Homem Negro chora sim

Sobre falar de nós em primeira pessoa. Deixar o coração guiar. Exemplos positivos na mídia. Babu Santana e amor entre nós pretos

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Vinicius Dias*

Babu Santana tem mostrado pra diversos homens negros que é possível chorar, ouvir e até se relacionar estrategicamente com os brancos. “Estrategicamente”, pois depois que você tem consciência negra, descobre que as relações interraciais reproduzem partículas da estrutura racista (do mundo) nos espaços privados. As relações são complexas e a gente vê de tudo. É necessário cuidado para além do “pode” e “não pode”.

Mas eu não quero ser técnico. Quero ser coração. Este é o chamamento de Babu Santana pra mim. Babu é um homem negro, gordo, favelado, e não tem os chamados “traços finos” que impuseram a nós como tentativa de nos autorizar a ser um negro dentro do padrão aceitável branco. Babu estaria nos arranjos empoderantes que usamos como malabares para nos salvar e nos acarinhar, como um Soba estaria para uma comunidade do interior Angolano que resiste ao cristianismo imposto em quase toda África. Parece distante nossas comparações com África, mas diante do esfacelamento subjetivo que fizeram com as famílias pretas, tenho em África mananciais de respiro para novas práticas sociais e comunitárias no Brasil. E estão aqui no Brasil aspectos preservados que em África já não existem mais. Tá vendo como a parada é complexa? Mas é assim mesmo, quem acha que Exú é diabo não entendeu nada. Exú é… Complexo!

Não acompanho o BBB, me interesso pelos pequenos vídeos que a galera do Twitter posta. Hoje chorei junto com ele ouvindo “Azul da cor do mar”, de Tim Maia. Outro homem preto que sempre tentam pejorativar sua existência.

Nós, homens negros, sabemos das angústias que passamos calados no canto escuro desde a época do primário, sabemos do horror à polícia de madrugada, sabemos do que é ficar com alguém que você sabe que não é fechamento e sabemos de muitas coisas que nosso corpo denuncia. Não somos santos. Acho que ninguém é! Gostamos de sexo, gostam de sexo com a gente. Estamos aí, no mundão, interagindo. Sendo bons e ruins. Mas temos um imaginário que dificilmente nos colocará no lugar do chefe de família, sensível, inteligente, romântico. Nossas histórias são geralmente contadas por outros e outras que falam mal, nos ridicularizam. Veja na história: Garrincha, Simonal, Netinho, Mussum, Tião Macalé. Quase todos tem uma história que não passa pela sensibilidade e prestígio social. E mesmo quando “lá vem o negão cheio de paixão” na real ele só queria “pegar todas as menininhas”

Volto a dizer: não existe santo nesta história. Mas a repetição de pejorativismo para o homem negro parece nos deixar sem a possibilidade de justificativas e conversas honestas que queiram construir relações menos violentas. Alguns de nós também não tá mais pra conversa. Diante da necessidade do outro/a ter razão, a gente faz aquilo que sabe bem: se recolhe e tenta arrumar motivos pra ser feliz.

Depois de todo este desabafo, Babu me fez chorar várias vezes. Foi lindo ver aquele cara grande que sempre faz papel de bandido nos filmes girando sem rumo e chorando ao som de Tim Maia. Me lembrou de tantos choros engolidos que eu tive, de tanta fraqueza que camuflei fingindo ser forte, me lembrou de tantos “eu te amo” que não falei, me lembrou da dificuldade de receber carinho de alguém e da incapacidade de argumentar alguma coisa soltando um grito.

Me lembrou de tanta confusão no travesseiro, cabeça que girava e tentava me cobrar como ser homem “direito” baseado nos homens brancos. A solidão acompanhado do álcool nas veias, voltando pra casa sozinho enquanto os amigos brancos iam pro motel fuder. Hoje, com um grupo de homens negros, nos esforçamos para morar em exemplos mais positivos do que é ser um homem negro, e Babu Santana nos ajuda de alguma forma. Temos muitos exemplos, mas como não nos foi ensinado, fazemos nosso trabalho de base indo atrás deles, juntos, se ajudando em roda, almoçando junto, nos abraçando, e deixando o corpo girar e as lágrimas cairem quando for preciso…

 

*Vinicius Dias é Psicólogo e aprendeu a chorar.

Corpo Negro em Movimento

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Jô Gomes e Luiz Igba*

A oficina Corpo Negro em Movimento, realizada no último dia 22 de agosto em parceria entre Jô Gomes e Luiz Igba, mobilizou energias e ancestralidades no restaurante africano Simbaz. Um espaço simbólico para este encontro diaspórico África-Brasil, Paraíba-Distrito Federal, masculino-feminino. A complementaridade da troca, dos saberes e fazeres adquiridos em trajetória diferentes, porém, semelhantes, porque dentro da maafa brasileira, possibilitou duas horas de conhecimentos teóricos e práticos acerca desse corpo negro que se coloca em movimento. A dança africana, afro-brasileira, diaspórica, tradicional manifesta uma inquietação e uma resistência ao mesmo tempo em que resgata o prazer de apenas ser o que se é: a dança e o corpo em sua máxima potência.

A intenção da oficina foi a busca de uma melhor e mais ampla comunicação, reestruturação e fortalecimento corporal, entendendo que esses anseios só poderão ser saciados buscando teorias e práticas do continente africano, por ser matriarcal, ancestral e por ser o lugar onde nossa corporeidade está inteiramente ligada, pois foi em África onde tudo foi criado e pensado por nós e para nós.

“Sabemos que a raça humana originou-se na África e que essa raça como já expus em outros trabalhos meus era profundamente pigmentada ou de pele preta: nenhum cientista sério contestaria isso hoje.” – Cheikh Anta Diop (Coleção Pensamento Preto, vol.3).

As danças apresentadas durante a oficina trouxeram dezenas de significados que transitam desde o matriarcado, passando por festejos ritualísticos, o trabalho com o Aiyê (terra – como plantar e colher) e com o omi (água – através de movimentos que representam o banho e pesca, por exemplo), chegando até mesmo às danças africanas urbanas. Trata-se de movimentos corporais que por vezes são potentes e exigem uma maior agilidade e por outras se transformam em movimentos sutis, porém, ambos são geradores de energias circulares que nos fazem sentir toda a totalidade do que somos em sintonia com as forças da natureza, gerando uma reconexão do corpo, seu fortalecimento e melhor comunicação. Tudo isso torna o nosso corpo um receptor e emissor de energia surpreendente.

Como Marimba Ani nos diz, precisamos partir da visão de mundo africana e de como ela funciona:

“O conceito africano do universo é de totalidade espiritual, onde tudo está interrelacionado. Isso só significa que o que é enfatizado não é só espírito, mas conectividade e que nós nos concebemos, ou melhor, vivemos como seres espirituais… praticamente, como seres cósmicos; e com isso eu quero dizer que estamos conectados com a natureza, de tal maneira que é daí que encontramos as nossas definições de força. Então, para nós, ter poder significa ter energia para realizar, para fazer as coisas acontecerem, energizarmos uns aos outros; a relação entre o espírito e a matéria é de conexão, em que a realidade material é entendida como manifestação do espírito. Nada além disso.” – Marimba Ani (Coleção Pensamento Preto, vol.3).

O trabalho de articular danças afro e matriarcado ganhou novos elementos a partir da oficina, pois confirmou a importância da complementaridade e da harmonia entre masculino e feminino – mistura presente na natureza e também na dança. A própria dinâmica da oficina, em que revezamos séries de movimentações, auxiliaram a compreensão de que a dança é uma tecnologia do corpo e que os corpos masculinos e femininos são parte de algo maior, mas que estão nessa trajetória juntos. Homens e mulheres manifestando-se com liberdade de movimento, de corpo. Enquanto todos não estiverem livres, ninguém será livre.

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Quando falamos de matriarcado, não estamos falando de sexo biológico, gênero ou locais pré-estabelecidos, falamos de uma função social, comunitária, desempenhada por alguém com uma capacidade de gerar e nutrir – pessoas, sonhos, projetos, movimentos. A oficina conseguiu mostrar como a soma desses corpos e energias no âmbito micro pode representar a verdadeira emancipação dos corpos e do povo preto num sentido macro. Afinal, um corpo livre, autodominado e autodeterminado é um corpo e um ser indomável por fatores externos.

Tudo contém e está contido no corpo – alma, mente, espírito, o que nomear – tudo é corpo, e um corpo negro contém, para além de todos esses elementos, uma história de sobrevivência atrelada a muita luta. Mas não fomos feitos apenas para a luta. Somos feitos da e para a grandeza. O povo preto foi o primeiro a pisar e pensar essa terra que habitamos. Foi o responsável por criar e desenvolver tudo que conhecemos: arquitetura, engenharia, química, física, biologia, astronomia, matemática e DANÇA. As movimentações amplas, rápidas, sinuosas, circulares, em deslocamento contam uma história de um povo que atravessou crises múltiplas e é atravessado por opressões seculares, mas que mesmo assim não se dissociou dessa grandeza de que é feito.

“Tempos difíceis exigem danças furiosas” diria Alice Walker. No centro de Brasília, coração da falsa democracia, fizemos uma dança não necessariamente furiosa, mas intensa e transbordante. A seca da cidade adoece, mas o corpo que dança não padece completamente, porque dança, porque se transmuta e permite a transcendência. Mesmo corpos tão diferentes e diversos quanto das mulheres participantes se permitiram o desafio de se atirar ao som da percussão. O corpo negro em movimento mobiliza e articula outros corpos, trajetórias, fazeres e saberes.

É possível falar em dança furiosa quando partimos do legítimo ódio instaurado por seculares opressões. Mas não foram elas a força motriz do encontro, nem dessa dança. Um corpo negro que se coloca em movimento leva outros consigo e transforma a energia do espaço e das pessoas em algo poderoso. Poder – essa é a força que move a dança. Acreditamos que todas as participantes sentiram-se mais poderosas ao deixar o espaço, sabendo toda a potência do seu corpo e do seu movimento. Ao final da oficina, já com os corpos bem energizados e trabalhados, fizemos um momento de relaxamento em duplas, permitindo que um(a) tocasse e energizasse o outro corpo, um de cada vez, começando pelos pés até a cabeça. Essa energia trocada e retrabalhada também é fonte de poder. O encerramento foi uma roda de conversa, um momento de partilha, de troca dos conhecimentos aprendidos.

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Nos resta a gratidão a todas que participaram, ao Simbaz por ceder gentilmente essa casa da cultura africana para esse evento, e a Luiz Igba e Jô Gomes por serem esse canal para um encontro diaspórico tão potente. O corpo negro permanece em movimento pelo Brasil, encontrando novas parcerias e se transmutando em outras encruzilhadas. A próxima edição será em João Pessoa, em novembro, reunindo outras danças, outros corpos e outras possibilidades de movimento. Em breve mais informações.

 

*Jô Gomes é dançarina especializada em Danças Afro (tradicionais e urbanas, do continente e da diáspora), jornalista, pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça na Universidade de Brasília (UnB) e é professora de dança em Brasília-DF.

*Luiz Igba é dançarino especializado em Danças africanas, capoeira, percussionista, músico, artista plástico, poeta, ator e estudante de culturas africanas do continente e da diáspora.

Autocuidado e depressão – Emicida, Tássia Reis e a arte de não precisar ser forte o tempo todo

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“Preciso cuidar de mim” – uma frase perdida do Emicida no meio da música AmarElo, a música que foi feita pra 99% das pessoas que a ouviram na terça-feira, dia 25, quando foi lançada. É aquela música motivacional que você ouve naqueles dias ruins, pesados, que você precisa de um gás. É uma música sobre dor, mas, principalmente, sobre superar a dor. Um momento que me dói bastante ouvir é quando ele fala: Hoje Cedo não era um hit, era um pedido de socorro. Hoje Cedo é uma música tão dolorida quanto AmarElo, só que mais. Fazer essa citação é como se ele dissesse: “sabe as músicas fodas que vocês amam? Eu tava sofrendo quando as escrevi. Que bom que tem ajudado vocês.” E aí fica a pergunta: quem cuida do cuidador?

As músicas de Emicida tem salvado a vida de muita gente. Leandro revolucionou o Hip Hop no Brasil, é um exemplo de empreendedorismo, uma inspiração. Mas ele fez uma música inteira sobre estar sofrendo, em estado depressivo mesmo, e falou sobre isso novamente em uma outra música e a gente só percebe porque também sente. A arte sempre foi esse espaço de cura, de exorcizar os fantasmas, mas não foi feita só pra isso.

Criar em tempos de dor é complicado. Mas essa dor é tão compartilhada que a catarse é coletiva. A depressão é uma doença que atinge, já atingiu ou vai atingir grande parte da população em algum momento. Nem artistas estão ilesos (nem padres!). Mas quem se importa? Como diz Emicida: “a plateia só deseja ser feliz (…) Onde a última tendência é depressão com aparência de férias”. O afastamento e o isolamento é um sinal de socorro, não de “me deixem em paz”. É algo que a doença faz com a gente. Nem todo isolamento de um artista vai criar um álbum do Queen. Às vezes é só depressão mesmo.

Ser preto, rapper, da quebrada, homem negro e cantar sobre saúde mental. Ser drag, ser trans, ser travesti e cantar sobre saúde mental. Ser dançarina, negra, da quebrada e estar numa busca por sua saúde mental. Tamo todo mundo no corre, porque identificamos que tá todo mundo no corre. Somos, como artistas, cuidadores de almas. Nossa alma precisa estar forte. Uma pessoa curada cura pessoas. Mas nossa cura, as pessoas dizem, “é a arte”, ou seja, criem e curem-se sozinhos. Vai dançar, vai cantar, vai compor. Nem todo mundo é Adele, que transformou um pé na bunda em 250 grammys. Às vezes a gente só vai chorar e dormir o dia inteiro, rezando pra inspiração vir e o sorriso não se apagar no meio de uma apresentação e alguém perceber a dor que tá sendo ficar em pé.

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Tássia Reis já fez uma música sobre isso também: “Se Avexe Não”. Tem dia que é ruim de vingar/ Tem noite que eu quero morrer/ Eu sei que é difícil aturar/ Mais fácil deixar adoecer/ Mas a gente nem pode optar/ E simplesmente poder padecer/ Já que à noite eu tenho que cantar/ Pra alegrar o povo e entreter/ Só sorrir quando quero chorar/ Isso não foi difícil aprender/ Mas desaprendo pra algo mudar/ E assim eu me fortalecer.

Às mulheres negras não é permitido não ser forte. Você tem que ser forte. É preciso ser forte porque é só isso que podemos ser em meio à morte e encarceramento em massa de nossos homens, em meio ao desrespeito ao nosso próprio corpo e das nossas mulheres. Não temos tempo pra ficar chorando e pensando em depressão ou como sair dela. É preciso ser forte. E aí quando não somos, caímos em outros processos: a culpa da fragilidade. “Poxa eu deveria ter segurado o choro”, “eu não deveria ter conversado sobre isso, pareço fraca agora”, “caraca, ela é minha chefe, deve achar que eu não sou profissional”, “deveria ter ficado calada e seguido em frente, me resolver com isso sozinha”. A solidão da mulher negra não é estar solteira aos 30, é ser casada, com filhos, com netos, e sempre achar que precisa se resolver sozinha, porque os outros são sua responsabilidade mas você não é responsabilidade de ninguém a não se de você mesma.

Por isso Tássia começa a música dizendo pra gente não chorar. Aquele comportamento típico dazamiga que quer te ver bem. Mas ela vai vendo que “poxa, realmente, temos motivos pra chorar né?” E termina dizendo: se quiser chore, se preciso for seja o acalanto do seu coração. Precisamos aprender a lidar com nossas emoções, a administrar nossos conflitos e confusões, porque, principalmente nós negros e pobres, acionamos o modo sobrevivência na infância e não desligamos mais. Quando surge uma crise, a gente não sabe nem o que fazer.

E aí vem Emicida: Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes / Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência / É roubar o pouco de bom que vivi. Não me resuma à sobrevivência. Eu não devo me resumir à minha sobrevivência. “Superação” é quase um rótulo pra todo mundo que tem uma origem não-branca-rica. Eu não quero sobreviver nem superar nada. Quero viver, e viver em plenitude. Rica de saúde mental e criando a partir de um lugar de abundância de criatividade, não de dor. Que essas músicas mostrem que precisamos desses lugares, que a dança recupere os corpos e sentidos. Mas que a arte não sirva apenas para nos salvar da dor, mas também, pra nos conduzir a uma saúde plena, sem monstros a serem exorcizados. Nem nos artistas, nem no público. Ano passado morremos, mas esse ano não morreremos e vamos criar coisas lindas que dizem respeito à nossa saúde, não à nossa doença.

Se você precisa de ajuda, peça. Comunique-se. Você não precisa ser forte o tempo todo. É na crise que você reconhece sua força, porque apenas uma pessoa forte é capaz de reconhecer que precisa de ajuda e pedi-la a pessoas de confiança. Fortaleça-se entre os seus. Admita sua vulnerabilidade e faça as pazes com ela. É daí que virá sua cura. Cuide-se. Você não está só. Nem na dor, nem na cura. Levanta e vai à luta “Pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome”. E se você precisa de inspiração, assista ao clipe de AmarElo. A arte salva.

Jô Gomes é dançarina, professora de Danças Afro, jornalista, pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça e não para de ouvir AmarElo desde ontem.

Sobre matriarcado, determinação, corpo e mexer a raba

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Foto de oficina com Taísa Machado, chefona do Afrofunk Rio, que trabalha empoderamento feminino por meio do funk (Blog Mulherias/Uol)

 

*Joceline Gomes

Pensa aqui comigo: a mulher carrega em si esse poder de gerar e nutrir uma vida. Ainda que não tenha filhos, ela tem essa capacidade. E se ela pode gerar uma vida, ela pode gerar qualquer coisa. Afinal, o que há de mais poderoso do que a vida? A mulher carrega em si o que uma vida precisa pra ser criada e mantida. Ela gera em seu ventre e alimenta em seu seio. Gerar e nutrir. Tudo que precisamos para ser quem quisermos, fazer o que quisermos, está dentro de nós.

O matriarcado é o sistema político, filosófico e prático que reconhece isso e coloca esses princípios em ação. A mulher é respeitada, valorizada, reverenciada por sua capacidade de gerar e nutrir uma vida. Mas os homens não são tratados como desnecessários ou inimigos. Afinal, eles participam desse processo de gerar uma vida. Cada um tem suas habilidades e contribuições reconhecidas. Os homens não se sentem menos homens por respeitar e valorizar aquelas que lhe deram a vida ou darão a vida a outras pessoas. As mulheres não se sentem menos mulheres por reconhecerem aqueles que têm a capacidade de protege-las, cuida-las e de seus filhos.

É preciso reconhecer e respeitar as diferenças. Os direitos podem ser iguais, mas nós, definitivamente, não somos. Homens e mulheres não possuem a mesma força física, o mesmo tônus muscular, a mesma predisposição pra esta ou aquela doença, a mesma velocidade e capacidade de explosão em uma corrida ou uma luta. Sob as mesmas condições de treino, intensidade, velocidade e peso, um homem ainda vai se destacar. Mas numa situação de pressão extrema em que a vida de uma pessoa ou grupo de pessoas esteja em risco, sabemos que uma mulher pode até dobrar sua força e capacidade de explosão – vide caso de Silmara Cristina Silva de Morais, que salvou 50 crianças do ataque à escola em Suzano-SP, ou de Maria Jerônimo Campos, mãe que, sem saber nadar, salvou o filho que caiu em um poço. Você não daria tudo de si pra salvar aquilo que você mesma gerou?

Você que, assim como eu, não tem filhos biológicos, não identifica seu potencial criativo, seus projetos e sonhos como filhos? Não estou banalizando filhos como as “mães de pet”, galera, calma. Estou dizendo que, reforçando o que disse no primeiro parágrafo, uma pessoa capaz de gerar uma vida não seria capaz de gerar qualquer coisa? O que quer que você, mulher, ponha sua energia, sua vontade mais profunda e verdadeira, aquilo não vai absorver toda essa energia que poderia vir a ser uma outra vida? Em que você tem investido essa energia?

Matriarcas não são apenas aquelas que possuem filhos biológicos ou adotivos. Matriarcas geram e nutrem uma comunidade, local, nacional ou mesmo internacional. Yalorixás que nunca tiveram filhos biológicos, mas administram e cuidam do terreiro e de todos os seus filhos de santo como se assim fossem; aquela tia que não tem filhos mas criou você e toda a galera da sua rua; aquela irmã mais velha que criou todos os irmãos e agora é a referência dos sobrinhos; aquela mulher que realiza há anos um projeto social que resgata a autoestima da juventude negra, periférica, e que já profissionalizou e salvou a vida de pelo menos três gerações… todas essas mulheres são matriarcas, e elas podem não ter filhos que saíram de dentro delas, mas foram elas que geraram e nutriram os sonhos que alimentaram essas pessoas. O matriarcado reconhece e respeita as mulheres que geram filhos, sonhos, projetos, e muitas outras coisas. E todo esse poder de vida está em seu ventre, em seu seio, em você, mulher.

As movimentações de quadril, as contrações da musculatura genital (pompoarismo) tão reprimidas hoje, são movimentações de cura, autocura, autoconhecimento, que eram usadas para prevenir doenças, dores, cólicas, há movimentações que aumentam a fertilidade, diminuem, e podem até ser abortivas. Tudo no seu próprio corpo, no seu próprio ventre. Nos desligamos dessa capacidade de nos curar sozinhas, porque em algum momento o ocidente nos disse que precisamos pagar pelo remédio, pelo conhecimento do nosso próprio corpo, pela cura que não sabemos mais qual é e precisamos de outra pessoa pra nos dizer. O corpo tem a capacidade de se curar sozinho, se estiver sob as condições adequadas. Alimentação, sono, estresse emocional, tudo isso interfere, obviamente. Mas o seu ventre, seu quadril, esse está bem acessível e você pode começar a fazer algo a respeito agora mesmo.

Não desperdice esse poder que há latente dentro de você.  Movimente-se! Abra suas pernas, dobre seus joelhos, fique na base, vá em direção ao chão, fique de cócoras, quique, rebole, contraia e relaxa sua musculatura pélvica. Ou, no português contemporâneo: rebole a sua raba! Pisque a ppk! Não fique com vergonha de cuidar de seu próprio corpo, de readquirir o poder inato que você tem sobre ele. Esse corpo é seu! Conheça-o! Ame-o! Tome posse! Saiba do que você é feita! Se olhe no espelho! Dance!

Pesquiso e dou palestras/aulas sobre matriarcado e danças afro e muitas pessoas devem chegar para elas sem saber qual a relação possível. Para além do fato de serem as mulheres as principais transmissoras das informações sobre essa dança, sobretudo por meio da tradição oral, há todo esse poder no corpo feminino que uma mulher compreende bem melhor. E aqui não quero desrespeitar nenhuma mulher trans, pois não falo apenas de biologia, mas principalmente de uma energia feminina que nos habita. O matriarcado respeita e acolhe todas as pessoas, como disse anteriormente.

O quadril, o ventre, guarda, tanto em homens quanto em mulheres, esse poder de vida. Há um potencial de vida dentro de você. Direcione esse potencial para o que te move. Descubra o que te move. Mova-se. E sempre que puder lembre-se que não há nada de errado em mexer o quadril. Pra quem diz “mexa o cérebro ao invés de mexer a raba”, aqui vão algumas informações:

1) mexer o cérebro não é saudável. Ele foi feito pra ficar bem paradinho no lugar dele. Estude anatomia;

2) “mexer a raba” (qualquer parte do corpo, na verdade) exige uma coordenação motora que nem todas as pessoas têm a consciência de que possuem. Percebam que eu não disse “tem gente que não tem”, eu disse sobre não ter consciência, pois até pra andar você precisa ter coordenação motora. Ou você nunca reparou que quando você anda balança o braço contrário da perna? Dançar coloca essa coordenação pra trabalhar de forma consciente. Talvez daí venha o problema: autoconsciência. Quando falamos que dança é autoconhecimento, falamos disso, de conhecer o próprio corpo e ter consciência do que ele é capaz de fazer. Então, voltando ao assunto de mexer a raba, rebolar ao som de uma música exige uma consciência da própria coordenação motora que nem todo mundo tem (mas que pode desenvolver, se quiser e treinar);

3) se você não mexe a raba como gostaria, ou não sabe, não vem desmexer a raba de quem mexe. Recalque é um conceito psicológico para além da gíria do funk. Lide com seu recalque e entre numa aula de dança. Tamo aí na atividade caso queira indicações. 😉

É, Brasil, parece que eu consegui escrever um texto que começa com matriarcado e termina com um jabá sobre mexer a raba. Ninguém é uma coisa só. Somos jornalistas, dançarinas, matriarcas, rebolantes, professoras de dança, e muito mais. Só não somos limitadas. Mexa-se! Afinal, o mundo está em movimento. E o movimento é sexy.

*Joceline Gomes é jornalista e professora de dança. Dá aulas de Danças Afro, Funk e Dancehall em Brasília-DF. É pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça pela Universidade de Brasília e pós-graduanda em Dança e Consciência Corporal pela Estácio. Pesquisa História Geral da África e Matriarcado Africano no Instituto Hoju (RJ), onde tem desenvolvido a pesquisa sobre Matriarcado e Danças Afro.

 

**Texto originalmente publicado na coluna de Joceline Gomes na Rádio Eixo.

O Brasil é racista e posso provar

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Linha do tempo da legislação brasileira deixa registrado o racismo nosso de cada dia

Joceline Gomes

Sou pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça na Universidade de Brasília. Pela primeira vez na minha trajetória acadêmica, a maioria do corpo docente era de mulheres e negras. Foram apenas duas turmas, e já na minha, os recursos estavam escassos. Não abriram outras. Nesse mês de novembro, em que celebramos a Consciência Negra, é preciso falar sobre políticas públicas para o povo preto. Quando falamos “políticas públicas” pensamos logo em leis, legislação, e não poderia ser diferente. Por isso, baseada em um texto de Leandro Ribeiro, queria apresentar uma série de leis direcionadas para a população negra. O que não significa que sejam positivas. Vem comigo.

1837 – Primeira lei de educação: negros não podem ir à escola.

Lei nº 1, de 14 de janeiro de 1837: “São proibidos de frequentar as escolas públicas: Primeiro: pessoas que padecem de moléstias contagiosas. Segundo: os escravos e os pretos africanos, ainda que sejam livres ou libertos”. A lei nº 1 do Brasil já mostrava para quem era esse país. Definitivamente não para os negros. Para quem duvida, esse artigo fala mais sobre o tema.

1850 – Lei de terras: negros não podem ser proprietários.

Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850: aprovada no mesmo mês e ano da lei Eusébio de Queirós (Lei nº 581 de 4 de set de 1850), que previa o fim do tráfico negreiro. A Lei de Terras, como ficou conhecida, foi uma antecipação de grandes fazendeiros e políticos latifundiários que queriam impedir que negros pudessem ter terras. A abolição estava surgindo no horizonte e tudo que eles menos queriam é que negros pudessem ser seus concorrentes. Soa familiar? Leia mais sobre a lei aqui.

1871 – Lei do Ventre Livre

Lei nº 2.040 de 28 de set de 1871 – filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir desta data ficariam livres. Agora me diz, uma criança, ainda que livre, vive como? Com a mãe. Se a mãe é escrava, logo… pois é. A realidade é que essas crianças cresciam escravas e permaneciam assim até que a mãe fosse liberta – algo conquistado pela compra da carta de alforria por meio das irmandades de negros ou mesmo pela fuga. Mas pela lei que não foi. Mais aqui.

1885 – Lei do Sexagenário

Lei nº 3.270 de 28 de setembro de 1885 – concedia liberdade aos escravos com mais de 60 anos de idade. Quem sobrevivia até 60 anos com as péssimas condições de trabalho, alimentação, moradia, sono, vida que a escravidão estabelecia? Sem contar que a lei apresentava um artigo que determinava que o escravo, ao atingir os 60 anos, deveria trabalhar por mais 3 anos, de forma gratuita, para seu proprietário. Confiram a lei completa, que beneficiava mais os proprietários do que os “libertos” clicando aqui.

1888 – Lei Aurea

Lei nº 3.353 de 13 de maio de 1888 – 388 anos de país depois… A maioria dos escravizados já tinham conseguido sua liberdade por meio da fuga, da compra de alforria e dos movimentos abolicionistas negros. Foi uma lei pra acalmar os ânimos internacionais, porque o país já tava sofrendo com a pressão permanente de países como a Inglaterra. Tava pegando mal já, sabe como é, essa parada de relações internacionais, diplomacia e tals… Mas é aquela, aboliu mas as condições de trabalho continuavam as mesmas por muito tempo. Foi uma lei só pro Brasil dizer que aboliu. Daí que veio a expressão “pra inglês ver”. O Brasil foi o último país ocidental a abolir a escravidão. E o fez sem nenhuma política reparatória, sem nenhum tipo de indenização às vítimas deste que foi o mais cruel e duradouro crime contra a humanidade. Aliás, os senhores de engenho é que queriam indenização, por perderem “mercadoria”. O documentário A última abolição (que estava em cartaz e teve baixíssima bilheteria) explicou que Rui Barbosa queimou as notas fiscais e outros registros da escravidão exatamente para não ter que ressarcir essas compras. Esse filme inclusive explica com riqueza de detalhes, documentação histórica e contextualização de grandes estudiosos do tema como a abolição feita sem reparação reflete nas desigualdade sociais sofridas pela população negra até hoje. Recomendo.

1890 – Lei dos vadios e capoeiras

Código Penal – Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890 (atenção, 2 anos depois da abolição) – os que perambulavam pelas ruas, sem trabalho ou residência comprovada, iriam pra cadeia. Bem como os que estivessem jogando ou portando objetos relativos à capoeira. Confira na íntegra aqui. Alguns trechos:

CAPITULO XIII

DOS VADIOS E CAPOEIRAS

Art. 399. Deixar de exercitar profissão, officio, ou qualquer mister em que ganhe a vida, não possuindo meios de subsistencia e domicilio certo em que habite; prover a subsistencia por meio de occupação prohibida por lei, ou manifestamente offensiva da moral e dos bons costumes (…)

Art. 402. Fazer nas ruas e praças publicas exercicios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal: Pena – de prisão cellular por dous a seis mezes.

Paragrapho unico. E’ considerado circumstancia aggravante pertencer o capoeira a alguma banda ou malta.

Agora pensa aqui comigo: quem andava pelas ruas, sem trabalho ou residência comprovada após a abolição? Eram mesmo “livres”? Dá para imaginar qual era a cor da população carcerária daquela época? Você sabe a cor predominante nos presídios hoje? Pois é. Pesquisa aí rapidão.

1968 – Lei do Boi

Lei nº 5.465, de 3 de Julho de 1968. 1ª lei de cotas! Não, não foi pra negros, foi para filhos de donos de terras, que conseguiram vaga nas escolas técnicas e nas universidades (volte e releia sobre a lei de 1850!!!). Na íntegra aqui. Mas deixo uns trechinhos pra vocês:

Art. 1º. Os estabelecimentos de ensino médio agrícola e as escolas superiores de Agricultura e Veterinária, mantidos pela União, reservarão, anualmente, de preferência, de 50% (cinqüenta por cento) de suas vagas a candidatos agricultores ou filhos dêstes, proprietários ou não de terras, que residam com suas famílias na zona rural e 30% (trinta por cento) a agricultores ou filhos dêstes, proprietários ou não de terras, que residam em cidades ou vilas que não possuam estabelecimentos de ensino médio.

UMA COTA DE 50% CINQUENTA POR CENTO PARA LATIFUNDIÁRIOS E SEUS FILHOS. 50% na área rural e 30% na urbana. 80% bichão. Ou seja, a reparação para a população negra não teve, mas os latifundiários precisavam sim de cotas, 80% de vagas reservadas para eles e seus filhos. Eles precisavam estudar, gente! Tá serto. Tá aqui a lei na íntegra pra quem quiser ler.

1988 – Nasce nossa ATUAL CONSTITUIÇÃO

Foram necessários 488 anos para ter uma constituição que dissesse que racismo é crime! Ainda assim, na maioria das ocorrências, se minimiza o racismo enquanto injúria racial e nada acontece. Vou deixar uns artigos aqui só pra reflexão do nosso momento atual:

Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:

      II – prevalência dos direitos humanos;

      VI – defesa da paz;

      VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo;

Ainda bem que a Constituição é obedecida, né? Show.

2001 – Conferência de Durban

O nome completo é: III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas. Foi realizada em setembro de 2001 e de lá saiu uma declaração, da qual o Brasil é signatário, sabia? O Estado reconhece que terá que fazer políticas de reparação e ações afirmativas. Mas, não foi porque acordaram bonzinhos. Não foi sem luta. Foram décadas de lutas para que houvesse esse reconhecimento. E olha que até hoje tem gente que ignora, hein? Leia aqui a declaração e o programa de ações.

2003 – Lei 10.639 de 9 de janeiro de 2003

Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Que não é cumprida até hoje na maioria das escolas né? O nome disso é racismo institucional. Não é interessante ensinar cultura africana e afro-brasileira nas escolas. Afinal: “Um povo sem o conhecimento da sua história, origem e cultura é como uma árvore sem raízes” – Marcos Garvey. A quem interessa que o povo preto tenha consciência? Pois é. Lembrando que essa lei foi assinada na segunda semana do primeiro governo Lula. Só um fato histórico mesmo pra refrescar a memória. A lei completa que não é cumprida aqui.

2009 – 1ª Política de Saúde da População Negra

Portaria nº 992, de 13 de maio de 2009. Que prossegue sendo negligenciada no sistema de saúde. Quem são as maiores vítimas da violência obstétrica? Quem recebe menos anestesia? Quem é menos tocada em uma consulta ginecológica? Portaria na íntegra aqui.

2010 – Estatuto da Igualdade Racial

Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010. Em um país que se nega sequer a reconhecer a existência do racismo, ter aprovado o Estatuto foi um passo. Se a lei “pegou”, é outra história. Estatuto na íntegra aqui.

2012 – Cotas nas universidades

Lei 12.711 de 29 de agosto de 2012, que estabelece a reserva de vagas. A revolta da casa grande sob um falso pretexto meritocrata. A mesma lei já estabelece uma reserva de 50% das vagas para estudantes de escolas públicas, mas toda vez vem um tInHa qUe sEr pRa pObRe e nÃo pRa nEgRo. Leia a lei antes de encher o saco com esse argumento vazio, faz favor, clique aqui.

Não desmereço o trabalho de nenhum dos irmãos e irmãs que lutaram para que cada uma dessas políticas de ações afirmativas fossem aprovadas. Pelo contrário, reconheço a luta e os honro. A questão é que o racismo estrutural brasileiro não permite que essas legislações sejam aplicadas na prática. Seguimos tentando.

Como vocês podem ver por essa linha do tempo, e pelas execuções diárias do povo preto, nossa sociedade é extremamente racista e ainda escravocrata. Muita coisa ainda não mudou. Mas os direitos conquistados com muita luta podem ser perdidos num piscar de olhos. Resistamos, portanto.

*Joceline Gomes é jornalista e dançarina. Pós-graduada em Gestão de Política Públicas de Gênero e Raça pela Universidade de Brasília, compreende a importância da mídia e das artes para a construção e desconstrução de preconceitos e estereótipos.

** Texto originalmente publicado na coluna de Joceline Gomes na Rádio Eixo.

 

 

Pantera Negra e o Mulherismo Africana

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*Joceline Gomes

Pantera Negra. Um super-herói criado na década de 1960 e transportado para os cinemas, como filme solo, apenas em 2018. Mas veio em boa hora e em boas mãos. Pantera Negra inaugurou um novo momento de visibilidade e representatividade. Com um elenco praticamente todo formado por pessoas negras, incluindo até os dublês, o filme alcançou bilheterias estratosféricas, e esta mesma que vos fala foi ao cinema três vezes, coisa que não faço desde que a meia era 4 reais. Aí você me fala: mas Joceline, como assim Pantera Negra, você prometeu que ia falar sobre as correntes teóricas além do feminismo para abordar as especificidades das mulheres negras. E eu vou. Parece que não mas Pantera Negra facilitou e muito o meu trabalho. Porque trouxe imagens. E você sabe que uma imagem, ainda mais de Hollywood, vale mais que três textos.

Então vamos lá, vamos falar sobre minha corrente teórica favorita, que não é apenas um conceito, é uma também uma proposição política: o Mulherismo Africana. Sintetizando, como num Tweet, os três princípios básicos do Mulherismo Africana são: matriarcado (mulheres como centro da comunidade), pan-africanismo (negros são africanos, do continente ou da diáspora, porque fomos tirados de lá por sequestro) e afrocentricidade (de, por e para negros, blackmoney, por exemplo). Esses três princípios estão lá, em Pantera Negra. Aqui um parênteses: o “a” no final de “Africana”, não é de feminino, é de plural, para lembrar que existem diversas “Áfricas”.

SPOILER ALERT

daqui pra frente. Mas se você quer ver o filme com outros olhos, prossiga. Não importa o que eu te diga sobre o filme, o que vale é tudo que ele representa e a experiência de ver tudo isso que vou escrever aqui se materializando na sua frente. Vá ver.

Matriarcado

O papel das mulheres em Pantera Negra são fundamentais para a trama. O herói é homem, mas sem as mulheres ele não toma nenhuma decisão. Isso é o matriarcado. A mulher é a figura central de sua comunidade, sendo respeitada, reverenciada e ouvida, pois ela conhece melhor os anseios e necessidades de cada um, sendo a responsável por pensar as estratégias para melhorar a vida do seu povo. Isso fica evidente em cada personagem feminina que cerca o herói: seja a líder do exército de mulheres Okoye, a irmã cientista afrofuturista Shuri, a espiã do mundo exterior (e quase rainha) Nakia, ou a rainha-mãe ponderada e sábia Ramonda. Todas procuram, juntas, e da sua forma, melhorar a vida de todos, salvando a vida do rei e de todo o povo de Wakanda de diferentes formas e em diversas ocasiões.

Nakia propõe, inclusive, compartilhar todo o conhecimento e tecnologia de Wakanda para melhorar a vida da população em todo o mundo, e diminuir com isso as desigualdades e o sofrimento delas decorrente. Seu senso de justiça social, econômica e intelectual mostra que é uma verdadeira rainha, preocupada com o bem estar de todos.

Afinal, enquanto todos não formos livres, ninguém será, correto? Matriarcado é isso. Não há superiores ou inferiores.

Homens e mulheres trabalham juntos, horizontalmente, em prol de um povo que precisa ser orientado, cuidado, liderado para um bem maior e coletivo.

Nah Dove, em sua obra “Mulherisma Africana: Uma teoria afrocêntrica” (1998) explica que o matriarcado estabelece uma relação de complementariedade entre o masculino e o feminino, não há hierarquias e ambos trabalham juntos pela organização social, porém, “a mulher é reverenciada em seu papel como a mãe, quem é a portadora da vida, a condutora para a regeneração espiritual dos antepassados, a portadora da cultura, e o centro da organização social” (1998:08).

Sobre este ponto, há pessoas que argumentam que o Mulherismo Africana é uma teoria que reforça o machismo ou que relega às mulheres o papel de mãe e dona de casa, ou ainda que as mulheres exerciam um poder econômico e social opressor ao homem. Dove, utilizando a definição de Cheikh Anta Diop (1959/1990) para o matriarcado, explica que este sistema é baseado “em relações de reciprocidade, complementares, e, portanto, não hierárquicas, não sugere que as mulheres estavam em um tempo de superioridade aos homens”, muito menos que estivessem fazendo atividades domésticas por obrigação ou por imposição destes. Ao contrário, como afirma Diop (1959/1990 apud Dove 1998) um “regime matriarcal, longe de ser imposto ao homem por circunstâncias independentes da sua vontade, é aceito e defendido por ele”. Ainda assim, é importante ressaltar que apesar dessa complementaridade entre homens e mulheres no Mulherismo Africana, essa unidade não significa que não haja assimetrias ou diferenças, pois homens e mulheres ocupam papeis sociais diferentes, ou seja, esta unidade é heterogênea.

Um detalhe que gostaria que você, que ainda não assistiu ou pretende assistir de novo, prestasse atenção é: Ramonda, a rainha-mãe, passa grande parte do filme com turbantes ma-ra-vi-golds. Porém, quando T’Challa morre, a próxima cena da rainha-mãe é sem turbante. Não se trata apenas de um “pano na cabeça”. É coroa. É nesses detalhes que você percebe que a galera não está pra brincadeira. Representatividade é importante, e não deve ser feita de qualquer jeito.

As referências à ancestralidade também são emocionantes, e nos reconectam com quem somos.

Pan-africanismo

Em determinado momento do filme, o “vilão” (as aspas são por minha conta, porque me identifiquei com ele em vários aspectos) Killmonger fala: mas a vida não começou aqui em Wakanda(=África)? Somos todos daqui. O pan-africanismo é, resumidamente, saber que se estamos no Brasil hoje é porque nossos ancestrais foram sequestrados de África e trazidos escravizados para cá. Assim como grande parte da população negra nas Américas. Logo, somos todos africanos, do continente ou da diáspora.

De acordo com Gilza Marques (2016), o pan-africanismo é a plataforma política do Mulherismo Africana. Para ela, afirmar-se pan-africanista “significa dizer que povos pretos do continente e da diáspora devem lutar unidos pela libertação, é reconhecer que toda pessoa preta é africana e que a opressão racial se expressa de maneira semelhante em qualquer lugar do mundo onde uma pessoa preta esteja” (2016). De acordo com a autora, o Brasil é uma “invenção europeia” que sempre considerou a população negra como “cidadãos de segunda classe exatamente devido a nossa origem africana”.

Nah Dove usa o termo “Africano” para definir não apenas os nascidos no continente, mas também os descendentes de sua diáspora, “porque há uma crença de que nós, apesar de nossas experiências diferentes, estamos ligados à nossa memória cultural e espiritualidade Africana e podemos a qualquer momento nos tornarmos conscientes de sua importância para nossa Africanidade e futuro” (1998:04).

A autora destaca ainda que o Mulherismo Africana é uma teoria central para “a construção da visão de mundo Africana”, reforçando o conceito de que tráfico de pessoas escravizadas foi o responsável por tirar a população negra da África, mas que isso não tirou os elementos culturais, espirituais e individuais de homens e mulheres negros que, mesmo fora do continente, não podem negar sua origem africana.

Afrocentricidade

De preto, pra preto, por preto. Nós por nós. Black Money (negros comprando de afroempreendedores). São exemplos de afrocentricidade, que é o caminho para o pan-africanismo. É saber que operamos em coletivo, e que por isso é importante buscar um referencial africano, pois fazemos parte de um povo africano, independentemente de onde estivermos. Se somos segregados individualmente, precisamos reagir em grupo. Busque suas referências negras.

Pantera Negra acaba de se tornar uma. Seja você também uma para as pessoas a sua volta. Estude, pesquise, leia sobre a História da África e você vai entender sobre sua própria história. O final do filme é a coroa da afrocentricidade: Nós por nós, cuidando do nosso povo. Vamos nos educar, nos informar, capacitar e qualificar os nossos para que possamos nos emancipar, em conjunto, por meio da educação. Não dá pra resolver tudo com educação, mas esse é o caminho do autoconhecimento. E uma pessoa que se conhece, controla o que quer que seja, né?

Tendo tudo isso dito, Pantera Negra é ancestralidade. É matriarcado. É pan-africanismo. É afrocentricidade. É um movimento, que só começou. Aumentou e muito os padrões de filmes de representatividade negra, e não apenas de super-herói. Agora vai ser difícil fazer qualquer coisa de qualquer jeito. É um marco. Wakanda Forever.

P.S: Eu sei que o dinheiro continua indo pros super produtores brancos. Eu sei que é só um filme. Mas representatividade importa. E eu sei que você sabe disso também.

 

*Joceline Gomes é jornalista, dançarina, e também colunista da Rádio Eixo, onde esse texto foi publicado originalmente. Era #TeamKillmonger mas virou #TeamNakia graças a debates com pessoas muito inteligentes no Twitter.

 

Referências

MARQUES, Gilza. 10 tópicos sobre Mulherismo Africana (para escurecer o pensamento). 24 mar 2016. In: Pensamentos Mulheristas. Disponível em: < https://pensamentosmulheristas.wordpress.com/2016/03/24/10-topicos-sobre-mulherismo-africana-para-escurecer-o-pensamento/ >. Acesso em: 11 abril 2016.

DOVE, Nah. Mulherisma Africana: Uma teoria afrocêntrica. In: Jornal de Estudos Negros. Vol. 28. № 5. Maio 1998. 515-539. Disponível em: < https://estahorareall.files.wordpress.com/2015/11/mulherisma-africana-uma-teoria-afrocecc82ntrica-nah-dove.pdf >. Acesso em: 13 abril 2016.

 

Marcha das Flores e a Estátua da Justiça

Esqueça o que você leu na imprensa. Foi isso que aconteceu.

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Da Redação (ou seja, tudo nosso)

Brasília, 29/05/2016.

Um protesto é feito por coletivos em solidariedade ao caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro. A banda percussiva Batalá, com formação exclusiva feminina, rufa os tambores e dá o tom através de seu toque do que virá. Coisa de mulher: força, garra, determinação! Ao final da apresentação, Maria Paula Andrade, atriz e apresentadora, faz o chamamento e alerta que aquele encontro é apartidário e não governamental. Importante o alerta de Maria de Paula porque os oportunistas políticos de plantão sempre estão a rondar. Ela recita uma poesia de improviso e abre a contagem regressiva, começando do numeral trinta e terminando em: nenhum! Nunca mais! O coro é uma coisa única e muito emociona. Mulheres e homens choram, se abraçam, se dão as mãos, lembrando do quão pavorosa deve ser a imagem daqueles trinta homens que pacientemente esperaram sua vez de violar o corpo de uma adolescente. A marcha dá início! São cerca de 3.000 pessoas, maioria mulheres!

Seguem pela Esplanada dos Ministérios com gritos de guerra sobre questões do movimento de mulheres: o corpo, o direito a livre expressão, o racismo que impacta crucialmente as mulheres negras, a violência, o combate à cultura do estupro, o machismo. Em alguns momentos alertam para a situação do país também, com um Congresso e um Judiciário que não representa a maioria da população. Nada mais justo em um governo que suprimiu a Secretaria de Políticas para as Mulheres a uma instância menor no organograma atual. São momentos emocionantes. Homens acompanham a passeata com poucos sorrisos. Parece um momento de reflexão de seus lugares ali e na história social do patriarcado.

Chegamos ao prédio do Supremo Tribunal Federal. Todo cercado de grades isolando a estátua denominada “A Justiça”. Diferente dos vários símbolos que representam a justiça em âmbito internacional, a estátua Justiça em frente a um dos prédios mais importantes na estrutura de poder do Brasil não tem a balança que significa a equidade no julgar. As grades que cercam são por demais simbólicas, querem dizer: o acesso à justiça é difícil, vocês deverão ultrapassar barreiras caso queiram acessa-la. É o que faz uma das manifestantes, que pula as grades, pega algumas flores jogadas dentro do cerco pelas demais colegas e começa a montar um buquê. Se direciona à “justiça do Brasil”, aquela que tem uma venda nos olhos e uma espada nas mãos, que representa a força, a coragem, a ordem e a regra necessárias para impor o Direito.

A mulher caminha forte e segura. Os seguranças vem de encontro a ela pra proteger a justiça. Há uma pequena negociação. O corporal da mulher deixa claro que ela quer concretizar o ato simbólico por suas companheira sem acesso, ela quer colocar o buquê, colhido com flores jogadas ao chão que não chegaram à justiça por conta da longa distância entre elas (poética e literal). A segurança é intransigente. A mulher é determinada. Usam spray de pimenta contra ela. Começam gritos e muita indignação. A mulherada balança as grades, empurra, arrasta, derruba. A polícia atira spray de pimenta contra as manifestantes. As mulheres da linha de frente voltam esfregando os olhos e abrindo caminho pras próximas que estão por vir. Avança o exército feminino. Os seguranças recuam, fecham um círculo em volta da justiça, de mãos dadas e de costas para a escultura. Todas começam a atirar as flores, que estavam ao chão, na própria estátua. O que era pra ser um depósito simbólico, aos seus pés, torna-se uma chuva de flores: algumas caem no colo da justiça, algumas no chão, outras nos seguranças… A estátua fica cheia de flores, além de alguns cartazes na base, com dizeres: “Mexeu com uma, mexeu com todas”, “Pelo fim da cultura do estupro”, entre outros.

É uma visão por demais simbólica do Brasil. Um protesto que começou porque faltou proteção a uma mulher termina agredindo outras mulheres para defender uma estátua. Semanas antes, o ministro da Educação recebeu um ator pornô que admitiu, em rede nacional (uma concessão pública, portanto) ter estuprado uma mulher. Ali próximo se reúnem políticos da espécie mais misógena que se pode ter notícia, como o deputado Jair Bolsonaro, que se dirigiu à deputada Maria do Rosário dizendo: “Eu não vou estuprar você porque você não merece”. Tudo ali, sendo representado de uma maneira muito fiel: o povo querendo depositar flores na estátua e cerca de 10 seguranças protegendo um bloco de cimento maciço. Uma menina de 16 anos foi estuprada por 33 homens e não foi protegida com toda atenção que era dada à estátua Justiça. A polícia fazendo a segurança… de quem mesmo?

A estátua Justiça
Feita pelo artista mineiro Alfredo Ceschiatti, a estátua mede 3,3 de altura e 1,48 de largura. É uma mulher sentada e foi feita em 1961. Diferentemente das outras representações da Justiça, que carregam uma balança simbolizando a igualdade do pesar da decisão, a equidade e o nivelamento jurídico, a obra brasileira carrega em suas mãos apenas a espada, que significa o rigor nas decisões daquele poder. Foi esculpida em bloco de granito maciço. A simbologia dessa escultura tem origem na deusa romana Justiça, que corresponde à grega Dice, filha de Zeus com Têmis, a guardiã dos juramentos dos homens.

Hoje, ela, que era coadjuvante, passou a ser o centro das atenções e cuidados. Nosso foco era simples: uma mulher ia depositar flores aos seus pés, simbolizando o enterro da justiça, dessa justiça falida, que está de fato cega para as necessidades de seu povo e que além de julgar mal, participa de um golpe contra a nação. Mas não, não podíamos fazer isso. Muito simbólico. Muito pesado. Quiseram humilhar a mulher que levava as flores. Mas nós já estávamos protestando contra a violência contra uma mulher, não poderíamos assistir paradas a mais uma violência contra outra mulher. Sexo frágil? Aqui não. Todos os dias enfrentamos medos diversos, só do caminho de casa até o ponto de ônibus. Não vamos nos limitar a uma grade. Passamos por cima de diferenças salariais, desigualdades no tratamento, falta de respeito diversas, racismo, hipersexualização, entre outros obstáculos. Não vamos passar por uma grade? Por uma estátua? De frágil, aqui, só tem o estereótipo. Ou, como dizia a ciranda que foi feita em torno da estátua: “Ô seu machista, cê pode crer, a mulherada não tem medo de você!”.