Protagonistas da nossa história – corpo, cultura negra e apropriação cultural

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Como Beyoncé e dois espetáculos de artistas africanos me mostraram a importância de registrarmos nossa memória cultural

*Joceline Gomes

Corpo, dores e cultura negra em evidência. Esses são os tópicos de três espetáculos que assisti essas últimas semanas: Homecoming, da norte-americana Beyoncé, Tears, do moçambicano Edivaldo Ernesto e Happi, la tristesse du roi, da Cie James Carlès Danse&Co. Ainda impactada por todos resolvi falar sobre como me tocaram de uma forma complementar.

Beyoncé dispensa apresentações, mas Homecoming é algo que precisa ser celebrado em toda a sua potência. A diva máxima do mundo nunca se mostrou tão humana – e tão negra. Passando por várias representações da cultura afro-norte-americana, expondo frases de grandes escritores/as e pensadores/as negros/as, ela reafirmou-se como uma mulher negra que quer fazer a diferença para o seu povo. Assim como Nina Simone, Malcolm X, e outras personalidades citadas ao longo do documentário. Mas, diferentemente de Nina, Beyoncé nunca será, a partir deste momento, invisibilizada. E sabe porquê? Porque ela jogou o jogo do capitalismo. Juntou o dinheiro, poder e influência necessários pro sistema se render aos seus pés e falar: você quer o mundo? Eu te dou. E deu. Talento não lhe falta. Trabalho, esforço, dedicação e inovação permanente também não. Dinheiro muito menos. Nina precisava se apresentar, Nina PRECISAVA do dinheiro, e o sistema, muito esperto, não deu. Afastada de sua arte, privada de sua subsistência, Nina definhou no ostracismo. What happenned Miss Simone? What happenned? Racismo, gente. Quando não mata, enlouquece. Simples assim.

Beyoncé não precisa mais se apresentar, ela escolhe onde, como e com quem. E o mais importante: o porquê. Que mensagens ela quer passar, de que forma, pra qual público. Ela agradeceu o Coachella por ser a primeira negra headliner. AGRADECEU. O deboche e o shady foram de um refinamento que eu gritei. Exaltou as mulheres, os filhos, os jovens, as amizades, a música ao vivo, a cultura negra como fator de mudança, empoderamento, ancestralidade e pertencimento. Beyoncé juntou dinheiro suficiente pra fazer o que quiser. E isso inclui mostrar para uma platéia Lollapaloostica que a cultura negra e as vidas negras importam. E tudo isso com classe, figurinos, cenários e músicas maravilhosas. O Egito é negro, a vida começou na África, e ela fez questão de mostrar isso logo na abertura. First things first. Primeiro as primeiras coisas. Prioridades. Rainha não perde a majestade e esse show jamais será esquecido.

O Movimento Internacional da Dança (MID) é um festival tradicional de Brasília. Traz apresentações de diversos países, oficinas, rodas de conversa, movimenta a cena da dança mesmo. Esse ano ele veio com 55 espetáculos. Cinquenta e cinco! E um número incrível de dois espetáculos protagonizados por artistas africanos. Isso mesmo, dois. Haviam outros/as dançarinos/as negros/as em outros espetáculos (sempre minoria), mas protagonistas, ainda mais africanos, considero que é um número muito pequeno, principalmente quando pensamos que a África tem 54 países. Pensei no que pode estar sendo produzido em tantos locais com tantas culturas diferentes, e porque temos que ver tanta coisa da Europa quando a principal referência corporal do Brasil é africana. Samba, frevo, funk, capoeira, temos bastante coisa pra mostrar, mas sobretudo pra referenciar à Terra-Mãe. Gostaria de ver mais dança contemporânea africana, mais dança fora das referências clássicas. Queria mais. Queria bis. Principalmente depois de ter visto o primeiro espetáculo, Tears.

O artista Edivaldo Ernesto apresentou em seu espetáculo Tears toda a potência do corpo negro num solo de 55 minutos de duração. Cada músculo visível em cada movimento, e não por ser “maromba”, mas por saber mobilizar toda a musculatura para a execução de cada passo. Começamos na penumbra. Total escuridão. Barulho de correntes sendo arrastadas. Luzes laterais se acendem, não há música. Uma respiração compassada e firme do artista dita o ritmo dos movimentos, que lembram luta, dança, resistência, rigidez, raiva, prontidão, tudo ao mesmo tempo. O corpo é jogado ao chão, se arrasta, levanta, joga-se ao chão novamente, sua expressão é de dor, de medo, de vontade de sobreviver. E sobrevive. E entra a música, uma espécie de canto gregoriano. Um corpo masculino negro dançando canto gregoriano. Deboche e shady presentes again! Fumaça. As luzes superiores do palco se acendem. Junto com a fumaça é como se o artista dançasse em meio às nuvens. A música para e sua respiração volta a ditar o ritmo. O corpo negro masculino, esse corpo que é diariamente jogado ao chão, arrastado, derrubado, exterminado estava no centro do palco. Só. Sem música. Apenas sendo. Resistindo. Representatividade máxima.

O terceiro espetáculo a que me referi, Happi, la tristesse du roi contou, por meio da dança e do corpo do francês de origem camaronesa James Carlès, a história real de Happi, um rei africano que negociou a escravidão de seus iguais, incluindo dois de seus familiares. Uma história trágica, que começa com todo o vigor de um corpo nu que luta, que impõe-se e vence, passa pela interação com recursos audiovisuais e toda a pompa que um rei vitorioso merece, e termina com a vergonha mais profunda, em que o rei ora vangloriado enrola-se em panos a fim de não ser visto e de morrer isolado nesta profunda decepção. Se traçarmos um paralelo com o movimento negro de hoje, podemos ver pessoas que vendem seus iguais em troca de likes, dinheiro, status, enfim, fazendo o mesmo percurso que Happi. Reconhecer-se neste local deve ser dolorido, e acho que nunca vi uma cena tão forte simbolicamente como a desse homem a se enrolar em tecidos, curvando-se e embolando-se de vergonha após reconhecer seu feito. Uma cena forte, delicada e profunda pra quem compreende o que ela pode significar. O artista fez questão de colocar uma gravação logo no início do espetáculo explicando que Happi foi um personagem real e contando sua história, pra que não houvesse outra interpretação possível. Não há poesia. É trágico e doloroso. Apenas.

Mais uma vez o corpo negro como instrumento e ferramenta de contar sua própria história, algo que, por mais simples que pareça, nos é negado a todo momento. Os livros didáticos não são escritos por nós. Você conhecia a história de Happi? Você sabe a história de Nzinga? Você sabia que o tango e a rumba foram criados e desenvolvidos por africanos/as?

Quando falo do tango essa é a maior surpresa que as pessoas têm. Pois hoje você não encontra mais uma pessoa negra sequer dançando, que fará contando essa história. Esse é o grande problema da apropriação cultural. Aliás, esse é o problema do combo apropriação cultural + extermínio do povo negro. O resultado é o completo apagamento de um povo e sua cultura, a tal ponto que essa cultura será totalmente realizada por outro povo e não restará mais sequer a imagem daquela cultura sendo manifestada por seu povo original. É ou não é o caso do tango? A Argentina exterminou sua população negra a tal ponto que você não a encontra sequer nas ruas, que fará nas artes ou nos postos de comando. No Brasil, em que se mata 63 homens negros por dia, principalmente nas favelas, é questão de tempo até que o funk não seja mais negro, o samba, o rap… corremos o risco real de daqui a duas ou três gerações falarem que “o preço já foi pago” é um clássico.

Parece absurdo, mas é só lembrar do blues, do jazz, e do choro aqui no Brasil. Quantos artistas negros são destaque nessas manifestações culturais? Quando todos os negros forem exterminados não terá ninguém pra dizer o que era cultura negra. Quando a gente se manifesta e grita e pede respeito à memória dos artistas negros, é disso que estamos falando.

O que Beyoncé, Edivaldo Ernesto e James Carlès fizeram foi lembrar que esse corpo negro, desse artista negro, falando sobre cultura negra existe, resiste, e precisa ser registrado. Porque as próximas gerações precisam saber que estivemos aqui e que produzimos a cultura mais rica que já existiu. Afinal, se tirarmos a cultura negra do mundo vai sobrar o quê? Respeita quem veio antes. Respeita quem trouxe essa cultura até aqui. Respeita!

*Joceline Gomes é dançarina, jornalista, e quer deixar registrada a enorme contribuição da cultura e dos artistas negros e negras para o mundo.

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Sobre matriarcado, determinação, corpo e mexer a raba

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Foto de oficina com Taísa Machado, chefona do Afrofunk Rio, que trabalha empoderamento feminino por meio do funk (Blog Mulherias/Uol)

 

*Joceline Gomes

Pensa aqui comigo: a mulher carrega em si esse poder de gerar e nutrir uma vida. Ainda que não tenha filhos, ela tem essa capacidade. E se ela pode gerar uma vida, ela pode gerar qualquer coisa. Afinal, o que há de mais poderoso do que a vida? A mulher carrega em si o que uma vida precisa pra ser criada e mantida. Ela gera em seu ventre e alimenta em seu seio. Gerar e nutrir. Tudo que precisamos para ser quem quisermos, fazer o que quisermos, está dentro de nós.

O matriarcado é o sistema político, filosófico e prático que reconhece isso e coloca esses princípios em ação. A mulher é respeitada, valorizada, reverenciada por sua capacidade de gerar e nutrir uma vida. Mas os homens não são tratados como desnecessários ou inimigos. Afinal, eles participam desse processo de gerar uma vida. Cada um tem suas habilidades e contribuições reconhecidas. Os homens não se sentem menos homens por respeitar e valorizar aquelas que lhe deram a vida ou darão a vida a outras pessoas. As mulheres não se sentem menos mulheres por reconhecerem aqueles que têm a capacidade de protege-las, cuida-las e de seus filhos.

É preciso reconhecer e respeitar as diferenças. Os direitos podem ser iguais, mas nós, definitivamente, não somos. Homens e mulheres não possuem a mesma força física, o mesmo tônus muscular, a mesma predisposição pra esta ou aquela doença, a mesma velocidade e capacidade de explosão em uma corrida ou uma luta. Sob as mesmas condições de treino, intensidade, velocidade e peso, um homem ainda vai se destacar. Mas numa situação de pressão extrema em que a vida de uma pessoa ou grupo de pessoas esteja em risco, sabemos que uma mulher pode até dobrar sua força e capacidade de explosão – vide caso de Silmara Cristina Silva de Morais, que salvou 50 crianças do ataque à escola em Suzano-SP, ou de Maria Jerônimo Campos, mãe que, sem saber nadar, salvou o filho que caiu em um poço. Você não daria tudo de si pra salvar aquilo que você mesma gerou?

Você que, assim como eu, não tem filhos biológicos, não identifica seu potencial criativo, seus projetos e sonhos como filhos? Não estou banalizando filhos como as “mães de pet”, galera, calma. Estou dizendo que, reforçando o que disse no primeiro parágrafo, uma pessoa capaz de gerar uma vida não seria capaz de gerar qualquer coisa? O que quer que você, mulher, ponha sua energia, sua vontade mais profunda e verdadeira, aquilo não vai absorver toda essa energia que poderia vir a ser uma outra vida? Em que você tem investido essa energia?

Matriarcas não são apenas aquelas que possuem filhos biológicos ou adotivos. Matriarcas geram e nutrem uma comunidade, local, nacional ou mesmo internacional. Yalorixás que nunca tiveram filhos biológicos, mas administram e cuidam do terreiro e de todos os seus filhos de santo como se assim fossem; aquela tia que não tem filhos mas criou você e toda a galera da sua rua; aquela irmã mais velha que criou todos os irmãos e agora é a referência dos sobrinhos; aquela mulher que realiza há anos um projeto social que resgata a autoestima da juventude negra, periférica, e que já profissionalizou e salvou a vida de pelo menos três gerações… todas essas mulheres são matriarcas, e elas podem não ter filhos que saíram de dentro delas, mas foram elas que geraram e nutriram os sonhos que alimentaram essas pessoas. O matriarcado reconhece e respeita as mulheres que geram filhos, sonhos, projetos, e muitas outras coisas. E todo esse poder de vida está em seu ventre, em seu seio, em você, mulher.

As movimentações de quadril, as contrações da musculatura genital (pompoarismo) tão reprimidas hoje, são movimentações de cura, autocura, autoconhecimento, que eram usadas para prevenir doenças, dores, cólicas, há movimentações que aumentam a fertilidade, diminuem, e podem até ser abortivas. Tudo no seu próprio corpo, no seu próprio ventre. Nos desligamos dessa capacidade de nos curar sozinhas, porque em algum momento o ocidente nos disse que precisamos pagar pelo remédio, pelo conhecimento do nosso próprio corpo, pela cura que não sabemos mais qual é e precisamos de outra pessoa pra nos dizer. O corpo tem a capacidade de se curar sozinho, se estiver sob as condições adequadas. Alimentação, sono, estresse emocional, tudo isso interfere, obviamente. Mas o seu ventre, seu quadril, esse está bem acessível e você pode começar a fazer algo a respeito agora mesmo.

Não desperdice esse poder que há latente dentro de você.  Movimente-se! Abra suas pernas, dobre seus joelhos, fique na base, vá em direção ao chão, fique de cócoras, quique, rebole, contraia e relaxa sua musculatura pélvica. Ou, no português contemporâneo: rebole a sua raba! Pisque a ppk! Não fique com vergonha de cuidar de seu próprio corpo, de readquirir o poder inato que você tem sobre ele. Esse corpo é seu! Conheça-o! Ame-o! Tome posse! Saiba do que você é feita! Se olhe no espelho! Dance!

Pesquiso e dou palestras/aulas sobre matriarcado e danças afro e muitas pessoas devem chegar para elas sem saber qual a relação possível. Para além do fato de serem as mulheres as principais transmissoras das informações sobre essa dança, sobretudo por meio da tradição oral, há todo esse poder no corpo feminino que uma mulher compreende bem melhor. E aqui não quero desrespeitar nenhuma mulher trans, pois não falo apenas de biologia, mas principalmente de uma energia feminina que nos habita. O matriarcado respeita e acolhe todas as pessoas, como disse anteriormente.

O quadril, o ventre, guarda, tanto em homens quanto em mulheres, esse poder de vida. Há um potencial de vida dentro de você. Direcione esse potencial para o que te move. Descubra o que te move. Mova-se. E sempre que puder lembre-se que não há nada de errado em mexer o quadril. Pra quem diz “mexa o cérebro ao invés de mexer a raba”, aqui vão algumas informações:

1) mexer o cérebro não é saudável. Ele foi feito pra ficar bem paradinho no lugar dele. Estude anatomia;

2) “mexer a raba” (qualquer parte do corpo, na verdade) exige uma coordenação motora que nem todas as pessoas têm a consciência de que possuem. Percebam que eu não disse “tem gente que não tem”, eu disse sobre não ter consciência, pois até pra andar você precisa ter coordenação motora. Ou você nunca reparou que quando você anda balança o braço contrário da perna? Dançar coloca essa coordenação pra trabalhar de forma consciente. Talvez daí venha o problema: autoconsciência. Quando falamos que dança é autoconhecimento, falamos disso, de conhecer o próprio corpo e ter consciência do que ele é capaz de fazer. Então, voltando ao assunto de mexer a raba, rebolar ao som de uma música exige uma consciência da própria coordenação motora que nem todo mundo tem (mas que pode desenvolver, se quiser e treinar);

3) se você não mexe a raba como gostaria, ou não sabe, não vem desmexer a raba de quem mexe. Recalque é um conceito psicológico para além da gíria do funk. Lide com seu recalque e entre numa aula de dança. Tamo aí na atividade caso queira indicações. 😉

É, Brasil, parece que eu consegui escrever um texto que começa com matriarcado e termina com um jabá sobre mexer a raba. Ninguém é uma coisa só. Somos jornalistas, dançarinas, matriarcas, rebolantes, professoras de dança, e muito mais. Só não somos limitadas. Mexa-se! Afinal, o mundo está em movimento. E o movimento é sexy.

*Joceline Gomes é jornalista e professora de dança. Dá aulas de Danças Afro, Funk e Dancehall em Brasília-DF. É pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça pela Universidade de Brasília e pós-graduanda em Dança e Consciência Corporal pela Estácio. Pesquisa História Geral da África e Matriarcado Africano no Instituto Hoju (RJ), onde tem desenvolvido a pesquisa sobre Matriarcado e Danças Afro.

 

**Texto originalmente publicado na coluna de Joceline Gomes na Rádio Eixo.

O Brasil é racista e posso provar

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Linha do tempo da legislação brasileira deixa registrado o racismo nosso de cada dia

Joceline Gomes

Sou pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça na Universidade de Brasília. Pela primeira vez na minha trajetória acadêmica, a maioria do corpo docente era de mulheres e negras. Foram apenas duas turmas, e já na minha, os recursos estavam escassos. Não abriram outras. Nesse mês de novembro, em que celebramos a Consciência Negra, é preciso falar sobre políticas públicas para o povo preto. Quando falamos “políticas públicas” pensamos logo em leis, legislação, e não poderia ser diferente. Por isso, baseada em um texto de Leandro Ribeiro, queria apresentar uma série de leis direcionadas para a população negra. O que não significa que sejam positivas. Vem comigo.

1837 – Primeira lei de educação: negros não podem ir à escola.

Lei nº 1, de 14 de janeiro de 1837: “São proibidos de frequentar as escolas públicas: Primeiro: pessoas que padecem de moléstias contagiosas. Segundo: os escravos e os pretos africanos, ainda que sejam livres ou libertos”. A lei nº 1 do Brasil já mostrava para quem era esse país. Definitivamente não para os negros. Para quem duvida, esse artigo fala mais sobre o tema.

1850 – Lei de terras: negros não podem ser proprietários.

Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850: aprovada no mesmo mês e ano da lei Eusébio de Queirós (Lei nº 581 de 4 de set de 1850), que previa o fim do tráfico negreiro. A Lei de Terras, como ficou conhecida, foi uma antecipação de grandes fazendeiros e políticos latifundiários que queriam impedir que negros pudessem ter terras. A abolição estava surgindo no horizonte e tudo que eles menos queriam é que negros pudessem ser seus concorrentes. Soa familiar? Leia mais sobre a lei aqui.

1871 – Lei do Ventre Livre

Lei nº 2.040 de 28 de set de 1871 – filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir desta data ficariam livres. Agora me diz, uma criança, ainda que livre, vive como? Com a mãe. Se a mãe é escrava, logo… pois é. A realidade é que essas crianças cresciam escravas e permaneciam assim até que a mãe fosse liberta – algo conquistado pela compra da carta de alforria por meio das irmandades de negros ou mesmo pela fuga. Mas pela lei que não foi. Mais aqui.

1885 – Lei do Sexagenário

Lei nº 3.270 de 28 de setembro de 1885 – concedia liberdade aos escravos com mais de 60 anos de idade. Quem sobrevivia até 60 anos com as péssimas condições de trabalho, alimentação, moradia, sono, vida que a escravidão estabelecia? Sem contar que a lei apresentava um artigo que determinava que o escravo, ao atingir os 60 anos, deveria trabalhar por mais 3 anos, de forma gratuita, para seu proprietário. Confiram a lei completa, que beneficiava mais os proprietários do que os “libertos” clicando aqui.

1888 – Lei Aurea

Lei nº 3.353 de 13 de maio de 1888 – 388 anos de país depois… A maioria dos escravizados já tinham conseguido sua liberdade por meio da fuga, da compra de alforria e dos movimentos abolicionistas negros. Foi uma lei pra acalmar os ânimos internacionais, porque o país já tava sofrendo com a pressão permanente de países como a Inglaterra. Tava pegando mal já, sabe como é, essa parada de relações internacionais, diplomacia e tals… Mas é aquela, aboliu mas as condições de trabalho continuavam as mesmas por muito tempo. Foi uma lei só pro Brasil dizer que aboliu. Daí que veio a expressão “pra inglês ver”. O Brasil foi o último país ocidental a abolir a escravidão. E o fez sem nenhuma política reparatória, sem nenhum tipo de indenização às vítimas deste que foi o mais cruel e duradouro crime contra a humanidade. Aliás, os senhores de engenho é que queriam indenização, por perderem “mercadoria”. O documentário A última abolição (que estava em cartaz e teve baixíssima bilheteria) explicou que Rui Barbosa queimou as notas fiscais e outros registros da escravidão exatamente para não ter que ressarcir essas compras. Esse filme inclusive explica com riqueza de detalhes, documentação histórica e contextualização de grandes estudiosos do tema como a abolição feita sem reparação reflete nas desigualdade sociais sofridas pela população negra até hoje. Recomendo.

1890 – Lei dos vadios e capoeiras

Código Penal – Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890 (atenção, 2 anos depois da abolição) – os que perambulavam pelas ruas, sem trabalho ou residência comprovada, iriam pra cadeia. Bem como os que estivessem jogando ou portando objetos relativos à capoeira. Confira na íntegra aqui. Alguns trechos:

CAPITULO XIII

DOS VADIOS E CAPOEIRAS

Art. 399. Deixar de exercitar profissão, officio, ou qualquer mister em que ganhe a vida, não possuindo meios de subsistencia e domicilio certo em que habite; prover a subsistencia por meio de occupação prohibida por lei, ou manifestamente offensiva da moral e dos bons costumes (…)

Art. 402. Fazer nas ruas e praças publicas exercicios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal: Pena – de prisão cellular por dous a seis mezes.

Paragrapho unico. E’ considerado circumstancia aggravante pertencer o capoeira a alguma banda ou malta.

Agora pensa aqui comigo: quem andava pelas ruas, sem trabalho ou residência comprovada após a abolição? Eram mesmo “livres”? Dá para imaginar qual era a cor da população carcerária daquela época? Você sabe a cor predominante nos presídios hoje? Pois é. Pesquisa aí rapidão.

1968 – Lei do Boi

Lei nº 5.465, de 3 de Julho de 1968. 1ª lei de cotas! Não, não foi pra negros, foi para filhos de donos de terras, que conseguiram vaga nas escolas técnicas e nas universidades (volte e releia sobre a lei de 1850!!!). Na íntegra aqui. Mas deixo uns trechinhos pra vocês:

Art. 1º. Os estabelecimentos de ensino médio agrícola e as escolas superiores de Agricultura e Veterinária, mantidos pela União, reservarão, anualmente, de preferência, de 50% (cinqüenta por cento) de suas vagas a candidatos agricultores ou filhos dêstes, proprietários ou não de terras, que residam com suas famílias na zona rural e 30% (trinta por cento) a agricultores ou filhos dêstes, proprietários ou não de terras, que residam em cidades ou vilas que não possuam estabelecimentos de ensino médio.

UMA COTA DE 50% CINQUENTA POR CENTO PARA LATIFUNDIÁRIOS E SEUS FILHOS. 50% na área rural e 30% na urbana. 80% bichão. Ou seja, a reparação para a população negra não teve, mas os latifundiários precisavam sim de cotas, 80% de vagas reservadas para eles e seus filhos. Eles precisavam estudar, gente! Tá serto. Tá aqui a lei na íntegra pra quem quiser ler.

1988 – Nasce nossa ATUAL CONSTITUIÇÃO

Foram necessários 488 anos para ter uma constituição que dissesse que racismo é crime! Ainda assim, na maioria das ocorrências, se minimiza o racismo enquanto injúria racial e nada acontece. Vou deixar uns artigos aqui só pra reflexão do nosso momento atual:

Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:

      II – prevalência dos direitos humanos;

      VI – defesa da paz;

      VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo;

Ainda bem que a Constituição é obedecida, né? Show.

2001 – Conferência de Durban

O nome completo é: III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas. Foi realizada em setembro de 2001 e de lá saiu uma declaração, da qual o Brasil é signatário, sabia? O Estado reconhece que terá que fazer políticas de reparação e ações afirmativas. Mas, não foi porque acordaram bonzinhos. Não foi sem luta. Foram décadas de lutas para que houvesse esse reconhecimento. E olha que até hoje tem gente que ignora, hein? Leia aqui a declaração e o programa de ações.

2003 – Lei 10.639 de 9 de janeiro de 2003

Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Que não é cumprida até hoje na maioria das escolas né? O nome disso é racismo institucional. Não é interessante ensinar cultura africana e afro-brasileira nas escolas. Afinal: “Um povo sem o conhecimento da sua história, origem e cultura é como uma árvore sem raízes” – Marcos Garvey. A quem interessa que o povo preto tenha consciência? Pois é. Lembrando que essa lei foi assinada na segunda semana do primeiro governo Lula. Só um fato histórico mesmo pra refrescar a memória. A lei completa que não é cumprida aqui.

2009 – 1ª Política de Saúde da População Negra

Portaria nº 992, de 13 de maio de 2009. Que prossegue sendo negligenciada no sistema de saúde. Quem são as maiores vítimas da violência obstétrica? Quem recebe menos anestesia? Quem é menos tocada em uma consulta ginecológica? Portaria na íntegra aqui.

2010 – Estatuto da Igualdade Racial

Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010. Em um país que se nega sequer a reconhecer a existência do racismo, ter aprovado o Estatuto foi um passo. Se a lei “pegou”, é outra história. Estatuto na íntegra aqui.

2012 – Cotas nas universidades

Lei 12.711 de 29 de agosto de 2012, que estabelece a reserva de vagas. A revolta da casa grande sob um falso pretexto meritocrata. A mesma lei já estabelece uma reserva de 50% das vagas para estudantes de escolas públicas, mas toda vez vem um tInHa qUe sEr pRa pObRe e nÃo pRa nEgRo. Leia a lei antes de encher o saco com esse argumento vazio, faz favor, clique aqui.

Não desmereço o trabalho de nenhum dos irmãos e irmãs que lutaram para que cada uma dessas políticas de ações afirmativas fossem aprovadas. Pelo contrário, reconheço a luta e os honro. A questão é que o racismo estrutural brasileiro não permite que essas legislações sejam aplicadas na prática. Seguimos tentando.

Como vocês podem ver por essa linha do tempo, e pelas execuções diárias do povo preto, nossa sociedade é extremamente racista e ainda escravocrata. Muita coisa ainda não mudou. Mas os direitos conquistados com muita luta podem ser perdidos num piscar de olhos. Resistamos, portanto.

*Joceline Gomes é jornalista e dançarina. Pós-graduada em Gestão de Política Públicas de Gênero e Raça pela Universidade de Brasília, compreende a importância da mídia e das artes para a construção e desconstrução de preconceitos e estereótipos.

** Texto originalmente publicado na coluna de Joceline Gomes na Rádio Eixo.

 

 

Batalha de dança em Ceilândia seleciona dançarinos para disputar vaga em festival inédito na Jamaica

Wan Move Battles Brazil desembarca na capital federal em 11 de agosto, com workshops e batalhas de vários estilos. Inscrições antecipadas com desconto até um dia antes do evento

 

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Imagine ganhar uma viagem para a Jamaica com tudo pago e ainda participar de um evento internacional de danças urbanas, ao lado de dançarinos do mundo inteiro? Gostou da ideia? Então, você não pode perder o Wan Move Battles Brazil, dia 11 de agosto (sábado), a partir das 14h, na Praça do Cidadão em Ceilândia. Essa etapa em Brasília, juntamente com as realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, é uma seletiva para o Wan Move Diaspora, festival inédito que reunirá, em novembro, em Kingston, capital jamaicana, dançarinos de diferentes nacionalidades para uma imersão no universo das danças tradicionais e urbanas de matriz afro.

A programação inicia às 14h, com aulas de Breaking e Danças Afro com as brasilienses BGirl Prix e Nãnan Matos, respectivamente, e Dancehall com a jamaicana Kim Weezy, que virá ao Brasil especialmente para o evento.

Para encerrar as atividades, às 19h, uma batalha de dança all styles, ao som do DJ Sapo, fundador dos grupos Apocalipse Crew e Cyphers Clan. A disputa que contempla e acolhe todos os estilos de dança será avaliada por quatro jurados: Valéria Assunção, coreógrafa do Studio Under7, Eduard Kon Zion, mother da house of Hands Up DF, Mare Rela, professora de Dancehall em Goiânia (GO), além da dançarina jamaicana Kim Weezy.

A dançarina ou o dançarino que alcançar a melhor nota entre os participantes das três batalhas (Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro) vai viajar para Jamaica, com todas as despesas pagas (passagem aérea, visto, hospedagem, refeições e traslados, etc.) para participar do Wan Move Diaspora. Além de cursos de dança, performances, painéis e debates sobre vários aspectos das várias modalidades de dança de origem africana, os participantes vão concorrer ao título de Global King and Queen of Dance (Rei e Rainha da Dança Global, em tradução livre), com premiação de US$ 5 mil e um ano de contrato ao vencedor.

Inscrições – Para se inscrever no Wan Move Battles Brazil – etapa Brasília, o interessado deve enviar para o e-mail kqd@wanmovediaspora.com o nome completo, telefone e contatos de redes sociais, juntamente com o comprovante de pagamento das taxas correspondentes (transferência ou depósito bancário). As inscrições antecipadas custam R$ 80,00 (pacote para as três aulas) e R$ 10,00 (para participar da batalha). No dia do evento, serão cobrados os valores sem desconto de R$ 100,00 e R$ 15,00, respectivamente.

Todos os recursos arrecadados durante o Wan Move Battles Brazil vão contribuir para arcar com as despesas de inscrição, transporte, hospedagem e alimentação dos dançarinos no festival jamaicano. De acordo com a organização, dependendo do montante alcançado, é possível até ampliar o número de vagas para estender a oportunidade a outros dançarinos, especialmente, em situação de vulnerabilidade social.

Para tanto, a proposta é realizar os eventos em espaços culturais alternativos, a fim de atingir prioritariamente a juventude negra e periférica, além de pessoas que estejam comprometidas com as danças tradicionais e urbanas de origem negra (tais como Hip Hop, House, Vogue, Passinho, Dancehall, Kuduro, Afro House, entre outras). Com esse mesmo objetivo de ampliar as oportunidades à população em situação de vulnerabilidade social, cinco beneficiários do projeto Jovem de Expressão vão ganhar bolsas para participar gratuitamente dos workshops e da batalha de dança.

 

Wan Move Diaspora

wanmoveDe 26 de novembro a 2 de dezembro de 2018, o Wan Move Diaspora vai reunir no Edna Manley College of Visual and Performing Arts, em Kingston, capital da Jamaica, profissionais da dança de 23 países para ministrar aulas de diversas modalidades tradicionais e urbanas de dança de origem e matriz afro, tanto do continente africano quanto da diáspora, ou seja, da comunidade africana espalhada pelo globo.

O nome do festival remete à forma de dizer, em inglês, a expressão “um movimento” (one move). A ideia é traduzir a semelhança entre as manifestações culturais de origem africana que se espalharam pela diáspora, criando diversas expressões culturais, mas sem perder a unidade enquanto povo.

Serão oito dias de imersão completa na dança afro-diaspórica, com mais de 50 professores pioneiros ou grandes representantes dos mais de 50 gêneros que serão ministrados. A programação também contemplará performances, painéis e debates sobre vários aspectos da dança afro.

Para organizar os grupos de dançarinos que vão participar do Wan Move Diaspora foram escolhidos diretores regionais em 27 países. No Brasil, a diretora regional é a proprietária da Backstage Dance Center, Carolina Newmann.  Para mais informações, basta acessar o site www.wanmovediaspora.com ou entrar em contato diretamente com Carolina Newmann pelo telefone (61) 3202-1255.

Arte engajada – vídeos sobre Marielle Franco

Por acreditar que não existe arte separada do contexto social em que está inserida, a organização do Wan Move Diaspora se mobilizou nas redes sociais após o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018. Foi lançado um concurso mundial para incentivar dançarinos a gravar vídeos se manifestando artisticamente contra a injustiça e o racismo que este crime representa. O vencedor do concurso foi o mineiro Marcelo Mendes. Ele e os outros quatro dançarinos que participaram da coreografia escolhida também vão participar do Wan Move Diaspora, com todas as despesas pagas.

A ideia de realizar as batalhas de dança em espaços nas periferias das grandes cidades surgiu como resposta a este crime bárbaro, diante do entendimento de que a arte é uma forma de questionar as estruturas sociais e recuperar o sentido original de muitas das danças urbanas criadas pela comunidade negra.

Serviço:

Wan Move Battles Brazil – etapa Brasília
Data: 11 de agosto de 2018 (sábado)
Local: Jovem de Expressão – EQNM 18/20, Praça do Cidadão em Ceilândia Norte
Programação: 14h – Danças Afro – Nãnan Matos
15h – Breaking – BGirl Prix
16h – Dancehall – Kim Weezy
19h – Batalha All Styles


Inscrições
Workshops (pacote para as três aulas – Breaking, Danças Afro e Dancehall)
R$ 80,00 antecipado/R$ 100,00 no local

Batalha All Styles
R$10,00 antecipado/R$ 15,00 no local

Pagamento com transferência ou depósito
Banco do Brasil
Agência 1003-0
Conta Corrente 17.424-6
(Anna Caroline Newman dos Santos Zica)

Confirmação da inscrição:
Envio do comprovante de pagamento, com os dado participante (nome completo, telefone e redes sociais) para kqd@wanmovediaspora.com

Mais informações: Joceline Gomes: (61) 98132-4082

 

Perfil das professoras dos workshops de dança

Kim Weezy – Dancehall

kimweezyA jamaicana Kimberly Ashley Hyman, mais conhecida como Kim Weezy, tem 28 anos e começou a dançar aos quatro, estudando ballet. Já adolescente, entrou para o programa da Edna Manley School of Dance. Após concluir o ensino médio, também terminou seus estudos na Edna Manley School of the Visual and Performing Arts, conquistando seu diploma profissional de Dança, Teatro e Produção. A partir de então, decidiu se dedicar de forma mais intensa ao Dancehall, estilo no qual trabalhou com Konshens por mais de dez anos, gravando vídeos, saindo em turnê pelas ilhas caribenhas e coordenando performances no palco. Ainda atuou como dançarina de muitos artistas locais e internacionais, entre eles, Drake, Beenie Man, Elephant Man, Movado, Vybz Kartel, Mya, Spice, Gnarls Barkley. Trabalhou também na cobertura do único programa de TV jamaicano sobre dança, o Dancin Dynamites, competição que durou 13 semanas na TV Land. Kim Weezy criou três passos de dança femininos que viralizaram e são ainda hoje sucesso entre as mulheres, os chamados Boom Whine, WEEZY Whine e Ketch a fyah.

Nãnan Matos – Danças Afro

Foto: Tatiana Reis Fotografia

Foto: Tatiana Reis Fotografia

Nãnan Matos é uma cantora, dançarina e arte-educadora brasiliense que desenvolve trabalhos de pesquisas e práticas musicais há 10 anos no Distrito Federal. Sua experiência e formação artística a fez especializar-se em música tradicional africana e afro-brasileira. Nãnan Matos, que se formou na Escola de Música de Brasília, iniciou centenas de alunos na prática de instrumentos tradicionais da África, como djembês e dununs, além de ter realizado importantes trabalhos performáticos de propagação da cultura africana. Atualmente, ela dá aulas de percussão e dança tradicional do oeste africano. Com cantora e dançarina, Nãnan Matos já se apresentou em grandes festivais de vários estados brasileiros e, recentemente, participou do programa The Voice Brasil, exibido pela emissora TV Globo.


BGirl Prix – Breaking

Breaking_BGirl_Prix_Judge (02)Professora de dança e DJ, Priscila Paixão (BGirl Prix) já tem 10 anos de carreira, quatro deles como integrante do grupo BSB Girls – Brasil Stylers B.Girls, coletivo pioneiro de mulheres no Breaking em Brasília. Entre os vários prêmios e batalhas locais e nacionais que conquistou, estão o festival brasiliense Quando as Ruas Chamam (Voto Popular), o 10° Campinas Street Dance Festival/ Batlle of the year Brasil 1vs1 e o Rota Convida 2010 – Competição de Street Dance nível profissional. Já trabalhou com nomes como GOG, Markão Aborígene e participou de competições e cursos internacionais.

Perfil dos demais jurados e DJ da Batalha All Styles

Valéria Assunção

Valeria_Assunção_JudgeCoreógrafa dos grupos Studio Under7 base, senior e adulto, com os quais já ganhou prêmios em importantes festivais locais e nacionais de danças urbanas. Proprietária das duas unidades do Studio Under7 (Águas Claras e Pistão Sul) e do Bar Under Seven Store – ponto de encontro e convivência dos artistas da Cultura Urbana do Distrito Federal. Já integrou grupos nacionalmente renomados como o Rota Brasil e o Tekamul, do qual também já foi coreógrafa. Também ministra aulas de Hip Hop no La Salle e em seu próprio studio.

 

Eduard Kon Zion

Eduard_Kon_Zion_Judge (03)Brasileira trans não binaria nascida em Brasília, Eduard Kon Zion iniciou seus estudos em danças urbanas cedo, tendo contato a principio com o Breaking, em seguida dança clássica.  Retornando às danças urbanas, já dançou e coreografou trabalhos utilizando Hip Hop, Street Jazz, Waacking, Voguing, Contemporâneo, Video dance, apresentando essas estéticas nos vários campeonatos que concorreu e nos grupos de dança de que participou. Hoje representante condecorado do Brasil da House Of Zion de Nova York – casa que aplica e estuda a cultura Vogue na comunidade afro-latina criada por Pony Zion, coreógrafo do primeiro grupo de Voguing (Vogue Evolution) a apresentar no programa America’s Best Dance Crew .

A dança é sua linha de estudo artístico, mas Kon também é hoster, comentator, MC , Chanter das BallRoom’s (Batalhas de Voguing) e está ajudando cada vez mais e mais a crescer esta cena no Brasil, tornando se uma referência nacional e internacional, com workshops ministrados em locais como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, e, recentemente, no Chile. Kon se aprofunda nos estudos de danças performáticas utilizando de referências das mais variadas nomenclaturas existentes e de todo o vocabulário que adquiriu e continua adquirindo ao estudar Brasil a fora.

Mare Rela

Mare_Rela_Judge (01)Mariana Filgueira Rela iniciou como estudante de Danças Urbanas no Studio Dançarte em 2009. Desde então participou de cursos e workshops por todo o país e internacionais, estudando em escolas conceituadas como Studio MRG (Paris – FR); L.A.X Studio (Paris – FR); Dany Studio (Nova Iorque – NY); Studio Latino (Montpellier). Em 2013, iniciou a carreira como professora de Dancehall e Danças Urbanas do Studio Dançarte. No ano seguinte, participou do festival de Dancehall mais conceituado do mundo, em sua edição na América Latina: O Big Up Kemp Argentina. Foi vencedora da batalha 2×2 ao lado de Camila Leão, obteve destaque como uma das representantes brasileiras do Dancehall.

Idealizadora do Dancehall Brazil Weekend, ao lado do sócio Thiago Spósito, evento que reuniu mais de 80 participantes e alunos de todo o país com professores nacionais. Artista influente na cena das danças urbanas de Goiânia, Mare Rela já ministrou aulas em escolas conceituadas de outras cidades, bem como em alguns eventos importantes da cena Dancehall no país.

DJ Sapo

DJ_Sapo (3)Além de DJ, Weberth Firmino dos Santos Araújo, mais conhecido como DJ Sapo, também é dançarino desde 2011, quando teve seu primeiro contato com as danças urbanas por meio do Locking. Em seguida, conheceu o Breaking e fundou, a partir desta nova paixão, a Apocalipse Crew e o grupo Cyphers Clan. Hoje, a Cyphers Clan tornou-se um coletivo cultural, com dançarinos, DJs e MCs. Na sua formação artística, priorizou cursos nas áreas de produção de eventos e arte-educação, atuando em centros de reintegração social e casas de recuperação. Atualmente, integra o coletivo de DJs chamado Risquad Crew, formado por DJs das danças urbanas de Brasília. Também participa do coletivo House of Hands Up, constituído por dançarinos de Vogue.

DJ Sapo foi o idealizador do Breaking Down, evento de danças urbanas que reuniu em 2013, em Brasília, dançarinos locais e de vários outros estados. Já tocou em grandes e tradicionais eventos de cultura urbana, tais como: Boom Bap, Festa Melanina, Batalha No Topo (Franca-SP), Eliminatória Quando As Ruas Chamam Etapa Brasília, Raw Circles Eliminatória Brasil, Makossa Baile Black, Batekoo, Jam No Museu, Yo Music, Breaking Na Praça, Rolê Bboyz (GO), Red Bull Bc One Cyphers Brasília, Pick Nick, Noite No Museu Com Basquiat (CCBB-DF).

 

Regulamento Batalha All Styles

Com um formato inovador, que remete aos concursos de Dancehall Queen, na Jamaica, e outros grandes campeonatos de dança norte-americanos, a batalha de dança All Styles nas três cidades contará com rodadas que misturam improviso e coreografia. Serão abertas para dançarinos ou dançarinas de qualquer estilo. Os/as jurados/as darão uma nota de 1 a 10 nas seguintes categorias: Originalidade, versatilidade, engajamento do público, desempenho/personalidade, musicalidade e expressividade.

Confira abaixo as regras:

1 – Cada dançarino/a vai se apresentar, falar sobre si, sua experiência com a dança, estilo que se especializou. Essa etapa será julgada a confiança do/a candidato/a. Essa etapa não é eliminatória e valerá 5 pontos

2 – Round 1 – Improviso: cada dançarino/a vai dançar por 1 minuto à música imprevisível que o DJ tocar. Essa etapa é eliminatória e valerá 10 pontos. Quem tirar menos do que 5 pontos será eliminado.

3 – O gênero musical vai mudar a cada rodada e pode ser variar entre qualquer gênero, como: rap, pop, dancehall, afro, break beats, funk, eletrônica, house music, etc.

4 – Durante as rodadas preliminares, o DJ vai tocar uma música. Ou seja, todos/as vão dançar à mesma música, a fim de mostrar sua personalidade e técnica.

5 – O Round 2 será uma rodada de coreografias. AS MÚSICAS QUE SERÃO USADAS DEVEM SER ENVIADAS PELO MENOS 3 DIAS ANTES DA COMPETIÇÃO. Esta rodada será de 1 minuto e 30 segundos por dançarino/a.

6 – Os/as jurados/as darão uma nota de 1 a 10 nas seguintes categorias: Originalidade, versatilidade, engajamento do público, desempenho/personalidade, musicalidade e expressividade.

7 – A cada round de 2 a 5 dançarinos/as (dependendo do número total de competidores/as) será eliminado baseado nas notas mais baixas. Na última rodada os/as últimos/as dois/duas vão se enfrentar, mas não no estilo de uma batalha 1×1, e sim, de frente para o público e os/as jurados/as.

8 – O/a dançarino/a com a maior nota vai ganhar um troféu. O/a dançarino/a com a maior nota entre Brasília, Rio e São Paulo vai ganhar o título de Queen ou King of Dance Brasil e voará para a Jamaica para representar seu país na final global.

Qualquer dúvida sobre os critérios poderá ser solucionada por e-mail no endereço: kqd@wanmovediaspora.com

Batalha de dança em Ceilândia pode levar dançarinos com tudo pago para Jamaica

Wan Move Battles promove workshop e batalha para levantar recursos

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No dia 11 de agosto, a partir das 14h, Ceilândia receberá o Wan Move Battles Brazil. O evento, que acontece também em São Paulo e no Rio de Janeiro, em Brasília será realizado no Jovem de Expressão, na Praça do Cidadão, e vai oferecer três aulas de dança – Breaking, com BGirl Prix, Danças Afro, com Nãnan Matos, e Dancehall com Kim Weezy, diretamente da Jamaica. Após as três aulas acontecerá uma batalha All Styles, e o vencedor ou a vencedora concorrerá, juntamente com os/as vencedores/as das outras cidades, a uma viagem com tudo pago para o Wan Move Diaspora – evento inédito que reunirá danças de matriz afro do mundo todo em novembro, na Jamaica.

O processo para escolha do/a vencedor/a vai funcionar por notas, dadas pelas juradas. Quem tiver a melhor nota entre os/as três que ganharam nas cidades (Brasília, Rio e São Paulo), vai para Jamaica com tudo pago.

O Wan Move Battles tem por objetivo levantar recursos para levar dançarinos/as em situação de vulnerabilidade social para a Jamaica, e lá disputar com dançarinos/as de todo o mundo o título de “Global King and Queen of Dance” (Rei e Rainha da Dança Global, em tradução livre).

O pacote com as três aulas custarão R$80 e a participação na batalha, R$10 (valores antecipados). No dia do evento, custarão R$100 e R$15, respectivamente. Para se inscrever na batalha é preciso enviar nome completo, telefone e redes sociais para o e-mail kqd@wanmovediaspora.com, juntamente com o comprovante de pagamento por depósito bancário.

A proposta é realizar os eventos em espaços culturais alternativos no Brasil, a fim de fortalecer prioritariamente a juventude negra e periférica dessas cidades, e levar pessoas que estejam comprometidas com as danças tradicionais e urbanas de origem negra (tais como Hip Hop, House, Vogue, Passinho, Dancehall, Kuduro, Afro House, entre outras).

Workshops Brasília

kimweezyKim Weezy – Jamaica – Dancehall

Kimberly Ashley Hyman, mais conhecida como Kim Weezy tem 28 anos e começou a dançar aos quatro, estudando ballet. Já adolescente, entrou para o programa da Edna Manley School of Dance, depois de sair do ensino médio, terminou seus estudos na Edna Manley School of the Visual and Performing Arts, Escola de Dança, conquistando seu diploma em Dança Teatro e Produção. Então levou sua dança para outro nível: começou a focar no Dancehall, estilo no qual trabalhou com Konshens for mais de 10 anos gravando vídeos, saindo em turnê pelas ilhas caribenhas e coordenando a performance no palco. Também trabalhou como dançarina de muitos artistas locais e internacionais como Drake, Beenie Man, Elephant Man, Movado, Vybz Kartel, Mya, Spice, Gnarls Barkley apenas para listar alguns. Trabalhou também na cobertura do único programa de TV jamaicano sobre dança, o Dancin Dynamites, competição que durou 13 semanas na TV Land. Kim criou três passos de dança femininos que viralizaram e são sucesso entre as mulheres por oito anos e seguem sendo, chamados: Boom Whine, WEEZY Whine e Ketch a fyah.

Foto: Tatiana Reis FotografiaNãnan Matos – Danças Afro

Nãnan Matos é uma cantora, dançarina e arte-educadora brasiliense que desenvolve trabalhos de pesquisas e práticas musicais há 10 anos no Distrito Federal. Sua experiência e formação artística a fez especializar-se em música tradicional africana e afro-brasileira. Nãnan Matos, após 6 anos de formação na Escola de Música de Brasília, já iniciou centenas de alunos na prática de instrumentos tradicionais da África, como djembês e dununs, além de ter realizado importantes trabalhos performáticos de propagação da cultura africana. Dá aulas de percussão e dança tradicional do oeste africano e participou do último The Voice, da TV Globo. Já se apresentou em grandes festivais e em vários estados brasileiros.

Breaking_BGirl_Prix_Judge (02)BGirl Prix – Breaking

Professora de dança e DJ, Priscila Paixão, a BGirl Prix, já tem 10 anos de carreira, e integra há quatro o BSB Girls – Brasil Stylers B.Girls, coletivo pioneiro de mulheres no Breaking em Brasília. Já foi a vencedora de diversos e prêmios e batalhas locais e nacionais, para citar alguns exemplos: Quando as Ruas Chamam (Voto Popular), 10°Campinas Street Dance Festival/ Batlle of the year Brasil 1vs1 e o Rota Convida 2010- Competição de Street Dance nível Profissional. Já trabalhou com nomes como GOG, Markão Aborígene e participou de competições e cursos internacionais.

Batalha

A batalha All Styles, ou seja, que contempla e acolhe todos os estilos de dança, vai começar às 19h. Além de Kim Weezy, teremos outras três juradas. Saiba mais sobre elas:

Valeria_Assunção_Judge

Valéria Assunção
Coreógrafa dos grupos Studio Under7 base, senior e adulto, com os quais já ganhou prêmios em importantes festivais locais e nacionais de danças urbanas, Valéria Assunção é proprietária do Studio Under7 (Águas Claras) e do Bar Under Seven Store – ponto de encontro e convivência dos artistas da Cultura Urbana do Distrito Federal. Já integrou grupos nacionalmente renomados como o Rota Brasil e o Tekamul. Também ministra aulas de Hip Hop em escolas e em seu próprio studio.

 

Eduard_Kon_Zion_Judge (03)

Eduard Kon Zion
Brasileira trans não-binária nascida em Brasília, Eduard Kon Zion iniciou seus estudos em danças urbana cedo, com o Breaking, em seguida com a dança clássica. Retornando às danças urbanas, já dançou e coreografou trabalhos utilizando Hip Hop, Street Jazz, Waacking, Voguing, Contemporâneo, Video dance, tendo essas estéticas presentes em campeonatos e apresentações nos grupos de danças de que já participou. Hoje representante condecorado do Brasil da House Of Zion de Nova York – casa que aplica e estuda a cultura Vogue na comunidade afro-latina criada por Pony Zion, coreógrafo do primeiro grupo de Voguing (Vogue Evolution) a apresentar no programa America’s Best Dance Crew .

A dança é sua linha de estudo artístico, mas Kon também é hoster, comentator, MC , Chanter das BallRoom’s (Batalhas de Voguing) e está ajudando cada vez mais e mais a crescer esta cena no Brasil, tornando se uma referência nacional e internacional, com workshops ministrados em locais como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, e, recentemente, no Chile. Kon se aprofunda nos estudos de danças performáticas utilizando de referências das mais variadas nomenclaturas existentes e de todo o vocabulário que adquiriu e continua adquirindo ao estudar Brasil a fora.

Mare_Rela_Judge (01)Mare Rela
Mariana Filgueira Rela, mais conhecida como Mare Rela, iniciou como estudante de Danças Urbanas no Studio Dançarte em 2009. Desde então participou de cursos e workshops por todo o país e em outros países, estudando em escolas conceituadas como: Studio MRG (Paris – FR); L.A.X Studio (Paris – FR); Dany Studio (Nova Iorque – NY); Studio Latino (Montpellier). Em 2013 iniciou a carreira como professora de Dancehall e Danças Urbanas do Studio Dançarte. Em 2014, participou do festival de Dancehall mais conceituado do mundo, em sua edição na América Latina: O Big Up Kemp Argentina. Foi vencedora da batalha 2×2 ao lado de Camila Leão, obteve destaque como uma das representantes brasileiras do Dancehall.

Idealizadora do evento nacional Dancehall Brazil Weekend, ao lado do sócio Thiago Spósito, evento que reuniu mais de 80 participantes e alunos de todo o país com professores nacionais. Artista influente na cena das danças urbanas de Goiânia, Mare Rela já ministrou aulas em escolas conceituadas de outras cidades, bem como em alguns eventos importantes da cena Dancehall no país.

DJ_Sapo (3)O DJ da batalha será DJ Sapo, que também é dançarino, desde 2011, quando teve seu primeiro contato com as danças urbanas por meio do Locking. Em seguida, conheceu o Breaking e fundou, a partir desta nova paixão, a Apocalipse Crew e o grupo Cyphers Clan. Hoje, a Cyphers Clan tornou-se um coletivo cultural, com dançarinos e dançarinas, DJs e MC. Idealizou e realizou em Brasília o evento de danças urbanas Breaking Down, que reuniu dançarinos/as locais e de outros estados. Focou nos cursos de produção de eventos e na arte-educação, atuando em centros de reintegração social e casas de recuperação. Integra o coletivo de DJs chamado Risquad Crew, formado por DJs integrantes das danças urbanas de Brasília. Integra também o coletivo House of Hands Up, constituído por dançarinos/as de Vogue.

Já tocou em grandes e tradicionais eventos de cultura urbana, tais como: Boom Bap, Festa Melanina, Batalha No Topo (Franca-SP), Eliminatória Quando As Ruas Chamam Etapa Brasília, Raw Circles Eliminatória Brasil, Makossa Baile Black, Batekoo, Jam No Museu, Yo Music, Breaking Na Praça, Rolê Bboyz (GO), Red Bull Bc One Cyphers Brasília, Pick Nick, Noite No Museu Com Basquiat (CCCBB-DF), dentre outros eventos locais e fora de Brasília.

O Wan Move Diaspora

O Wan Move Diapora é um congresso que reunirá mais de 50 danças tradicionais e urbanas de origem e matriz afro de todo o mundo, sejam elas diretamente do continente africano ou da diáspora, ou seja, da comunidade africana espalhada pelo globo. Entre os dias 26 de novembro e 02 de dezembro de 2018, representantes de danças de 23 países ministrarão aulas no Edna Manley College of Visual and Performing Arts, em Kingston, capital da Jamaica.

O nome remete à forma de dizer “One Move” – um movimento, representando a semelhança entre as manifestações culturais de origem africana que se espalharam pela diáspora, criando diversas expressões culturais mas, ainda assim, simbolizando uma unidade enquanto povo.

Serão oito dias de imersão completa na dança afro-diaspórica, com mais de 50 professores/as que são pioneiros/as ou grandes representantes dos mais de 50 gêneros que serão ministrados. Além disso, ainda serão realizadas performances, painéis e debates sobre temas relevantes para a dança de origem afro, a fim de qualificar a participação e o retorno dos/as participantes para seus países.

Há diretores regionais em 27 países para organizar os grupos para ir ao evento. No Brasil, a diretora regional é Carolina Newmann, que poderá passar mais informações sobre a ida para a Jamaica. O pacote para participar do evento é all inclusive, ou seja, com tudo incluso: passagens, visto, hospedagem, refeições (café da manhã, almoço e jantar), traslado e a participação na conferência. Também acontecerão festas, passeios e a batalha Global King and Queen of Dance, que premiará com 5 mil dólares e mais um ano de contrato a pessoa que vencer. As batalhas em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo serão seletivas para essa batalha maior que acontecerá na Jamaica.

Para mais informações, basta acessar o site www.wanmovediaspora.com/. Ou entrar em contato diretamente com Carolina Newmann pelo telefone: (61) 3202-1255.

Arte engajada – vídeos sobre Marielle Franco

Por acreditar que não existe arte separada do contexto social em que está inserida, a organização do Wan Move Diaspora se mobilizou nas redes sociais após o assassinato da vereadora Marielle Franco no dia 14 de março de 2018. Foi lançado um concurso mundial de vídeos que se manifestassem artisticamente contra a injustiça e o racismo que este crime representa, e o melhor vídeo ganharia a viagem com tudo pago. O vencedor do concurso foi o mineiro Marcelo Mendes, que vai participar do evento junto com as outras quatro pessoas que participaram da coreografia.

A proposta das batalhas em espaços nas periferias das grandes cidades surgiu também como resposta a este crime bárbaro, pois compreendeu-se que a arte precisa ser uma forma de questionar as estruturas sociais e de recuperar este sentido original de muitas das danças urbanas criadas pela comunidade negra.

Em Brasília, o projeto Jovem de Expressão ganhou bolsas para que cinco jovens do projeto possam participar dos workshops e da batalha de graça, a fim de que possam também se envolver com a proposta do evento e concorrer à viagem.

Serviço

Wan Move Battles – Brasília

Dia 11 de agosto de 2018, a partir das 14h

Local: Jovem de Expressão – EQNM 18/20, Praça do Cidadão em Ceilândia Norte

Preços

Workshops – R$80 antecipado / R$100 no local

Inscrição na batalha – R$10 antecipado / R$15 no local

Dados bancários para o depósito:

Banco do Brasil
Agência 1003-0
Conta Corrente 17.424-6
Anna Caroline Newman dos Santos Zica

Enviar comprovante de pagamento, nome completo e redes sociais para: kqd@wanmovediaspora.com

Programação

14h – Danças Afro – Nãnan Matos

15 – Breaking – Bgirl Prix

16h – Dancehall – Kim Weezy

19h – Batalha All Styles

Mais informações: Joceline Gomes: (61) 98132-4082

Pantera Negra e o Mulherismo Africana

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*Joceline Gomes

Pantera Negra. Um super-herói criado na década de 1960 e transportado para os cinemas, como filme solo, apenas em 2018. Mas veio em boa hora e em boas mãos. Pantera Negra inaugurou um novo momento de visibilidade e representatividade. Com um elenco praticamente todo formado por pessoas negras, incluindo até os dublês, o filme alcançou bilheterias estratosféricas, e esta mesma que vos fala foi ao cinema três vezes, coisa que não faço desde que a meia era 4 reais. Aí você me fala: mas Joceline, como assim Pantera Negra, você prometeu que ia falar sobre as correntes teóricas além do feminismo para abordar as especificidades das mulheres negras. E eu vou. Parece que não mas Pantera Negra facilitou e muito o meu trabalho. Porque trouxe imagens. E você sabe que uma imagem, ainda mais de Hollywood, vale mais que três textos.

Então vamos lá, vamos falar sobre minha corrente teórica favorita, que não é apenas um conceito, é uma também uma proposição política: o Mulherismo Africana. Sintetizando, como num Tweet, os três princípios básicos do Mulherismo Africana são: matriarcado (mulheres como centro da comunidade), pan-africanismo (negros são africanos, do continente ou da diáspora, porque fomos tirados de lá por sequestro) e afrocentricidade (de, por e para negros, blackmoney, por exemplo). Esses três princípios estão lá, em Pantera Negra. Aqui um parênteses: o “a” no final de “Africana”, não é de feminino, é de plural, para lembrar que existem diversas “Áfricas”.

SPOILER ALERT

daqui pra frente. Mas se você quer ver o filme com outros olhos, prossiga. Não importa o que eu te diga sobre o filme, o que vale é tudo que ele representa e a experiência de ver tudo isso que vou escrever aqui se materializando na sua frente. Vá ver.

Matriarcado

O papel das mulheres em Pantera Negra são fundamentais para a trama. O herói é homem, mas sem as mulheres ele não toma nenhuma decisão. Isso é o matriarcado. A mulher é a figura central de sua comunidade, sendo respeitada, reverenciada e ouvida, pois ela conhece melhor os anseios e necessidades de cada um, sendo a responsável por pensar as estratégias para melhorar a vida do seu povo. Isso fica evidente em cada personagem feminina que cerca o herói: seja a líder do exército de mulheres Okoye, a irmã cientista afrofuturista Shuri, a espiã do mundo exterior (e quase rainha) Nakia, ou a rainha-mãe ponderada e sábia Ramonda. Todas procuram, juntas, e da sua forma, melhorar a vida de todos, salvando a vida do rei e de todo o povo de Wakanda de diferentes formas e em diversas ocasiões.

Nakia propõe, inclusive, compartilhar todo o conhecimento e tecnologia de Wakanda para melhorar a vida da população em todo o mundo, e diminuir com isso as desigualdades e o sofrimento delas decorrente. Seu senso de justiça social, econômica e intelectual mostra que é uma verdadeira rainha, preocupada com o bem estar de todos.

Afinal, enquanto todos não formos livres, ninguém será, correto? Matriarcado é isso. Não há superiores ou inferiores.

Homens e mulheres trabalham juntos, horizontalmente, em prol de um povo que precisa ser orientado, cuidado, liderado para um bem maior e coletivo.

Nah Dove, em sua obra “Mulherisma Africana: Uma teoria afrocêntrica” (1998) explica que o matriarcado estabelece uma relação de complementariedade entre o masculino e o feminino, não há hierarquias e ambos trabalham juntos pela organização social, porém, “a mulher é reverenciada em seu papel como a mãe, quem é a portadora da vida, a condutora para a regeneração espiritual dos antepassados, a portadora da cultura, e o centro da organização social” (1998:08).

Sobre este ponto, há pessoas que argumentam que o Mulherismo Africana é uma teoria que reforça o machismo ou que relega às mulheres o papel de mãe e dona de casa, ou ainda que as mulheres exerciam um poder econômico e social opressor ao homem. Dove, utilizando a definição de Cheikh Anta Diop (1959/1990) para o matriarcado, explica que este sistema é baseado “em relações de reciprocidade, complementares, e, portanto, não hierárquicas, não sugere que as mulheres estavam em um tempo de superioridade aos homens”, muito menos que estivessem fazendo atividades domésticas por obrigação ou por imposição destes. Ao contrário, como afirma Diop (1959/1990 apud Dove 1998) um “regime matriarcal, longe de ser imposto ao homem por circunstâncias independentes da sua vontade, é aceito e defendido por ele”. Ainda assim, é importante ressaltar que apesar dessa complementaridade entre homens e mulheres no Mulherismo Africana, essa unidade não significa que não haja assimetrias ou diferenças, pois homens e mulheres ocupam papeis sociais diferentes, ou seja, esta unidade é heterogênea.

Um detalhe que gostaria que você, que ainda não assistiu ou pretende assistir de novo, prestasse atenção é: Ramonda, a rainha-mãe, passa grande parte do filme com turbantes ma-ra-vi-golds. Porém, quando T’Challa morre, a próxima cena da rainha-mãe é sem turbante. Não se trata apenas de um “pano na cabeça”. É coroa. É nesses detalhes que você percebe que a galera não está pra brincadeira. Representatividade é importante, e não deve ser feita de qualquer jeito.

As referências à ancestralidade também são emocionantes, e nos reconectam com quem somos.

Pan-africanismo

Em determinado momento do filme, o “vilão” (as aspas são por minha conta, porque me identifiquei com ele em vários aspectos) Killmonger fala: mas a vida não começou aqui em Wakanda(=África)? Somos todos daqui. O pan-africanismo é, resumidamente, saber que se estamos no Brasil hoje é porque nossos ancestrais foram sequestrados de África e trazidos escravizados para cá. Assim como grande parte da população negra nas Américas. Logo, somos todos africanos, do continente ou da diáspora.

De acordo com Gilza Marques (2016), o pan-africanismo é a plataforma política do Mulherismo Africana. Para ela, afirmar-se pan-africanista “significa dizer que povos pretos do continente e da diáspora devem lutar unidos pela libertação, é reconhecer que toda pessoa preta é africana e que a opressão racial se expressa de maneira semelhante em qualquer lugar do mundo onde uma pessoa preta esteja” (2016). De acordo com a autora, o Brasil é uma “invenção europeia” que sempre considerou a população negra como “cidadãos de segunda classe exatamente devido a nossa origem africana”.

Nah Dove usa o termo “Africano” para definir não apenas os nascidos no continente, mas também os descendentes de sua diáspora, “porque há uma crença de que nós, apesar de nossas experiências diferentes, estamos ligados à nossa memória cultural e espiritualidade Africana e podemos a qualquer momento nos tornarmos conscientes de sua importância para nossa Africanidade e futuro” (1998:04).

A autora destaca ainda que o Mulherismo Africana é uma teoria central para “a construção da visão de mundo Africana”, reforçando o conceito de que tráfico de pessoas escravizadas foi o responsável por tirar a população negra da África, mas que isso não tirou os elementos culturais, espirituais e individuais de homens e mulheres negros que, mesmo fora do continente, não podem negar sua origem africana.

Afrocentricidade

De preto, pra preto, por preto. Nós por nós. Black Money (negros comprando de afroempreendedores). São exemplos de afrocentricidade, que é o caminho para o pan-africanismo. É saber que operamos em coletivo, e que por isso é importante buscar um referencial africano, pois fazemos parte de um povo africano, independentemente de onde estivermos. Se somos segregados individualmente, precisamos reagir em grupo. Busque suas referências negras.

Pantera Negra acaba de se tornar uma. Seja você também uma para as pessoas a sua volta. Estude, pesquise, leia sobre a História da África e você vai entender sobre sua própria história. O final do filme é a coroa da afrocentricidade: Nós por nós, cuidando do nosso povo. Vamos nos educar, nos informar, capacitar e qualificar os nossos para que possamos nos emancipar, em conjunto, por meio da educação. Não dá pra resolver tudo com educação, mas esse é o caminho do autoconhecimento. E uma pessoa que se conhece, controla o que quer que seja, né?

Tendo tudo isso dito, Pantera Negra é ancestralidade. É matriarcado. É pan-africanismo. É afrocentricidade. É um movimento, que só começou. Aumentou e muito os padrões de filmes de representatividade negra, e não apenas de super-herói. Agora vai ser difícil fazer qualquer coisa de qualquer jeito. É um marco. Wakanda Forever.

P.S: Eu sei que o dinheiro continua indo pros super produtores brancos. Eu sei que é só um filme. Mas representatividade importa. E eu sei que você sabe disso também.

 

*Joceline Gomes é jornalista, dançarina, e também colunista da Rádio Eixo, onde esse texto foi publicado originalmente. Era #TeamKillmonger mas virou #TeamNakia graças a debates com pessoas muito inteligentes no Twitter.

 

Referências

MARQUES, Gilza. 10 tópicos sobre Mulherismo Africana (para escurecer o pensamento). 24 mar 2016. In: Pensamentos Mulheristas. Disponível em: < https://pensamentosmulheristas.wordpress.com/2016/03/24/10-topicos-sobre-mulherismo-africana-para-escurecer-o-pensamento/ >. Acesso em: 11 abril 2016.

DOVE, Nah. Mulherisma Africana: Uma teoria afrocêntrica. In: Jornal de Estudos Negros. Vol. 28. № 5. Maio 1998. 515-539. Disponível em: < https://estahorareall.files.wordpress.com/2015/11/mulherisma-africana-uma-teoria-afrocecc82ntrica-nah-dove.pdf >. Acesso em: 13 abril 2016.

 

Aprenda: preto é uma palavra linda e não ofende ninguém*

pretos

*Basília Rodrigues

Cento e vinte e nove anos desde o fim da escravidão e ainda é preciso explicar que a defesa de negros e negras não tem nada a ver com vitimização. Para piorar, o racismo velado anda perdendo espaço para a falta de vergonha na cara de quem molda seu jeito de ser de acordo com a cor da pele das pessoas. Com alguns, sorrisos; com outros, racismo. É como aquele sujeito que anda na festa entre amigos, sorridente e comum, mas, ao se referir a uma mulher negra, agride.

No início do mês, isso aconteceu comigo. Estava em um evento de jornalistas. E, ao ouvir que eu era repórter, um rapaz quis confirmar a minha profissão e se eu era negra. Pois é, ele me olhou e perguntou isso frente a frente.

As duas palavras em uma mesma frase não foram suficientemente plausíveis para aquele rapaz, que, afundado bem mais do que em copos de uísque, partiu para uma provocação inegável: sou negra.

Em seguida, o homem disse: “Não sei se você pode conversar comigo”. Explicou que certo candidato à Presidência da República tem restrições a pessoas negras. “Posso conversar com você? Vou votar nele e ele não deixa”, afirma.

Inconveniente, o eleitor/racista/bêbado é convidado a se retirar, mas pede para ficar porque estava “dando em cima da preta”. E eu respondi prontamente: “Ser chamada de preta não me ofende”. Uma pessoa que testemunhou a conversa, assim como eu, se sentiu transportada para alguma cena do passado em pleno 2017. Seu discurso e sua presença não cabiam mais naquela mesa, nem no presente.

Não há nada mais sintomático sobre preconceito do que associar certos tipos de profissão a certos tipos de pessoas e tons de pele. É surpreendente ver como o inconformismo pode se revelar do nada – ele não se aguenta mais velado.”
Torço para que mais negros se afirmem como são e protejam sua autoestima, sem perder a leveza da vida. Venho aqui hoje escrever isso: não saia da mesa, encare. “Preta” é uma das palavras mais lindas que eu já ouvi, mas é mal colocada. Aprenda: esse termo não ofende e nunca mais alguém irá usá-lo na tentativa de ofender.

*Basilia Rodrigues é repórter da CBN há quase 10 anos. Editora da Revista Evoke, que circula em Brasília. Colabora com os sites Congresso em Foco e Jota. Formada pelo Uniceub, em Jornalismo, cursa especialização em Historia, Sociedade e Cidadania.