentar a relação, como os alimentamos de comida e sexo. Cuidamos dos nossos parceiros e os maternamos exercendo sobre eles o lugar feminino que, muitas vezes, é o único, na visão masculina, digno de dedicação amorosa.

Nós eventualmente tentamos substituir as mães, na esperança de aumentar as possibilidades de amor. E ele, na maioria das vezes, não vem.

Desproporção afetiva

A desproporção afetiva também pode emanar de outros modelos de relação: se ganhamos mais, se somos altivas, bravas, intensas o homem negro não nos quer porque a possibilidade da preponderância sobre o feminino está perdida. Se nós não somos protegíveis, muitos homens entendem que não há espaço para eles na relação. Quando não, alguns se encostam confortavelmente no lugar (sob nossos proventos) aproveitando-se da histórica dificuldade financeira dos homens negros, e passam a ser, afetiva e financeiramente, dependente de nós, enquanto passeiam pela vida brincando com a autoestima de outras mulheres negras.

Os homens negros com a desculpa de que não puderam construir laços afetivos, uma vez que não os aprenderam, não receberam o exemplo, muitas vezes aproveitam-se desta situação não para se repensar, mas para justificar as infidelidades e sucessivos abandonos de suas mulheres e filhos. Nós os amamos, eles nos amam do jeito deles, e esta equação não pode dar certo.

Nós amamos da maneira errada porque os espelhos não nos abrigam, eles nos machucam. Amamos da maneira errada porque superficializamos nosso auto-amor, centrando-o na beleza física e desprezamos a mulher que vive por detrás daquela imagem. bell hooks, em Vivendo de amor, debruça-se sobre o tema do envolvimento amoroso, demonstrando que, infelizmente, nos falta um afeto que nos proteja de relações doentias e opressoras.

Não há mais chance de esperarmos que os nossos homens nos amem, principalmente se nós não somos capazes de fazê-lo. Aqui tomo o cuidado para não nos vitimizar, nem nos colocar no lugar de algozes de nós mesmas, mas sei que nós aprendemos a temer a solidão. Antes só do que mal-acompanhada, muitas vezes sai da boca de uma mulher que dorme sozinha, com uma cama recheada de travesseiros. Ninguém quer, deliberadamente, ser sozinho. Se o somos, é porque nossos homens não ‘deram conta’ de nós. Se o somos, é porque a relação degringolou em traições ou descuidos que geraram uma solidão terrivelmente acompanhada. O feminismo negro nos ampara, trazendo estas angústias para um conjunto, para a sensação de que não estamos atravessando sozinhas esta mata fechada que é o afeto, e, uma vez feministas, as nossas relações com os homens médios está fadada ao fracasso. Chimamanda Adiche afirma em Sejamos Todos Feministas que ela está com raiva, e a raiva nos é necessária ante tantas opressões sistemáticas.

A raiva é pedagógica, ela é potência! Mas, na maioria das vezes, estamos tão feridas que perdemos a força da nossa raiva enquanto mobilizadora de outras formas de relação: sobra uma fera raivosa e ferida. A raiva, boa parte das vezes, nasce de um corpo alquebrado, sim, porque a depressão gerada pela falência amorosa ecoa no nosso corpo também. Parte do que compreendo como auto-amor passa por lamber nossas feridas e seguir. Alimentar a raiva como potência de vida, e não de morte, ela é combustível, não cotidiano. Muitos nos feriram, muitos vão nos ferir, mas cuidar de nossa raiva, gerenciá-la, apontá-la para o inimigo certo nos poupa muito sofrimento.

Quando terminei a primeira versão deste texto, que recebeu a leitura de mais de cem pessoas, ainda insistiam em mim, duas questões. A primeira delas dizia respeito a minha escolha do verbo merecer. A segunda, sobre qual o papel dos homens negros no gesto amoroso. Começarei por esta.

A mulher negra, o homem negro: gestos de amor

Certa vez, conversando com um homem negro, afirmei que eles não sabiam amar as mulheres negras. Ele me indagou então, como eles deviam fazer isso. A minha resposta sobre como os nossos homens podem nos amar aparece aqui mais desenvolvida, e serve como resposta também a este homem.

Infelizmente, não tenho receita (estaria rica se a detivesse), mas tenho intuições, sentimentos e impressões. Antes de tudo, nos respeite. Respeite a complexidade da relação, tenha-a como relevante, essencial no seu cotidiano. Não podemos ser essenciais apenas para encontros fortuitos. Faça com que o afeto seja recíproco, cuidadoso, mas não opressor. Deseje o nosso corpo, precisamos disso, mas o acolha tudo que o acompanha, as demandas boas e as ruins.

Não nos oprima. Não seja abusivo. Reconheça em nós uma companheira, não uma companhia. Eu sei, isso tudo é uma dança cheia de movimentos complicados.

Se quisermos, em algum momento, falar de filhos, fale conosco sobre isso. E seja honesto. Machuca muito mais ouvir o que precisamos e não ter o que queremos do que a escuta de uma negativa sincera. Preocupe-se, junto conosco, com a contracepção, se for o caso. Deixar por nossa conta algo que deve ser pensado pelos dois é demais.

Sustente-se financeiramente e afetivamente (ou seja, não caia na armadilha óbvia do machismo, compreendendo a traição como afirmação da masculinidade). Use a intuição. Penteie os cabelos de nossas filhas, eduque nossos filhos, partilhando a responsabilidade amplamente, não como se fosse uma “ajuda”.

Não grite. Não nos diminua. Não nos abandone.

Sim, é demais, mas nós, mulheres negras, estamos condicionadas a sempre dar mais do que podemos, e isto está ficando pesado.

Auto-amor: algumas pistas

Nós merecemos ser amadas, sim. Mas o amor que qualquer parceiro pode nos dar, passa pela compreensão de que ainda nos amamos pouco e, infelizmente, estamos ainda longe de resolver isso. Não fomos formadas para nos amar apenas porque as mulheres e homens de nossas famílias não sabiam ou não podiam fazê-lo. Alimentar, sustentar financeiramente, dar abrigo físico são os meios de demonstração de afeto que nossos familiares tinham para nós. Infelizmente, dizer que ama não é algo natural entre famílias negras, certamente por que não se ouviu isto, certamente porque nossos pais precisaram nos criar para sermos fortes, para resistir.

O amor cura. Precisamos compreender que nossas lágrimas precisam ter lugar, nossas angústias, sejam elas quais forem, precisam ser ouvidas por nós mesmas, calar a dor é sofrer duas vezes. E a nossa alegria? Nosso sorriso, nosso contentamento, a dança que nosso corpo rotundo faz quando andamos, precisamos reconhecer nisso tudo partes do que somos.

Enquanto treinamos o afeto amoroso por nós mesmas, precisamos também fazer circular esta experiência. Somos muitas mulheres negras. Pela lógica, somos a maioria, e passamos pela vida muitas vezes sozinhas. Precisamos buscar construir a sororidade. Sair do eixo de rivalidade entre mulheres – construído também pela lógica sexista de poder – ela não pode ser a nossa prática cotidiana. A outra mulher negra não pode ser a nossa inimiga, precisamos irmanar nossas histórias.

Amar cura.

Penso que precisamos aprender a amar, amando a nós mesmas e às outras mulheres negras. Reconhecendo a irmandade que nos une, as questões pelas quais todas nós atravessamos. Valorizar-se e sentir-se digna de amor é um percurso trabalhoso para quem aceita a travessia. Não é fácil. Passa por relativizar o peso das relações afetivas, amando os homens do nosso jeito mas com reservas afetivas que nos protejam. Passa por entender a mulher que se olha no espelho, de findar com as angústias que cercam nossa autoestima. Vivenciar nossos cabelos, nossos narizes, nossas ancas largas como um percurso longo, às vezes difícil, mas absolutamente nosso.

A travessia de nós a nós mesmas, nós, ora sozinhas, ora juntas, é que precisamos fazer.

Eu mereço ser amada. Nós todas merecemos. E tudo começa nos amando em nossos defeitos, na raiz de nossos cabelos, nas nossas dúvidas e medos. Toda caminhada começa sondando o terreno, mas ninguém anda sem tropeçar: sejamos tolerantes com nossas fraquezas, julguemos menos os nossos atos, atribuamo-nos menos defeitos aprendamos a recomeçar.

O primeiro amor falhou, o segundo não deu, o terceiro quem sabe? Mas, antes de tudo, eu mereço ser amada por mim mesma.

*Com o meu agradecimento a Cidinha da Silva, Dayse Sacramento, Urânia Muzanzu e outrxs leitores que se dispuseram a ler a primeira versão deste texto.

** Prof.ª Dr.ª Lívia Natália é Chefe do Departamento de Fundamentos para o Estudo das Letras, Adjunta do Setor de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Bahia.