Um papo nada Singelo

O rapper e ativista cultural Singelo MC solta o verbo sobre cultura, juventude, periferia, rap e política

singelo

Vinicius Dias

Rafael Félix poderia ser só mais um jovem morador de Samambaia, quebrada do DF, mas não, ele resolveu ser diferente e fazer a diferença. Rapper, ativista cultural, estudante de psicologia e recentemente eleito conselheiro regional de Cultura por Samambaia, ele não perde tempo e não fica parado.  Normalmente visto por aí com um sorriso negro no rosto preto, Rafael é mais conhecido pelo nome Singelo MC, e tá ainda mais sorridente esses dias, pois está indo em pra Batalha Mic Master Brasil. O evento vai premiar com um carro zero o mais sinistro no improviso. E a gente tá na torcida desse mano, que nos concedeu uma entrevista exclusiva e soltou o verbo com sua visão política apurada:

1 – Quando você começou a rimar e quais foram/são  suas influências?
Rimo desde criança, fazia melôs pros meus amigos e inventava paródia das músicas. Considero que já era rimador, mas não havia assumido essa identidade. Nas Batalhas de MC, rimo desde junho de 2012. A primeira referência de rima, mesmo sendo novo (tenho 23 anos) foi o álbum “Holocausto urbano” dos Racionais MCs, além dos outros clássicos CD “O beck e o contracheque” do Tropa de Elite e “A ocasião faz o ladrão” do Cirurgia Moral. Considero que fui privilegiado na forma como meu interesse pelos que rappers e MCs poderiam fazer com as palavras. No Freestyle, minhas referências são caras que fazem a rima pura e simples como Vinição, Vuks e Magú de BH, Daniel Garnet de SP. No Rap gosto de sons autênticos, com mensagens necessárias, sadias e boa musicalidade como o que vejo no Quadrilha Intelectual, Branco P9, Valete, KRS-One. Bebo muito também em outros estilos brasileiros, como o samba, a MPB, o funk carioca. Enfim, música boa, sem rótulos!

2 – Fala um pouco da cena Rap aqui em Brasília…
Fomos pioneiros num estilo de Rap que nos caracterizava bastante, o Gangsta. Essa identidade é importante. Acredito que o Rap distritofederalense anda carente de referências. Infelizmente, a grande maioria desconhece seu passado, é confuso sobre o seu presente e incapaz de construir o futuro. Falta uma pá de coisa, como responsabilidade, posição, postura. Como diz um amigo meu, Henrique QI: “quem vai samplear nóis?”, quem vai substituir nossos generais, como GOG e Markão Aborígene? Quem tá na disposição de pegar o bastão? O mercado fez a gente se acostumar com mingau, sendo que a lide do Hip Hop exige sustança! Sempre nivelo minha gente por cima e acredito que podemos ser mais criativos, autênticos, originais. Sermos nós mesmos. Como ponto positivo, a expansão da mídia está fazendo que nóis se aproprie das produções musicais, audiovisuais e nós por nós sempre é bom.

3 – Como ta a expectativa pro evento que você foi convocado em São Paulo. Fala um pouco do evento pra nós…
Na verdade, não fui convocado, tive que passar por umas pedreiras aqui na seletiva, que foi regada a muitas polêmicas. Na eliminatória, fui classificado pela Batalha da Santinha e consegui vencer o Diogo Loko, o Nauí, o DeJAH e o Marinho. Alguns falam que a parada foi garfada, mas tudo que envolve dinheiro e bens gera esse tipo de polêmica, tanto que rolou a mesma coisa nos outros estados. Ainda bem que sou vacinado contra esse tipo de situação. Em 2013, quando fui campeão do Calango Pensante, no aniversário de Brasília, falaram a mesma coisa em relação a uma batalha minha contra o Biro-Biro. Não respondi a nenhum dos críticos, pois acho que os resultados e desempenho falam por si. Desejo o bem de todos os críticos, mesmo que eles quase tenham me feito desanimar da parada…
Enfim, o evento é o Mic Master Brasil, uma batalha de MCs idealizada pela Double G, que premiará seu campeão com um carro 0 km, um Hyundai HB-20. Tô me sentindo seguro e preparado, com o apoio da galera do DF, pode pá que vai vir coisa boa pra nois… Vou em nome de cada scratch, flow, bomb e footwork daqui.

Singelo MC emocionado ao ganhar a eliminatória que garantiu sua vaga no Mic Master Brasil - Batalha de MC que acontecerá em São Paulo

Singelo MC emocionado ao ganhar a eliminatória que garantiu sua vaga no Mic Master Brasil – Batalha de MC que acontecerá em São Paulo

4 – Como tu ta vendo o cenário atual politico no Brasil?
A palavra é instabilidade. Nossa democracia é muito nova e suscetíveis a ataques como a ocupação do cargo de presidente pelo senhor Michel Temer. Precisamos botar os pingos nos is, não tem a ver com defender partido X ou Y, nem em ser de esquerda ou de direita, tem a ver com, minimamente preservar a democracia. Nossa gente ainda tá comendo muito kaô da mídia corporativa, elegendo os inimigos errados. Feliz por ser convidado pra festa de gala desse pseudoprogressismo, se esquecendo que será banquete ou trabalhará na copa, como de costume. Não tá pela ordem. E vários do Hip Hop não estão se posicionando diante desse circo… os mornos. Cara, temos que aprender de novo a fazer as críticas. Estamos tão acostumados a criticar todo governo e todo político no automático, que esquecemos de ver os avanços e queremos descartar todo o pouco que foi conquistado, o que nos fazer ideias pouco sensatas como a de ficar derrubando os políticos um por um, até a eternidade. Não seria mais simples ruir o sistema ou preparar nossa gente pra se eleger? Quem tá afim de ser deputado distrital? Ou melhor, o que faz um deputado distrital? Vamos começar pela base… Qual é o nome do administrador sua região administrativa? É necessário voltar ao trabalho de base, deu certo uma vez e pode dar de novo, ou melhor, tem que dar novo!!! A democracia pede socorro!

5 – Politica e rap. Tem alguma ligação ?
Totalmente. Não acredito que exista um Rap sério que não tenha alguma ligação com política. O Rap se originou pra dar voz a quem não tem e a cuidar de quem não é cuidado. Quando Public Enemy canta “Fight the power”, não é apenas o Chuck-D, Flavor Fav e o Terminator X que mandam a mensagem, é o gueto norte-americano que canta, é os cerca de 10% da população negra, os latinos que se identificam com a parada e talvez, quem sabe, até os “burgueses sensatos”, entende? Eles são porta-vozes, e isso é muito político. Quando Pepeu canta “Nomes de Meninas”, ele cria um som que embala a quebrada, faz todo mundo cantar junto, ou seja, de um modo DIRETO ele embala a socialização dos bailes, ele cuida do nosso bem-estar, nos diverte de um modo saudável. Você consegue perceber o quanto isso é político? Os cara pensa que política é só criticar o governo, falar de problemas sociais. Às vezes é fazer um som romântico e tirar a mulher desse lugar de objetificação que ela foi colocado ou até mesmo fazer um bom trap, que resgate valores perdidos e promova a comunhão na comunidade. Enfim, pensamento aberto nessas ideia aí.

6 – Quais são os trampos pro futuro? A rapaziada pode esperar alguma coisa aí? Algum sonho?
Tenho um livro de poemas pela metade, não sei se um dia se tornará concreto. Tenho um EP engatilhado e um profundo desejo de lançar um CD, que inclusive estava sendo gestado, mas tive de repensar por incoerências políticas da minha parte. Meu sonho é virar tipo um pensador de culturas urbanas, mostrar o quanto elas podem fazer bem pras pessoas e revolucionar corações, quando bem orientadas. Idealista nato! (risos)

7 – Você participa de batalhas de poesia, os slams. Essa forma de mandar a ideia tem alguma ligação com tua forma de criar letras de rap ou é uma outra forma de criação?
Cara, eu participei apenas uma vez e de vez em quando mando alguns poemas meus. Essa forma não tem muito a ver com minha forma de criar letras não, enxergo que é outra plataforma. A base do Rap limita sua possibilidades e o silêncio da declamação de poesias deixa as possibilidades infinitas, então são paradas diferentes.

8 – Improviso ou letra escrita ?
Os dois! Mas acho que sou melhor no improviso, é o que a rapa diz e eu abraço! (risos)

9 – Todo mundo fala que o Rap de Brasília é diferenciado, tem uma pegada mais gangsta. Eu tenho a impressão que uma galera nova ta desconstruindo isso e dando uma nova cara no rap do DF, assim como em outros lugares do Brasil também. Você percebe isso também?
Percebo e tenho ressalvas. Vou chover no molhado. Sou muito saudosista, cresci ouvindo os tapes de flashback do meu pai, então reitero a crítica: nos falta reverência e referência. Deixamos nossos ícones da arte brasileira serem esquecidos ou parcialmente lembrados. Assim como nosso grande Mestre Bimba morreu à míngua lá em Goiânia, vejo muitos ícones nossos aqui passando mó veneno, sem nem ao menos serem lembrados. Isso é falta de reverência. A outra questão é que o Hip Hop não começou ontem, ele tem uma história que remonta lá na Jamaica colonizada pela Inglaterra, então, meu, se você quiser dar continuidade na história, você tem que conhecê-la. Fico de cara, quando troco ideia com os dinossauro do Hip Hop, os cara sabe tudo! Sabem detalhes da vida do Nelson Triunfo, Ghetto Brothers, Malcom X, Paulo Freire. Nós, os girinos, estamos sem referências e não nos preocupamos com isso. Temos que considerar que a educação política e musical dos cara foi diferente e acredito que, assim como nos E.U.A., essa educação, na época, foi uma questão de sobrevivência, de auto-estima. Hoje isso não é tão forte. É mil fita, nêgo.

10 – O mic ta aberto…é seu…
Assassinem o “eu” pra que o “nós” possa ressurgir. Cuidem das suas famílias, seus amigos, sua cidade e seu povo.  Mantenha sua espiritualidade forte e intocável. Tenha propósitos em tudo. Dê o seu melhor. Manifeste seus talentos. Não sejam humildes demais. Sejam respeitosos sobretudo com os desrespeitosos. Imponham limites, mantenham a classe. Sejam sempre fieis e honestos. Não se iludam. Não comam qualquer caô. Questione os inquestionáveis. Estranhe tudo. Mas faça tudo isso enquanto aproveita a vida. Sejam felizes! Em síntese, como diria Spike Lee: “Faça a coisa certa!”.

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